Eles não amam as mulheres | Revista Fórum
24 de julho de 2013, 18h57

Eles não amam as mulheres

Grupos utilizam a internet como plataforma para propagação de discurso machista e misógino

Grupos utilizam a internet como plataforma para propagação de discurso machista e misógino

Por Camila Feltrin

Esta matéria faz parte da edição 123 da Fórum, compre aqui.

A lenda em torno do nome de Nessahan Alita conta que o rapaz era professor de Geografia da rede pública de ensino e também especialista em orientação junguiana, mas que hoje, após passar em um concurso da Funai, estuda a vida de índios. Essa é a lenda, e não há nada comprovado. O que existe de real é uma dezena de livros publicados sob esse pseudônimo, que são seguidos e até deturpados. Influenciados pela literatura de Alita, homens e meninos se reúnem em grupos, fóruns e comunidades nas redes sociais para discutir os tais ensinamentos e variações dele. Dois dos principais livros do enigmático escritor são O lado obscuro das mulheres e O profano feminino. Em suma, as publicações ensinam que as mulheres não podem ser muito bem tratadas, e quanto mais são ignoradas, mais se interessam por um pretendente.

(Belovodchenko Anton-stock.xchng)

Os seguidores dos livros condenam o uso de violência e ameaças praticadas pelos Sanctos, grupo mais extremista, mas também não deixam de ter pensamentos amedrontadores e chocantes. Com – ou sem – licença poética da trilogia de filmes Matrix, os jovens dizem que é preciso enxergar a verdade e a manipulação feita pelas mulheres, mídia e governo. A felicidade só seria possível na ‘Real’, um suposto estado de consciência superior que possibilitaria enxergar as supostas manipulações femininas na sociedade e nos relacionamentos.

Entre as postagens, é possível ver que terminar um relacionamento ou não aceitar a proposta de um pretendente do sexo masculino estão entre os “delitos femininos”. Como se precaver disso? Os seguidores de Nessahan Alita ensinam que o correto é se distanciar de amizades femininas, mas adquirir “buc**** amigas”.

A preferência política dos participantes oscila entre direita e extrema direita. Os ídolos desses fóruns são ícones polêmicos da sociedade e política brasileira, como o filósofo Olavo de Carvalho, o blogueiro Julio Severo e o deputado Jair Bolsonaro. Na ficção, o assassino Max (Marcelo Novaes), da novela Avenida Brasil; Coronel Jesuíno (José Wilker), de Gabriela, com o bordão “Deite que vou lhe usar”, são citados como exemplos de machos alfa que não se deixam ser comandados por mulheres.

Como boa parte dos fóruns virtuais, os que pregam o “masculinismo” também têm suas próprias gírias e termos. A diferença é que o vocabulário tem termos humilhantes para as mulheres. Alguns exemplos são: “merdalheres”, “feminazis”, “m$ol” (para mães solteiras), “bucetocard” (em referência às gentilezas que mulheres bonitas, ou não, conseguem), entre outros do nível.

“Nada disso é novo, mas, com a internet, esses homens frustrados, tristes, desesperados, podem se reunir em blogues, fóruns e páginas no Facebook”, comenta a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Lola Aronovich, que virou um tipo de especialista no assunto de tanto escrever (e ser ameaçada) sobre os “masculinistas” e “Guerreiros da Real” em seu blogue (www.escrevalolaescreva.blogspot.com). Esses internautas citam trechos de livros do Nessahan Alita como se fossem de uma bíblia e, mesmo aparentando serem novos e sem muita experiência de vida (leia-se amorosa e sexual), falam com propriedade que nenhuma mulher presta e que estão prontas para enganar os homens com armadilhas naturais de dissimulação. Vez ou outra, trechos machistas de autores e pensadores como Schopenhauer e Nietzsche, além de livros como a Bíblia e o Alcorão, são usados como justificativa de tais pensamentos.

Nos fóruns, é possível encontrar diversos materiais de estudo para essa nova ideologia e debater assuntos pertinentes, desde como aumentar os adeptos do movimento no Brasil até o modo como as mulheres agem e a suposta inconstitucionalidade da lei Maria da Penha. Em alguns relatos, os usuários de grupos da ‘Real’ dizem que gostariam de ter nascido em épocas passadas, como na era medieval, ou até na década de 1950, tempo m que as mulheres ficavam em casa cuidando dos filhos e da comida. Eram mais “honradas” que as de hoje, de acordo com eles.

Segundo Luci Praun, professora e coordenadora do curso de Ciências Sociais da Universidade Metodista de São Paulo, mudanças sociais podem gerar sentimentos saudosistas e sensação de perda de poder de grupos já estabelecidos. “Mesmo que seja do pequeno poder, desde mandar na mulher ou poder discriminar alguém”, explica.

Os ensinamentos e dicas dessa nova filosofia são duvidosos, alguns são até risíveis. Um dos seguidores, por exemplo, discorre sobre a necessidade de alternar sexo entre garotas de programa e “civis” (sic). Um ponto apoiado em todos os grupos é de que as mulheres não gostam de sexo, apenas o fazem como forma de seduzir e controlar o homem. Existe a vertente de internautas extremamente católicos, mas não há regra religiosa. Lola acredita que essa mentalidade pode gerar vários danos para a sociedade. “Creio que os ‘masculinistas’ devam ser considerados um grupo de ódio. Um discurso desses pode servir de combustível para ações mais concretas como atentados, espancamentos e até assassinatos”, diz.

De acordo com Marcia Tiburi, filósofa e professora de pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, machismo não é considerado crime, mas é uma prática antiética. “A ética estima o respeito de uma pessoa para outra, e isso não acontece com o discurso machista, que também não pode ser considerado imoral por se sustentar dentro do regime patriarcal conservador vigente”, conta.

O discurso conservador dos usuários por trás de nomes fictícios e avatares é tido pela filósofa como fascismo, qualificado como ódio contra uma pessoa ou grupo. Ela crê que, se estiverem de cara limpa, pensariam mais vezes antes de defender tais conceitos. Os usuá­rios comentam que esconder o rosto é necessário para proteger suas identidades e por causa das possíveis consequências do “matriarcado”, das “feminazis”’ e da “mídia gayzista”.

Nos grupos em questão, o feminismo é pichado como um movimento radical em prol da destruição de lares e da estigmatização do homem, nunca como uma jornada a favor dos direitos das mulheres, como o recém-conquistado poder de voto, a criminalização da violência doméstica e a luta pela equiparação salarial. “A opressão deles vem da democracia”, analisa a filósofa, que também acredita que os jovens com esse discurso são frutos de famílias, escolas e meios de comunicação que formaram e formam pessoas sem o amparo reflexivo para lidar com a diversidade.

Informatização do machismo
O debate sobre o limite do humor e o mau gosto está longe de ter uma conclusão na vida real e mais ainda nos meios digitais. Blogues e páginas no Facebook expõem o lado machista da sociedade, mas a pressão de internautas engajados faz com que algumas publicações sejam retiradas do ar.

O blogue Testosterona, por exemplo, tinha uma parceira comercial com o portal MTV desde o segundo semestre de 2010, que foi encerrada no começo de 2013. A empresa de comunicação alegou redução de custos, mas o que circula na blogosfera é que a página apelou em comentários e postagens, principalmente após a veiculação do vídeo “Como fazer sexo anal com sua namorada”, em que o protagonista dá uma tijolada na cabeça da mulher, que desmaia em sua cama.

Uma das criadoras e administradoras (com dois irmãos) da Fan Page “Moça, você é machista”, com quase 85 mil likes, a pedagoga Andréa Benetti teve uma motivação professoral na hora de criar a página. “Em nosso contato na rede social, começamos a perceber o quanto as mulheres podem ser machistas. Tratamos nossos filhos e filhas de formas desiguais, nossos alunos e alunas são separados por tarefas, por cores, por brincadeiras, colocamos a culpa da traição nas mulheres, e não em nossos namorados, achamos que a mulher de saia curta pede para ser estuprada e por aí vai. É com elas que devemos falar, é para elas que a página foi criada. Não adianta pedir aos homens igualdade, devemos, como mulheres, exigi-la”, diz.

Em “O Facebook tem algum problema com as mulheres?”, recente artigo publicado no The Guardian e reproduzido na Folha de S.Paulo, a ativista inglesa Laura Bates questiona a eficácia de denúncias de violência da rede social. Para ela, a rede incita o estupro e a violência doméstica ao não remover publicações relacionadas a esses crimes. A empresa de Mark Zuckerberg alegou que “o Facebook não permite discurso de ódio, mas faz distinção entre um discurso sério e um discurso de humor”. A autora contesta se “imagens de mulheres agredidas, ensanguentadas e de olhos roxos” são realmente engraçadas.

Assim como nos blogues, os participantes de grupos masculinistas parecem não ter se adequado aos direitos conquistados pelas mulheres ao longo dos anos. Conti­nuam a rechaçar a independência financeira e sexual do gênero feminino. Ao contrário das reclamações desses internautas, que dizem estar vivendo em um matriarcado, a sociedade está longe de estabelecer uma situação de equidade para homens e mulheres. Ainda há alguns assuntos para serem tratados e direitos a serem conquistados, desde o respeito até a equiparação salarial.

De acordo com o Mapa da Violência 2012, elaborado por Julio Jacobo Waiselfisz, da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), em 2009 o Brasil era o sétimo no ranking dos países em que mais mulheres são assassinadas, à frente de países considerados violentos e misóginos, como Cazaquistão e Iraque. Os parceiros, como marido, namorado ou ex, são responsáveis por quase metade dos crimes. Na faixa etária de 20 a 49 anos, o agressor de 65% dos casos já teve ou tem relação amorosa com a vítima.

Na área trabalhista, mulheres também continuam prejudicadas. O estudo “New Century, Old Disparities”, realizado em 18 países americanos, mostra que homens brasileiros ganham 30% a mais que mulheres com a mesma instrução e para os mesmos cargos. Essa porcentagem aumenta em serviços braçais em áreas rurais e diminui entre os jovens com formação universitária.  F

Perigo real
A pregação desse tipo de ódio na internet está espalhada pelo Twitter, Facebook e blogues. No triste caso das crianças mortas por Wellington Menezes de Oliveira em Realengo (RJ), em abril de 2011, surgiu a hipótese de que o atirador participasse de fóruns pautados na superioridade do sexo masculino e de que as mulheres são seres oportunistas. Das 12 vítimas fatais, 10 eram meninas.
Durante a Operação Intolerância, deflagrada em março de 2012, a Policia Federal prendeu Emerson Eduardo Rodrigues e Marcello Valle Silveira Mello em Curitiba (PR) e Brasília (DF), respectivamente. Eles eram responsáveis pelo site SilvioKoerich.org, endereço virtual que continha diversas mensagens de ódio contra mulheres, negros, nordestinos, gays, imagens de corpos mutilados e incentivo à pedofilia e zoofilia.

A dupla também planejava um ataque à UnB (Universidade de Brasília), semelhante ao de Realengo. No atentado frustrado pela PF, os alvos seriam estudantes do curso de Ciências Sociais da faculdade. O motivo? Pensamentos esquerdistas são repudiados por esse tipo de internauta. Emerson e Marcello são classificados como sanctos, a variação extremista da ideologia masculinista. Metade da capa do Correio Braziliense, em 23 de março de 2012, foi dedicada à operação da PF.

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