25 de agosto de 2017, 14h57

Entrevista: Sérgio de Carvalho e Helena Albergaria, da Cia do Latão, que completa 20 anos

Em entrevista exclusiva à Fórum, o diretor Sérgio de Carvalho dispara: “Diante deste golpe sórdido, os artistas precisam procurar soluções cooperativas, em diálogo com o melhor do amadorismo. E acordar para o fato de que ou você está do lado do mundo do capital ou do mundo do trabalho”.

Em entrevista exclusiva à Fórum, o diretor Sérgio de Carvalho dispara: “Diante deste golpe sórdido, os artistas precisam procurar soluções cooperativas, em diálogo com o melhor do amadorismo. E acordar para o fato de que ou você está do lado do mundo do capital ou do mundo do trabalho”.

Por Julinho Bittencourt

A Companhia do Latão completa vinte anos e comemora com vasta programação na sua sede, na Rua Harmonia, no coração da Vila Madalena, em São Paulo. Seria pouco tempos não fosse um grupo de teatro experimental e claramente engajado, com um posicionamento léguas à esquerda do teatrão mercantilista. Aquele mesmo repleto de besteirol e atores globais, que reafirma o nada, transforma a alta cultura do país em entretenimento vazio, rouba a cena e inviabiliza a formatação e desenvolvimento de um teatro sério no país.

Formado pelo diretor Sérgio de Carvalho, professor de teatro da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), sua esposa, a atriz Helena Albergaria e um pequeno e coeso grupo de atores, músicos e artistas apaixonados por Brecht e o “princípio da contradição, numa perspectiva materialista”, como eles mesmos definem, a Cia. do Latão segue desbravando em seus espetáculos, de forma requintada e inusitada, assuntos espinhosos da vida nacional como o desemprego, as greves do ABC, a cultura enquanto negócio entre outros.

Para falar sobre as delícias e dificuldades dos últimos anos e as perspectivas diante de um país prostrado e em frangalhos, a Fórum conversou com Sérgio e Helena, espécie de núcleo afirmativo e afetivo da Cia., uma brava sobrevivente das trincheiras da nossa cultura independente.

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Fórum – Vocês atuam como Companhia do Latão desde o final da década de 90, ou seja, é um grupo engajado que surge e atua durante um período de saúde democrática do país. Como está a situação agora, tanto política quanto artística e financeira, diante de um governo ilegítimo?

Sérgio de Carvalho – As nossas condições de trabalho de fato pioraram, como a de todos os trabalhadores do país. Esse golpe sórdido, que contou com o apoio de toda a grande mídia, promovido por um congresso grotesco e respaldado por um judiciário covarde, veio para retomar a pauta neoliberal: as privatizações, a liquidação dos direitos mínimos dos trabalhadores, a sujeição da vida local às regras da financeirização global. Todos sabem que a pior coisa no mundo da mercadoria é não ser mercadoria, mas os artistas precisam procurar soluções cooperativas, em diálogo com o melhor do amadorismo. E acordar para o fato de que ou você está do lado do mundo do capital ou do mundo do trabalho.

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Fórum – Nestes vinte anos foram 13 espetáculos, quase todos tão engajados quanto experimentais. Qual o balanço e o que se pode esperar e experimentar daqui pra frente?

Sérgio de Carvalho – Desde o início, percebemos que um teatro engajado politicamente não precisa ser “mensageiro” de nada, nem precisa reduzir a complexidade das coisas em nome da comunicabilidade: não se pode esclarecer o que no mundo é obscuro. Daí a importância da atitude experimental, que não tem nada a ver com vanguardismo hermético, mas sim com procura do incerto, do diálogo entre o antigo e o novo, do que gera movimento. O teatro só tem sentido como lugar de alegria, de pensamento utópico, como laboratório da vida social. Seguimos trabalhando porque cada espetáculo promove um aprendizado para nós e para quem vê. De algum jeito a pesquisa para uma peça nos muda, nos aproxima de gente diferente. E o espetáculo que nasce dali é só uma parte de um processo maior. Nunca deixamos de atuar fora dos lugares institucionais da cultura, nem de desconfiar da própria ideia de cultura. Hoje, depois de tantos anos, já não temos mais crise de reconhecimento, porque já entendemos a estrutura da cultura num país tornado miserável pela dinâmica mercantil. Isso ajuda a entender que o importante não é gastar energia na circulação, mas sim na proteção do direito à invenção coletiva, mesmo que para isso tenhamos que voltar a atuar apenas em lugares clandestinos, com gente interessada em ação realmente igualitária e livre.  

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Fórum – Vocês dois têm uma parceria profícua e longa. O mesmo acontece com outros atores e colaboradores da Cia. Quais as vantagens e desvantagens de permanecer juntos por tanto tempo?

Helena Albergaria – Quando se convive por muito tempo, temos a vantagem de certa intimidade e códigos comuns conquistados pela afinidade e trabalho intenso. Precisamos encontrar prazer e novidade em todos os processos e acho que isso vem, felizmente, acontecendo. Como as dificuldades materiais são grandes, precisamos realmente estar curiosos e apaixonados pelo assunto, convivência…

Fórum – O Sérgio disse em uma entrevista lá do começo da Cia. que “Fazer Brecht bem é fazer Brecht brasileiro. Usamos os princípios teóricos de Brecht para fazer uma dramaturgia brasileira”. Depois disso, vieram vários espetáculos com textos originais também. O Brecht brasileiro ainda está por ai, presente?

Helena Albergaria – Sim, nunca deixamos de usar o que o Brecht trouxe do marxismo para o teatro: o princípio da contradição, numa perspectiva materialista.

Sérgio de Carvalho – O pressuposto é que as verdades possíveis são concretas, não abstrações. O estudo do Brasil surge aí como orientação sobre as contradições que nos dizem respeito, sobre a nossa situação de periferia do capital, de sociedade formada pelo escravismo.

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Fórum – Ainda sobre Brecht, o nome da Cia. é inspirado em uma obra teórica de Brecht, A Compra do Latão: 1939 – 1955 e, logo após, veio o espetáculo o Ensaio sobre o latão (1997). O que ainda persiste dessa obra na dramaturgia da Cia?

Helena Albergaria – Brecht diz em A Compra do Latão, através da personagem do filósofo: “Estou aqui à procura da matéria dos acontecimentos que se produzem entre os homens. Porque me pergunto como devo eu me comportar para ser tão feliz quanto possível, e sei que isso depende também da forma com que os outros se comportam. Por isso também me interessa a possibilidade de influir sobre os demais.” Essa é a forma.  Procuramos ver nosso trabalho como algo muito ligado à vida material dos homens, à observação e construção de uma cena de fato dialética. Se essa cena de algum jeito estimular a vida prática, e for assim modelar para nós, mesmo que de modo negativo, será para os outros.

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Fórum – No espetáculo Ópera dos Vivos (2011), no seu Ato III – Privilégio dos Mortos, há uma crítica furibunda a Caetano Veloso, inclusive com citações de trechos do livro “Verdade Tropical”. Ao mesmo tempo, o ato lembra um tanto a montagem de Roda Viva, de Chico Buarque, pelo Oficina, em 1967. Havia ali, de fato, o interesse em contrapor um ao outro, como duas visões antagônicas da cultura brasileira?

Sérgio de Carvalho – Ópera dos Vivos era uma peça sobre ideias e imagens da cultura em seu vínculo com as relações de trabalho. As pessoas mudam de pensamento conforme aprofundam sua dependência de certas relações produtivas. Naquele terceiro ato, há a crítica não às canções tropicalistas dos anos 1960, que são lindas, mas a certa vulgata ideológica (na verdade um tropicalismo de jornal dos anos 1990) que costuma dizer que a liberdade daquela música vinha das guitarras e do repertório pop, ou seja, de sua adesão “antropofágica” ao padrão mercantil internacional. A ideia de fundo é que a forma mercadoria global representou um avanço, uma emancipação diante do atraso mais careta do país conservador e mesmo em relação à esquerda convencional. Mas não era isso que dava força àquela música e sim sua atenção às ambiguidades do país. Por outro lado, o Roda Viva do Chico Buarque, que é um ótimo texto, recebeu uma montagem do Zé Celso coralizada, algo desbundada e contracultural, e isso, que poderia ser um problema potencializou a crítica à engrenagem que há na peça. Então essas coisas não são simples. O que não dá para engolir é um artista que segue dizendo que adesão à forma-mercadoria é uma coisa boa, mesmo sabendo que ninguém escapa de vender a força de trabalho numa sociedade regida pelo capital.  

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Fórum – Em “O Pão e a Pedra” (2016) há uma certa nostalgia da ingenuidade, da boa luta que inaugurou um outro tempo. Uma revisão um tanto mais profusa do maniqueísmo de “Eles não usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, de 1959. Vocês concordam com isso?

Sérgio de Carvalho – Acho que sim, ainda que os dualismos do Black Tie já fossem abertos na época, se considerarmos que o teatro no Brasil até então que nunca tinha representado de modo tão vivo conflitos sociais ligados à greve. Nosso Pão e a Pedra acredita que é preciso não só mostrar os estragos da vida explorada, mas também aqueles que lutaram contra isso: enquanto nos anos 1970 uma empresa como a Volkswagen contava com a presença de policiais na linha de montagem, alinhada com o pior da ditadura, muitos trabalhadores, religiosos e estudantes se empenharam para melhorar as coisas e enfrentaram essa máquina violentíssima. Foi essa atitude “ingênua” que fez com que as fábricas do ABC parassem, que assembleias com 70 mil pessoas abrissem caminho para uma mudança histórica, para a interrupção daquele ciclo de domínio fascista, retomado agora em 2016.

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Fórum – Ainda sobre o “Pão e a Pedra”, o espetáculo foi apresentado em pleno processo de impeachment da presidente Dilma. Hoje, um ano depois, o país está em frangalhos. Aquela esperança indisfarçável que girava ali, naquele carrossel do cenário, se dissipou? O “Pão e a Pedra” perdeu o sentido da noite pro dia ou foi o Brasil que perdeu o sentido?

Helena Albergaria – Acho que a esperança que existe em O Pão e a Pedra não está no êxito ou não das nossas batalhas. Está na Ação e na Luta, independente de se ganhar ou não. A canção final, retirada do livro do Eclesiastes da Bíblia, fala sobre isso: “De manha semeia tua semente, até o cair da noite, não descansa tua mão. Pois não te é dado saber, se esta ou aquela vingará…” Nossa resistência ao golpe, quando ele ainda era anunciado, não era ingênua, e eu acreditava mesmo que o golpe se consumaria inevitavelmente. Mas precisávamos agir, e seguimos precisando. Acho que é esse o tipo de esperança da nossa peca. E, portanto, penso que seguimos atuais em um país de classes dominantes cada vez mais asquerosas.

Fórum – Para quem se debruça sobre Georg Büchner e Bertolt Brecht vinte anos é pouco tempo?

Helena Albergaria – Vinte anos é só o começo.

 

Mais informações sobre a Companhia do Latão:

http://www.companhiadolatao.com.br/site/

https://www.facebook.com/Companhiadolatao/

Fotos: Arquivo Cia. do Latão