Imprensa livre e independente
06 de janeiro de 2015, 15h22

Em meio à crise de violência, México apresenta taxa de feminicídio próxima à pandemia

Culpabilização do sexo feminino, naturalização da violência e corrupção do Judiciário contribuem para que 6 mulheres sejam mortas diariamente no país.

Culpabilização do sexo feminino, naturalização da violência e corrupção do Judiciário contribuem para que 6 mulheres sejam mortas diariamente no país Por Opera Mundi Seis mulheres são assassinadas todos os dias no México, revela o Observatório Nacional Cidadão de feminicídio, uma coalizão de 43 grupos que documentam essa modalidade de crime no país. No entanto, somente 24% dos 3.892 femicídios identificados pelo órgão entre 2012 e 2013 foram de fato investigados pelas autoridades e apenas 1,6% resultou em condenação. “Feminicídios são uma pandemia no México”, define Ana Güezmes, representante local da ONU Mulheres, agência dedicada às questões de gênero, à...

Culpabilização do sexo feminino, naturalização da violência e corrupção do Judiciário contribuem para que 6 mulheres sejam mortas diariamente no país

Por Opera Mundi

Seis mulheres são assassinadas todos os dias no México, revela o Observatório Nacional Cidadão de feminicídio, uma coalizão de 43 grupos que documentam essa modalidade de crime no país. No entanto, somente 24% dos 3.892 femicídios identificados pelo órgão entre 2012 e 2013 foram de fato investigados pelas autoridades e apenas 1,6% resultou em condenação.

“Feminicídios são uma pandemia no México”, define Ana Güezmes, representante local da ONU Mulheres, agência dedicada às questões de gênero, à Al Jazeera America.

Para ela, a impunidade é o principal motor deste crime, impulsionado por condutas sociais que permitem que a violência contra o sexo feminino seja ignorada e vista como situação normal no país.

Além disso, a maioria desses casos se perde no corrupto sistema de Justiça do México, onde policiais culpabilizam a mulher e frequentemente são comprados por grupos criminosos, permitindo que os assassinos escapem da punição, explica Maria de la Luz Estrada, líder do Observatório, ao mesmo veículo.

Veja também:  Dois alunos do Colégio Bandeirantes fazem sinal de Lula Livre ao lado de Bolsonaro

A palavra feminicídio entrou no debate mexicano nos anos 1990, após uma onda de desaparecimentos e assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez. Para ativistas do órgão, a distinção de femicídio na lei é importante, porque a natureza sexual do crime distingue as mortes de um homicídio comum.

“Em uma sociedade machista como a do México, as autoridades estão sempre questionando o que as mulheres fizeram. ‘O que ela estava vestindo? Ela era sexualmente ativa?’ Isto perpetua a impunidade”, explica Maria de la Luz. Para combater a falta de estatísticas confiáveis do governo, o Observatório realiza entrevistas porta-a-porta em bairros marginalizados, onde o feminicídio ocorre com frequência. Em geral, as vítimas são mulheres jovens vulneráveis, mães solteiras pobres ou adolescentes que não têm dinheiro ou influência para buscar uma ação legal e reivindicar seus direitos.

Tal naturalização da violação se traduz em outros dados da agência das Nações Unidas: pelo menos 63% das mulheres relatam ter sofrido abusos por mãos masculinas que, em sua maioria, tratava-se de parceiros sexuais das vítimas.

Veja também:  Léo Índio também terá seu sigilo bancário quebrado por ter assessorado Flávio Bolsonaro

De acordo com a promotora especial para crimes violentos contra as mulheres, Nelly Montealegre Diaz, não houve um caso de feminicídio processado em 2014. Ela culpa a impunidade, a corrupção e a dificuldade que a sociedade tem em aceitar a especificidade da violência de gênero. “Se um alguém vê uma colega com um olho roxo ou um pai batendo na mãe, eles pensam que é normal. As mulheres são vistas como objetos”, critica.

Em 2014, o México enfrentou e continua enfrentando uma das maiores crises políticas e turbulências sociais após o desaparecimento de 43 estudantes da escola de Ayotzinapa que desapareceram em Iguala, no estado de Guerrero, no fim de setembro. O crime teria sido resultado de uma ação conjunta entre o governo local e os cartéis de narcotráfico.Alvo de exigências de impeachment, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, tem entre suas bandeiras o combate à violência das drogas em geral, mas nunca se pronunciou contra o feminicídio, uma preocupante tendência que se aproxima à pandemia no país.

Veja também:  Haddad: “Um país que se sonha grande precisa de uma educação de qualidade”

Foto de capa: Flickr/ Beto Sanchez

 

Fórum em Brasília, apoie a Sucursal

Fórum tem investido cada dia mais em jornalismo. Neste ano inauguramos uma Sucursal em Brasília para cobrir de perto o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Clique no link abaixo e faça a sua doação.

Apoie a Fórum