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29 de julho de 2013, 01h05

Entrevista com Richard Dawkins: Pop Star do ateísmo

"Nós não levamos a sério a existência do deus nórdico Thor, ou de Zeus, ou de Dionísio ou de Shiva. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão?"

“Nós não levamos a sério a existência do deus nórdico Thor, ou de Zeus, ou de Dionísio ou de Shiva. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão?”

RONALDO RIBEIRO, DA FILADÉLFIA (EUA)

Foto: Wikimedia Commons

Richard Dawkins, talvez o ateu mais famoso do mundo, biólogo renomado, tipo raro de intelectual híbrido que comunica bem com o grande público e com os eruditos dos centros de pesquisa de ponta ao redor do globo. Dawkins alcançou notoriedade tanto nos círculos acadêmicos dos departamentos de Biologia quanto no delicado debate público sobre o papel das religiões no mundo contemporâneo.

“Não devemos respeitar crenças que influenciam a vida de crianças e que vão contra conhecimento dado como consenso na comunidade científica”

Com The God Delusion (Deus, um Delírio) o cientista se tornou best-seller ao ampliar suas criticas às religiões em geral e defender que não há nenhuma necessidade de se conhecer o pensamento religioso ou de se ter qualquer conexão com entidades divinas para se viver uma vida moralmente digna e eticamente responsável.

“Encontrar códigos morais e referenciais éticos são tarefas da sociedade como um todo, e não privilégio das autoridades religiosas”

Como figura polêmica que é, Dawkins tem provocado a admiração da comunidade leiga ao pregar o entusiasmo pelo pensamento livre e não dogmático; e também a ira de muitos líderes religiosos por sua critica impiedosa do Criacionismo e ao mesmo tempo sua apologia do ateísmo.

“A dúvida requer mais inteligência e coragem do que a certeza”

Apesar do pensamento sofisticado, agudo e ferino, Dawkins pareceu-me bastante áfavel, brincalhão e interessado nas idéias alheias. Foi numa pequena sala sala da Universidade da Pensilvânia, que me encontrei com este Pop Star do ateísmo e da biologia evolucionária no mundo para a seguinte entrevista:

Fórum – Deus existe?

Richard Dawkins – Nós não sabemos se fadas existem. Nós não levamos a sério a existência do deus nórdico Thor, ou de Zeus, ou de Dionísio ou de Shiva. Até que tenhamos sérias evidências de que algum deles tenha existido ou que exista, nós não perdemos tempo com isso. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão, ou com o judeu ou com o muçulmano?

Fórum – Mesmo que alguém concorde com o que o senhor acaba de dizer, há milhares de fiéis pelo mundo. Pelo viés da biologia evolucionária, é possível explicar essa enorme propensão à fé? Haveria nesta propensão qualquer função evolutiva adaptativa?

Richard Dawkins – Há experimentos em psicologia infantil que demonstram que crianças quando perguntadas sobre a existência de uma pedra pontiaguda em um ambiente preferem a explicação que tenha uma causa e uma consequência claras. Em outras palavras, preferem acreditar que a pedra é pontiaguda para que os animais daquele ambiente possam usá-la para se coçarem. Não aceitam que a pedra pontiaguda se formou a partir de processos geológicos e da erosão através do vento e da água. Talvez muitos dos fiéis de hoje ainda retenham esta atitude infantil ao pensarem sobre o mundo em que vivemos. Um outra hipótese é que a propensão à fé seja simplesmente um resquício do medo de se ficar só em um ambiente hostil. Como sabemos, por exemplo, um coelho selvagem vive a constante ameaça de ser caçado por uma onça. Ele precisa encontrar um equílibrio entre a cautela para se esconder e a coragem para buscar alimentos. De forma semelhante, os nossos ancestrais viviam sobre constante ameaça de serem atacados e mortos por outros animais selvagens. Pode ser que nossa necessidade de criar fantasmas e divindades que vão nos punir esteja conectada com este traço evolutivo presente em nossos primórdios.

Fórum – O senhor diz que há uma tendência ao silêncio em relação às doutrinas religiosas dos outros, que as pessoas evitam debater sobre as suas próprias crenças, e que este fato é nocivo à sociedade. De onde surge tal silêncio? Não seria necessário simplesmente respeitar as diferentes crenças das pessoas?

Richard Dawkins – Não. Não devemos respeitar crenças que influenciam a vida de crianças e que vão contra conhecimento dado como consenso na comunidade científica. Uma coisa é uma pessoa dizer que acredita em Papai Noel e manter esta crença dentro de sua família – ainda que eu considere uma pena para os filhos desta pessoa. Acho que as pessoas tem o direito de acreditar em qualquer invenção que quiserem. Quando algumas pessoas, contudo, começam a ensinar que a terra tem apenas cerca de dez mil anos, aí eu acho um absurdo, e quero lutar contra isso. Não podemos simplesmente respeitar as crenças dessas pessoas quando elas vão diretamente contra dados demonstrados pela ciência.

Fórum – O senhor se refere ao Criacionismo e o seu ensino em escolas americanas.

Richard Dawkins – Sem dúvida. Se eu entrar em uma universidade para uma discussão e declarar que a terra não é redonda, eu serei imediatamente acusado de ignorante ou chamado de lunático. As teorias de Darwin são consenso no meio acadêmico, e o fato de que a terra tem bilhões de anos de idade não está em discussão.

Fórum – Com alguma frequência os seus debatedores se referem ao senho como ríspido. Minha primeira impressão não…

Richard Dawkins – Discutir as crenças religiosas dos outros se tornou um tabu tão grande que qualquer um que pede uma explicação, independentemente do tom educado, é visto como desagradável. Quando pergunto a alguém por que é que ela acredita em espíritos que se reencarnam, estou querendo genuinamente saber o porquê. Estou interessado na troca de idéias.

Fórum – O novo papa é argentino. Um brasileiro e um mexicano tinham sido seriamente cotados para vencerem as eleições. É possível dizer que isso representa um avanço em termos políticos da fé no mundo em desenvolvimento?

Richard Dawkins – Se pensarmos que haverá uma menor centralização política daqueles que determinam o futuro da Igreja Católica, sim, sem dúvida.

Fórum – Um ponto de vista que parece-me central na sua obra não acadêmica é a ênfase que o senhor dá à possibilidade de qualquer um rejeitar crenças religiosas ou vivências espirituais e ainda assim viver uma vida plena e ética. Sem as religiões, onde é que nós encontraríamos códigos morais? Não seria necessário buscar um referencial ético em algum lugar?

Richard Dawkins – Suspeito que não encontramos regras morais nos ensinamentos religiosos. Se fosse esse o caso, nossa conduta moral não se alteraria praticamente a cada década, seria estanque. Pense que até bem recentemente nós considerávamos a escravidão como algo normal, e que também as mulheres não deveriam participar dos processos democráticos. Os textos “sagrados” não dizem nada a este respeito porque essas são questões mais atuais. E o todo da sociedade tem repensado conjuntamente como encarar tais problemas. Encontrar tais códigos morais e referenciais éticos seriam tarefas da sociedade como um todo.

Fórum – E quanto àquilo que não conseguimos explicar? Não vem daí uma das “necessidades” da religião e da crença no “supernatural”?

Richard Dawkins – Esta talvez seja uma das explicações que mais me aborrecem para se crer em uma deidade. Eu gostaria que as pessoas não fossem preguiçosas, covardes e derrotistas o suficiente para dizer “eu não consigo explicar, portanto isto deve ser algo supernatural.” A resposta mais correta e corajosa seria a seguinte: “eu não sei ainda, mas estou trabalhando para saber.”

Fórum – O dramaturgo novaiorquino John Patrick Shanley, autor da peça Dúvida que deu origem ao filme homônimo com Merryl Strip, esteve aqui também, falando para uma série de alunos e professores. Na ocasião ele parafraseou um de seus escritos e disse: “a dúvida requer mais inteligência e coragem do que a certeza.” Como o senhor se relaciona com essa idéia?

Richard Dawkins – De forma simples. Concordo plenamente.

*Entrevista previamente publicada no jornal Folha de São Paulo.