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21 de março de 2018, 18h16

“Eles estão formando um caldo de cultura violento”, diz padre Júlio Lancellotti sobre ameaças nas redes

O pároco vem recebendo ameaças de morte: “Faz parte da prática de desqualificar as pessoas que defendem os direitos humanos. Veja o que ocorreu com a Marielle Franco”

“Além das ameaças físicas contra mim, ainda mentem, pois dizem que eu desvio recursos que deveriam ser usados no atendimento dos moradores de rua”, diz o padre Lancellotti – Fotos: Reprodução O padre Júlio Lancellotti vem sendo alvo de ameaças de morte e agressão postadas nas redes sociais. O sacerdote tem uma longa trajetória como referência na defesa dos direitos da população de rua da cidade de São Paulo. “Essas ameaças sempre existiram, mas ficaram mais agudas, depois da ‘limpeza’ que a prefeitura realizou no Parque da Mooca, à revelia da própria legislação municipal que eles não cumprem. Ou seja,...

“Além das ameaças físicas contra mim, ainda mentem, pois dizem que eu desvio recursos que deveriam ser usados no atendimento dos moradores de rua”, diz o padre Lancellotti – Fotos: Reprodução

O padre Júlio Lancellotti vem sendo alvo de ameaças de morte e agressão postadas nas redes sociais. O sacerdote tem uma longa trajetória como referência na defesa dos direitos da população de rua da cidade de São Paulo. “Essas ameaças sempre existiram, mas ficaram mais agudas, depois da ‘limpeza’ que a prefeitura realizou no Parque da Mooca, à revelia da própria legislação municipal que eles não cumprem. Ou seja, retiraram à força os moradores de rua do local, sob ameaças, levaram seus pertences e ainda disseram: ‘Chama o padre, pois vamos fazer o mesmo com ele’”, denuncia Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, em contato com a Fórum.

O padre, que há 34 anos comanda a Paróquia Matriz São Miguel Arcanjo, na capital, revelou que essas ameaças fazem parte de uma articulação. “São grupos ligados à GCM (Guarda Civil Metropolitana), a setores da prefeitura, da Polícia Militar e comerciantes da Mooca, que não aceitam a população de rua e querem varrer esse pessoal. Eles estão formando um caldo de cultura extremamente violento, faz parte de uma radicalização que vivemos no país e se generaliza a cada dia, até deixar a convivência entre as pessoas insuportável. São os mesmos que me chamam de padre comunista”, revela.

As pessoas reclamam, principalmente, do aumento da população de rua na região, especialmente da favela próximo ao viaduto Bresser, a Favela do Cimento, que ocupa um terreno que pertence à prefeitura, mas que está sendo disputada pelo mercado imobiliário. Atribuem o problema ao padre Lancellotti. “Eles dizem que não podem retirar os moradores da rua, porque o padre não quer”.

Apesar das ameaças, o padre Lancellotti ressalta que sua principal preocupação é com a exposição dessas pessoas. “Além das ameaças físicas contra mim, ainda mentem, pois dizem que eu desvio recursos que deveriam ser usados no atendimento dos moradores de rua. Dizem, também, que eu ganho R$ 1 milhão por mês. Pergunto: de quem? Isso faz parte da prática de desqualificar as pessoas que defendem os direitos humanos. Veja o que ocorreu com a Marielle Franco”, acrescenta.

Reação

Um grupo de advogados, entidades ligadas aos direitos humanos e outras personalidades já ingressaram com representação no Ministério Público Estadual, solicitando apurações a respeito das ameaças. Os advogados e outros signatários da representação pedem investigações por intermédio da instauração de inquérito policial, que seja requisitado e acompanhado pelo Ministério Público, que resulte na identificação e responsabilização dos autores das ameaças.

“O posicionamento dessa parcela da população tem se mostrado demasiadamente violento em manifestações no âmbito de redes sociais e cresce a preocupação com a integridade física tanto dos moradores em situação de rua, como dos que dispensam especial cuidado a essas pessoas, como é o caso do padre Júlio Lancellotti”, diz a ação. “Em repúdio a essas ofensas e ameaças, demonstraremos nosso apoio ao padre caminhando pelo bairro da Mooca e exigindo respeito e compaixão por todas as pessoas, independentemente de sua condição social, gênero ou raça”, prossegue a convocação.

A representação é assinada pelos advogados Juliana Costa Hashimoto, Valdenia Paulino, Ariel de Castro Alves, André Alcântara, entre outros. O documento também é assinado pelo Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, e por entidades como o Condepe, Ação dos Cristãos contra a Tortura, Grupo Tortura Nunca Mais, Comissão de Justiça e Paz, entre outras.

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