24 de setembro de 2018, 17h40

Eleições: algumas coisas que acho que devem ser lembradas

"A história serve, entre outras coisas, para não repetir erros". Leia mais no novo artigo de Mouzar Benedito

Às vésperas de uma eleição que pode ter resultados desastrosos, principalmente depois que um infeliz transformou em mártir – esfaqueando o sujeito – o candidato da extrema-direita, fico remoendo umas lembranças.

Sei que muitos podem dizer: “Não é hora de ficar lembrando essas coisas. É hora de derrotar a extrema-direita. Essas críticas não contribuem”.

Concordo que o que é mais urgente é derrotar mesmo os saudosos da ditadura. Mas é hora também da gente pôr os pingos nos is.

Acho que isso não nos enfraquece, ao contrário, refletindo sobre tudo o que houve, teremos condições de nos fortalecer.

Empurrar a memória com a barriga não é uma boa.

Primeiro, quero avisar o que já avisei outras vezes: fui filiado ao PT desde a sua fundação até o final de 1994.

Quero agora relembrar umas coisas que ficaram esquecidas pela imprensa e mesmo por militantes tanto do PT quando de outros partidos. E, claro, mais ainda pelos bolsonaristas.

Para começar, lembro da “redemocratização” pós-ditadura. Ela foi louvada como pacífica, sem perseguições aos políticos alinhados com os ditadores. Sem ser nenhum cientista político, achei, já na época, que era um erro.

Argumentavam que os que tinham participado da ditadura, a partir dali, teriam que mudar de modos, de comportamento, tornando-se democratas e abandonando hábitos corruptos. Os novos políticos que entravam em cena e uns líderes oposicionistas mais éticos seriam os modelos que os corruptos e autoritários da época da ditadura teriam que seguir. Teriam que se adaptar aos “novos tempos”.

Do meu ponto de vista, era muito possível acontecer o contrário: com os autoritários corruptos continuando na política, e com uma base ampla e nichos de poder que tinham, eles é que poderiam influenciar os “novos”. Corruptos e crias da ditadura que se identificavam com ela deviam ser no mínimo afastados compulsoriamente da política.

Radical? A direita faz isso: vejam o caso da Polônia. Lá, para ocupar qualquer cargo público a pessoa tem que assinar um documento jurando que nunca participou dos governos comunistas. Alguém aí viu alguma crítica da imprensa ou dos cientistas políticos por isso?

Aqui, resolveram perdoar os truculentos e corruptos da ditadura. E não deu outra.

O modo de agir das raposas velhas foi tomando conta da política pós-ditadura, inclusive em partidos que não eram herdeiros da Arena, o covil das velhas raposas ditatoriais.

Chegou a um ponto que um grupo de líderes do PMDB saiu do partido para fundar o PSDB, e o motivo central alegado era a ética. Não dava, segundo diziam, para conviver com o quercismo, que tinha muitas semelhanças com o malufismo. Quércia tinha virado o líder máximo do PMDB e impunha seu poder e seus métodos.

Isso foi em 1988. Eu trabalhava na Gazeta de Pinheiros, jornal importante na época, e alinhado ao PT. Muitos de nós achamos que surgia um aliado natural do PT.

A coisa foi se encaminhando sem consagrar um namoro entre os dois, mas mais ou menos com algum respeito entre ambos. Em 1994 parecia, afinal, que o namoro daria certo: esperava-se um acerto para os dois partidos se unirem nas eleições, com o acerto de um programa de governo comum, um indicando o candidato a presidente e o outro o candidato a vice.

Mas de repente, a surpresa: o PSDB preferiu pular para o outro lado e se aliar com a direita ideológica representada pelo PFL, partido de ACM, Bornhausen, Marco Maciel e outros expoentes civis da ditadura. O motivo alegado foi que era impossível ganhar a eleição sem o apoio da direita, e seria impossível governar sem essa turma.

Antes disso era impensável, mesmo um partido de “centro”, se unir tão escancaradamente com a direita. O PSDB foi pioneiro nisso. FHC ganhou no primeiro turno e virou modelo para eleições futuras.

O próprio PT começou a achar que tinha que ser assim. Precisava da direita para ganhar e dos votos dos parlamentares de direita para governar.

Embora nas eleições de 1994 o PT não estivesse com essa turma, nessa época mesmo teve umas mudanças: passou a aceitar – legalmente – dinheiro de empreiteiras e bancos para a campanha presidencial. E trocou o discurso socialista por um moralista, apresentando-se como o único partido que não tinha corruptos.

Foi aí que saí. Avisei alguns amigos petistas sobre os meus motivos para desfiliar: o abandono do discurso socialista e a aceitação do financiamento de empresas e bancos. Nós sempre dissemos que empreiteiras e bancos financiavam campanhas dos outros partidos porque receberiam esse dinheiro multiplicado por muito depois que seus candidatos começassem a governar.

Com o PT seria diferente? O Olavo Setúbal e o Odebrecht estavam “dando” dinheiro ao PT por concordar conosco?

Num artigo no boletim Linha Direta, de comunicação interna do PT, escrevi isso e argumentos sobre essa história de que no PT não tinha mesmo corruptos.

A corrupção é poderosa, e mais ou menos inerente à espécie humana, concluí. Se um dia tivesse poder e dinheiro (quer dizer, se um governo petista assumisse o governo), os corruptos apareceriam.

Eu achava que muitos corruptos se filiariam ao PT com intenções óbvias. E podiam contaminar companheiros que não aguentariam ver gente “se dando bem” e eles mesmos não se locupletando..

Fui excomungado por muitos ex-companheiros por isso.

Mas sair do PT não significa necessariamente deixar de ser de esquerda. Conheci umas pessoas que saíram e viraram tucanas, direitistas enrustidas ou às vezes explícitas. Eu sempre disse que “saí pela porta da esquerda”.

Continuei e continuo sendo de esquerda e reconhecendo muitos petistas como companheiros. Votei em alguns. Nas eleições em que Lula e Dilma foram eleitos, votei neles.

Não gostei de ver o PT assimilando métodos tucanos, dando cargos e chances de meter a mão na grana a qualquer tipo de gente, para manter maioria. Mas uns petistas me diziam: “Você não é a favor da bolsa-família? O único jeito de aprovar esse projeto foi dando aos políticos e partidos vagabundos o que eles queriam”. Assim foi. Muitos projetos vieram e foram aprovados em troca de ceder ministérios e instituições públicas para o PP de Paulo Maluf, o PMDB de Sarney e Jucá e outros por aí. No que chamam de “Petrolão”, quem foram as figuras centrais e os maiores beneficiários do esquema? Foram eles, mas a fama ficou com o PT. Certo, teve petistas que entraram na onda também.

Agora ouço o discurso inclusive de jornalistas malformados ou mal-intencionados, economistas de direita e “cientistas políticos” que parecem não entender melhor de política do que uns bêbados que vejo nos botecos, só vendo defeitos nos governos petistas, afirmando que a “maior recessão da história” é culpa dos governos petistas. Não aconteceu nada de bom! Não valeu a saída de gente da pobreza, nem a criação de muitas universidades públicas, nem a luz elétrica chegando onde nunca chegava, o dinheiro de assistência chegando diretamente às vítimas das secas (antes só chegava aos coronéis)…

A atuação do PSDB no Congresso, para minar principalmente o governo Dilma (que errou bastante, mas não tem o monopólio da culpa) nem é lembrado, ou é minimizado ao extremo.

Falam também da “maior corrupção da história”. Quantos bilhões foram pelo ralo? Claro, comparar não justifica, mas fingem que FHC não vendeu por US$ 3,2 bilhões, para começar a pagar dali a cinco anos, a Vale do Rio Doce, avaliada por ele mesmo, inicialmente, em US$ 120 bilhões. E ainda “emprestaram”, via BNDES, um bilhão para começar a pagar dali a cinco anos também, para “modernizar” a empresa. Alegavam que o governo não tinha dinheiro para modernizar a Vale, mas tinha para entregar aos “compradores”. Isso é só um exemplo.

Todo o processo privatista mereceu o epíteto “privataria tucana”. Bilhões e bilhões foram pelo ralo. Não teria sido corrupção muito maior do que a que veio depois?

Mas tudo isso foi convenientemente esquecido.

E quando surgiu a chance, os partidos e parlamentares escrotos que se aproximaram dos governos petistas para se locupletarem, pularam para o lado tucano. Bom castigo para quem confiou neles.

E a imprensa? Em mais de doze anos de governo, o PT não fortaleceu uma imprensa independente, preferiu despejar dinheiro na Globo, achando que na hora da onça beber água ela não iria fortalecer o outro lado. Quando alguns jornalistas procuraram gente do governo pedindo apoio para criar ou fortalecer órgãos pelo menos não direitistas, ouviam de uns sábios governistas: “Nós já temos a Globo”.

Se tivéssemos uma imprensa que os governos petistas não ousaram criar ou apoiar, o papel da direita toda, incluindo os tucanos, teria ficado claro. Com a mídia praticamente toda fazendo o papel de advogada da direita, ocorreu a demonização que é tratada como verdade absoluta.

E o uso de um doleiro já conhecido por ter feito delação premiada antes? Um sujeito sem ética nenhuma? Certo também… Não tinham que usar doleiro nenhum, se não tivesse manipulação de dólares ilegais.

E a entrega de todo o discurso e toda estratégia política a marqueteiros, cujo método inclui “desconstruir” alguns adversários (como a direita faz com os petistas)? Essa “entrega” aos marqueteiros acabou refletindo mais ainda nas alianças: o que valem são minutos na TV, para eles despejarem suas produções caríssimas e nem sempre éticas.

Tem muita coisa didática nessa zorra toda. Pena que talvez nem tenhamos chance de mostrar que aprendemos. Algumas delas são essas já citadas. O bom-mocismo dos tucanos é outra (além do que já foi dito). Lembro da eleição de Severino Cavalcante para presidente da Câmara dos Deputados. Os tucanos nunca fizeram mea-culpa, nenhuma autocrítica sobre isso. Mas tiveram papel chave na eleição de um sujeito colocado ali para minar a credibilidade do governo e, pior, prejudicar muito o próprio país para o que fingem apenas querer o bem.

Não reconhecem seu papel na crise atual, como atravancadores da governabilidade, com seus projetos-bomba, com sua atuação para minar o governo seja pela via judicial como pela via da atuação no Congresso. Mas o certo é que fazem tudo para o país ir pro brejo quando o governo não é deles, e conseguem – com o apoio da mídia, repito – fazer parecer que os culpados são os outros.

E eles têm uma retaguarda danada. As manifestações de junho de 2013 se radicalizaram por causa da truculência da polícia de Geraldo Alckmin, mas ele foi um dos poucos a saírem ilesos daquela radicalização apropriada pela direita, que se fortaleceu a partir daí e se tornou poderosa como é hoje. E ele finge que não tem nada com isso.

Repito: precisamos refletir sobre isso.

Os governos petistas estão levando a culpa pelo que fizeram e pelo que não fizeram. E se a gente continuar não encarando isso, vão continuar levando.

Eu que não sou petista há mais de vinte anos, acho que é preciso tomar jeito. Voltar a governar, sim (seja encabeçando o governo ou como parte dele, num projeto decente), mas aprendendo com o passado e com o presente. A História serve, entre outras coisas, para isso: não repetir erros.

PS: Ando horrorizado com a notícia de pessoas que votarão no Bolsonaro. Muita gente que tive o dissabor de conhecer eu já sabia que votaria nele. Mas tem gente que eu achava que era pelo menos democrática… E não só votarão nele como fazem discursos histéricos na defesa do “coiso”, babando de ódio contra adversários. Tortura, assassinato de opositores, racismo, tudo isso está sendo tratado como coisas normais por essas pessoas. Acho que isso tem um pouco a ver com o motivo pelo qual escrevi este texto.