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31 de julho de 2014, 12h50

Elisa Quadros e a desqualificação política a partir do discurso machista

Socióloga atenta para o fato de que a vida pessoal amorosa de ativistas homens nunca é utilizada para o descrédito político

Socióloga atenta para o fato de que a vida pessoal e amorosa de ativistas homens nunca é utilizada para provocar descrédito político 

Por Marcelo Hailer

Desde a prisão dos ativistas no Rio de Janeiro, vários fatos chamaram a atenção e geraram pautas nos meios de comunicação, entre eles, a citação do filósofo Mikhail Bakunin, morto em 1876, como suspeito, e a utilização dos termos “anarquista” e “esquerdista” para classificar as pessoas investigadas pelo inquérito. Sem contar a acusação de que o grupo iria “explodira a Câmara Municipal” da cidade do Rio de Janeiro. Porém, outro fator que começa a ser utilizado por parte da imprensa como maneira de desqualificar a atuação política de Elisa Quadros são “conflitos” de sua vida pessoal amorosa.

De acordo com matérias veiculadas em alguns veículos, a denúncia teria partido de uma integrante da FIP (Frente Independente Popular), que teria tido uma desavença com Elisa Quadros (Sininho), pois, esta teria “roubado” o namorado da denunciante. A primeira questão é a seguinte: utiliza-se tal acusação sem nenhum critério, apenas para atingir Quadros; segundo e mais importante é a desqualificação política baseada no discurso de gênero e marcadamente machista e a retomada do velho discurso de “lugar de mulher não é na política”.

A socióloga e pesquisadora em estudos feministas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carla Cristina Garcia, atenta para o fato de que o discurso utilizado pela imprensa clássica, além do teor machista, possui também caráter eleitoral. “Quando a então candidata à presidência da República Dilma Rousseff era atacada, qual foi o discurso utilizado contra ela? Mulher, terrorista e ex-gruerrilheira. Aí devemos fazer a leitura: estamos em ano de eleição. De que maneira estão tratando essa ativista na imprensa? Mulher e terrorista”, analisa.

Garcia também analisa o fato de que apenas as mulheres são mostradas nas reportagens, por meio de fotos e conversas gravadas. “Eu não tenho dúvida de que, além da aproximação com a história da Dilma Rousseff há aí, também, um discurso fortemente machista. Só se fala da Elisa Quadros e de outras meninas, os homens não aparecem. Isso não é por acaso”, critica a socióloga.

A pesquisadora também questiona o fato de que a vida privada e amorosa só é utilizada para desqualificar as ativistas mulheres. “E pra piorar utilizam essa história de que a denúncia foi feita por que a Elisa teria roubado o namorado de uma outra ativista. É óbvio que isso é machismo. Quantas vezes se usou esse tipo de discurso com homens – o fulano denunciou o beltrano por que ele roubou a sua namorada? Eu nunca vi. E olha o termo utilizado: roubou. Ou seja, o velho discurso machista de que mulheres, mesmo na política, disputam um macho. Esse tipo de argumento é utilizado historicamente para desqualificar a luta das mulheres”, finaliza Carla Cristina Garcia.

Foto: Fotos Públicas