13 de março de 2018, 22h29

Eleonora Menicucci: “Nosso maior erro foi não ter feito o marco regulatório da mídia”

Em entrevista, a ex-ministra Eleonora Menicucci fala sobre o papel da mídia, misoginia e analisa o Brasil do golpe

Foto: Gibran Mendes

Por Gibran Mendes, no Porem.net

Eleonora Menicucci de Oliveira, 73 anos. Professora de saúde coletiva da Universidade Federal de São Paulo. Socióloga e ministra-chefe da Secretaria Especial de Política para as Mulheres de Dilma Rousseff. Durante sua gestão implantou políticas importantes, como a Casa da Mulher Brasileira, que compara com o SUS pela universalização do acesso e integralidade no atendimento. Mineira de Lavras.

Levou em frente a briga do Femínicidio e lutou pela aplicação efetiva da Lei 11.340/06, conhecida popularmente como Maria da Penha.

Acompanhou de perto o Golpe de 2016. É uma das pessoas mais próximas de Dilma Rousseff, com quem partilha uma longa amizade. Foram colegas, vizinhas e presas. Ambas enfrentaram o horror da tortura. Sofreram nas mãos de militares inescrupulosos e estiveram no mesmo presídio, Tiradentes.

Eleonora Menicucci esteve em Curitiba no último dia 6 de março quando participou do lançamento do segundo volume da Enciclopédia do Golpe, que neste livro, trata da influência da mídia na derrubada de sua amiga. Mesmo com dois ligamentos do pé rompidos segue uma agenda de atos e mobilizações em todo o País. Afinal, o que é uma contusão no pé para quem enfrentou o terror da tortura?

A ministra recebeu o Porém.net pouco antes do evento de lançamento do livro no qual colaborou. A entrevista aconteceu na sede do Instituto Declara, responsável pela produção da obra que trata do Golpe de 2016.

Simpática, leve e assertiva, Eleonora falou sobre o Golpe de 2016, enfatizou o papel da misoginia e da mídia, comparou os momentos de ruptura democrática que viveu, falou sobre a personalidade de Dilma Rousseff, de sua gestão no Governo Federal, da relação com o Congresso Nacional  e revelou o nome de quem puxou o grito ofensivo contra Dilma no Itaquerão na Copa de 2014: Luciano Huck.

Porém.net: A senhora veio para participar de um debate e do lançamento do livro. Em que momento percebeu que a mídia tinha definitivamente embarcado no golpe?

Eleonora:  Não teve um momento em que percebi. Eu acredito que desde a primeira eleição da presidenta Dilma a mídia se manifestou contrária. Eu me lembro perfeitamente de um ato de extrema misoginia. Foi quando a presidenta foi na bancada do Jornal Nacional, uma vez que foi em todas quando venceu a eleição em 2010, o Bonner quis dar um “beijinho” e ela estendeu a mão. Ele não faria isso com um homem e ficou super sem graça. O golpe não começou em 2014. Começou na Ação Penal 470 quando tentaram o impeachment do presidente Lula.

A mídia já se manifestou contrária ao PT e ao nosso governo. Mas ela ainda foi um pouco mais contida, mas batia muito no Lula. A Globo, sobretudo. Com a Dilma – essa é uma análise que faço a partir de hoje – isso ficou perceptível na Copa das Confederações, no momento em que surgem, em 2013, os movimentos de estudantes. Eles começam em São Paulo e então a direita, e hoje temos claro a participação dos Estados Unidos, entra e banca. Foi a dica para “ingovernabilidade”.

Eu dizia assim “eu estou mais preocupada em dar tudo certo na Copa do que ganhar a eleição”. Veja, eu. Por que? Pensava que caso desse tudo certo na Copa esta seria a vitória e assim a mídia pararia de bater. Quando a Dilma foi ao Itaquerão na abertura da Copa, que mandaram ela tomar naquele lugar eu não tive dúvida. Foi a elite branca e rica quem deu o tom. Hoje sabemos que o grito no Itaqueirão foi puxado pelo Luciano Huck.

Ainda tem o Aécio que foi o mentor disso tudo. Ele perde a eleição por muito pouco e entra com aquela história “Não vai ganhar, se ganhar não é diplomada, se for diplomada não toma posse e se tomar posse não governa”. Ele repetiu o Lacerda com o Getúlio. Então não tenho a menor dúvida da participação da mídia e em todos os textos que escrevo sobre o golpe eu destaco muito isso.

Porém.net: Mas além da mídia, em que momento a Senhora percebeu que o golpe estava consumado, que não havia mais volta?

Eleonora:  O momento em que nós fomos afastadas e eu fiquei com ela lá no Palácio do Alvorada durante os três meses, de maio a agosto.

Porém.net:  A Senhora foi uma das pessoas mais próximas da presidenta…

Eleonora:  Sim, eu sou. Nós fomos presas juntas. Ficamos na torre, enfim. Olha, todo golpe, seja com metralhadora ou parlamentar, como foi esse, não acontece para ficar um ou dois anos. Tem uma característica agora que não aconteceu em 1964. Os Chicago Boys não conseguiram implantar efetivamente as políticas neoliberais do Consenso de Washington, do Milton Friedmann, no Brasil até então.

Eles criaram essa crise de ingovernabilidade para dar o choque neoliberal, como fizeram com o Chile. Quando se tomou consciência, quando nós lemos a Pinguela para o Passado, do Temer, do MDB, o que é aquilo? É um tratado neoliberal. Nem o Collor, nem os militares que eram nacionalistas, nem o Fernando Henrique, conseguiram implantar as políticas neoliberais em sua totalidade. Nem mexer na CLT. O golpista conseguiu em tempo recorde porque ele é a marionete do mercado internacional. É o Meirelles lá, que é o homem da Globo e essa característica de que o golpe veio para ficar tem quatro pilares.

Primeiro criar uma crise de ingovernabilidade para a Dilma. Eu acho que eles optaram por ela porque era o quarto mandato de uma política de inclusão social. Além do que, era o segundo mandato de uma mulher. É inadmissível para o neoliberalismo, para o capitalismo rentista, que as mulheres tenham lugar que não seja de marionete deles, entendeu? Isso supostamente seria mais fácil com ela. A presidenta ainda teve uma determinação de não dialogar com (Eduardo) Cunha e dialogar apenas coisas determinadas com o Congresso. Essa é a primeira fase.

A segunda é retirá-la e retiraram. A terceira foi a implantação em tempo recorde da tríade neoliberal: privatizar, precarizar e cortar gastos sociais. Como eles fizeram isso? Com congelamento do orçamento por 20 anos, com a morte da CLT e a Reforma da Previdência que eles trocaram pela farsa da intervenção militar no Rio de Janeiro. Temos outras como a Escola sem Partido – que é algo gravíssimo, retirando as disciplinas de humanas que são fundamentais para a estruturação crítica de qualquer cidadã e cidadão – e a censura.

Quando eles começaram a censurar as exposições, os museus, a tapar as estátuas do MASP com tarja preta eu disse “mas o que é isso?” O meu caso com o Alexandre Frota. Foi uma tentativa de calar as mulheres, me calar para calar as mulheres na luta contra o estupro.

A quarta fase é não ter eleições ou que tenha sem o presidente Lula. Ou seja, retirar o Lula de vez da cena política. O que significa retirar de vez? É criar um factoide de crime que não tem criminoso. Tem um caixão mas não tem um defunto. O objetivo é impedir ele de ser candidato, o que estão conseguindo. A decisão do STJ, por mais esperada que fosse, é lamentável, e prender o Lula consuma o golpe do ponto de vista de ter retirado a maior liderança de esquerda da América do Sul. Quando nós falamos que eleição sem Lula é fraude é porque é fraude sim, porque é uma mentira que vai ter eleição.

Podem ter outros concorrentes do campo de centro-esquerda como a Manuela, o PSOL, o Ciro, mas eles vão fazer arranjo e quem vai ganhar ficará entre eles mesmos. Isso se não fizerem um semiparlamentarismo ou o Temer, que agora está dando essa força toda para o exército brasileiro, intervir em mais dois estados. Aí não precisa ter eleição para executivo, só tem para parlamentares. Então eu acho que o golpe perdura.

Porém.net:  O golpe ainda não acabou…

Eleonora:  Não. Eles ainda não prenderam o Lula e não fizeram a Reforma da Previdência.

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