21 de novembro de 2018, 10h17

Entre a perda e a presença, em “Los silencios”

Los silencios, dirigido por Beatriz Seigner, que levou o prêmio de Melhor Direção pelo filme no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, não faz distinções entre realismo e fantasia.

Refugiados em uma ilha próxima à fronteira entre a Colômbia e o Brasil, na Amazônia, Amparo (Marleyda Soto), com seus filhos, procura refazer sua vida depois do desaparecimento do marido. A comunidade da ilha já não pode receber refugiados, temendo a variedade de problemas em que o gesto pode acarretar. Mas recebem Amparo, de toda a maneira, enquanto a mulher espera a indenização pela morte do marido e uma filha, dificultada pela falta dos corpos. Na comunidade, a família é conduzida por Abuelita (Doña Albina), como chamam uma das mais velhas moradoras do local, que entrega a Amparo sua nova morada e que parece, também, viver entre seus mortos.

Los silencios, dirigido por Beatriz Seigner, que levou o prêmio de Melhor Direção pelo filme no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, não faz distinções entre realismo e fantasia. A referência mais próxima para o que o filme alcança aqui é a obra do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, responsável por uma variedade de grande filmes contemporâneos, de Cemitério do esplendor (2015) a Mal dos trópicos (2004). Mas há um ponto em que o filme de Seigner e o trabalho de Apichatpong não se encontram, algo que é, a Los silencios, absolutamente específico e especificamente latino-americano.

O reconhecimento geográfico do filme, essa fronteira habitada entre duas nações a que os personagens não pertencem, vai bem além de um cenário para o luto de Amparo e sua família. Ali temos um espaço povoado e uma memória feita presente nesse mesmo espaço. Não seria o bastante dizer que o lugar não esquece os seus mortos, porque, a bem da verdade, seus mortos nunca deixaram o local, eles compartilham com os vivos de uma história e geografia comum. Se a fuga, a luta e o luto não permitem a esses personagens uma nacionalidade, esse espaço permite que, todavia, compartilhem ainda de um pertencimento comum.

Em Los silencios, os mortos estão em cena. O luto, um sentimento compartilhado tanto pelos vivos quanto pelos mortos, é a chave para essa performance da morte, que participa da comunidade na companhia dos sobreviventes. Os personagens escritos e dirigidos por Seigner são, afinal, sobreviventes de um conflito constante, habitando continuadamente essa luta – histórica, uma luta que se coloca diante da colonização, da distribuição das terras e, consequentemente, também das próprias fronteiras nacionais.

Seigner é capaz de lidar com a violência e a dor da perda que os seus personagens sofrem e, ao mesmo tempo, dar conta de uma relação afetiva que se dá a partir dessa perda, de uma sensação de comunidade, memória e, principalmente, respeito àqueles com quem se compartilha de um espaço – refugiados e nativos, os vivos e seus mortos, um passado feito presente. Se a comparação entre Los silencios e o cinema de Apichatpong não aparece à toa, é porque ambos trazem sua fantasia, e seus fantasmas, pela presença dos corpos em cena e por um reconhecimento de lugar e daqueles que o habitam. Los silencios é doloroso, mas preciso, como a sua própria dedicação, ao final, àqueles que lutaram antes de nós – e o luto por eles.