28 de novembro de 2018, 15h53

“Escola sem Partido” e “Marxismo cultural”: dois polos da imbecilidade

Raphael Silva Fagundes: “A esquerda não pode cair no erro de investir em uma luta que interessa às classes dominantes, que inclusive tem a intenção de desvirtuar a teoria marxista”

Foto: Luís Macedo/Câmara dos Deputados

Todo sistema de educação orientado à preservação acrítica da ordem estabelecida a todo custo só pode ser compatível com os mais pervertidos ideais e valores educacionais (István Mészáros).

O que se chama de “Marxismo cultural” é uma invenção ridícula de uma classe média que não se preocupa com as suas condições materiais de existência. É uma teoria que não tem como base as contradições entre as forças produtivas e as forças exploradoras da sociedade.

Essa teoria medíocre nada mais é do que a apropriação pela esquerda do pensamento de Ulrich Beck sobre a “sociedade de risco” que se dá em um período, resultado do Estado de Bem-estar social, em que as diferenças de classes diminuíram e as pessoas passam a criticar a modernidade e suas atitudes (poluição, gênero etc.). Trata-se de uma realidade europeia, não a que vemos nos trópicos.

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O modo de produção funda a moral

O comunismo não é um princípio moral, é um ponto de vista econômico revolucionário, um modo de produção. Sem dúvida, é em “A Ideologia Alemã” que nos deparamos com essa questão. “Para nós o comunismo não é um estado que deve ser criado, ou um ideal pelo qual a realidade terá de ser conduzida. Consideramos comunismo o movimento real que supera o atual status quo”. (1)

Ou seja, o comunismo não é um ideal, uma ideologia, mas uma consequência natural da sociedade capitalista: “As condições desse movimento são consequências dos pressupostos atualmente existentes” (2). O comunismo é um modelo econômico que segue a esteira do movimento histórico no qual se observa que, em cada época, uma das classes, que não é dominante, assume o poder político e faz dos seus interesses os interesses de todos. É o modo de produção que põe fim as lutas de classes porque seria a primeira vez que a maioria iria definir a maneira pela qual as pessoas conservariam a vida.

Marx e Engels diziam que todas as lutas no âmbito do Estado, isto é, aquelas que não têm o interesse de tomar o poder do Estado, “a luta entre democracia, aristocracia e monarquia, a luta pelo direito de voto etc., etc., são apenas as maneiras ilusórias nas quais se desenvolvem as lutas reais entre diferentes classes” (3).

O próprio Estado, um mecanismo de dominação de uma classe sobre a outra, é uma ilusão criada pelo modo de produção. Assim, quando o proletariado assumi-lo, inicialmente o Estado continuará sendo uma ilusão do modo de produção comunista. Contudo, ao longo do seu desenvolvimento, quando não haver mais classes para subjugar, os mecanismos de dominação de uma classe sobre a outra desaparecerão, inclusive o próprio Estado.

Somente depois desse processo que se fundamenta, por sua vez, em uma lógica econômica, que se poderia pensar em uma moral comunista. “A produção de ideias, de representações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material”. Deste modo, “o mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc” (4). Os dois pensadores comunistas não esboçaram uma moral comunista, porque ela seria impossível antes de existir o modo de produção comunista. Primeiro vem o modo de produção, depois as formas de representação sobre a vida, isto é, a consciência.

Ou seja, não é possível existir um marxismo cultural em uma sociedade capitalista. Os que defendem essa ideia não têm conhecimento algum da teoria marxista.

Caso essa ideia seja eliminada das esquerdas, é possível que ela consiga reeducar-se marxistamente e pensar na luta política como luta de classes. Focar na necessidade de transformar o modelo econômico antes de gritar palavras de ordem em nome de qualquer ilusão.

Pensando a educação e o “escola sem partido”

O problema é que o projeto “escola sem partido” é contra a liberdade de expressão. Se o professor deseja expressar o marxismo cultural, mesmo eu discordando de tal pensamento, devo defender o direito dele de dizer. E é preciso que fique bem claro: isso é ser liberal. O direito de expressar qualquer ideia é liberal, palavra que se encontra na sigla do partido que elegeu um presidente da República que defende tal projeto na educação.

“As escolas são formas sociais que ampliam as capacidades humanas”, nos atenta a isso os pedagogos Henry A. Giroux e Roger Simon. Nelas devem ser realizadas “as transações simbólicas e materiais do cotidiano que fornecem a base para se repensar a forma como as pessoas dão sentido e substância ética as suas experiências” (5). O objetivo do projeto “Escola sem Partido” é nos distanciar ainda mais desse caráter ideal da escola.

Parece que estamos presenciando um clássico dos anos 80 produzido pelo cinema hollywoodiano. Essas reformas no currículo da educação foram um debate nos anos 70 e 80 nos EUA. Michael W. Apple destacava o interesse dos conservadores em convencer a todos que se as escolas fossem mais rigidamente controladas pelas indústrias, a deterioração das cidades, o desemprego e o aproveitamento escolar de péssima qualidade não existiriam (6).

O autor estadunidense também atenta para o crescimento da Nova Direita nos EUA. Esse grupo queria que a educação aumentasse a competitividade internacional, o lucro e a disciplina como auxiliadores dos negócios, o “público” como ruim e o “privado” como algo bom. São neoconservadores que desejam um Estado forte nas questões de transmissão de valores e conhecimento. São neoliberais por dar grande ênfase ao mercado. O que funde essas duas ideologias aparentemente contraditórias é o fato de que a “liberdade” econômica exige maior controle social. No fim, a escola deve estimular a criatividade, de modo que prevaleçam os interesses pessoais e competitivos. Todos podem escalar o Monte Everest, mas é preciso ser um bom alpinista e ter altos recursos financeiros para bancar a escalada.

Por isso, o foco do novo governo é a questão ideológica e não a corrupção, como o próprio presidente eleito disse. Seremos convencidos ideologicamente disto, já que o principal aparelho ideológico do Estado é a escola?

Infelizmente a aprendizagem de hoje não serve para a autoemancipação da humanidade, mas para a concretização dos objetivos do capital. Distanciamo-nos da época de Paracelso. Até os projetos iluministas de Kant e de Schiller foram transformados em meras utopias educacionais pela consolidação do capitalismo.

István Mészáros propõe uma “contrainternalização”, isto é, uma transformação em relação à internalização da concepção de mundo historicamente prevalecente. Essa “contrainternalização” deve ser capaz de criar uma alternativa abrangente concretamente sustentável ao que já existe: “o papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à ‘legitimação constitucional democrática’ do Estado capitalista que defende seus próprios interesses” (7).

O modelo utilitarista

O projeto “Escola sem Partido” é uma forma de fortalecer ainda mais o modelo utilitarista da escola, o modelo tradicional que nos faz internalizar os conteúdos de modo a serem interessantes para se arrumar emprego e resolver problemas que agrade os supervisores das empresas. É uma escola que quer desenvolver apenas a “racionalidade instrumental” do aluno.

A partir desta perspectiva cria-se um discurso de que a escola deve ser um local de “neutralidade de valor”. Essa questão pode ser atraente à primeira vista se acreditarmos nos ideólogos que criam interpretações mirabolantes em nome da “objetividade científica”. No entanto, como adverte Mészaros, “as condições reais da vida cotidiana foram plenamente dominadas pelo ethos capitalista, sujeitando os indivíduos – como uma questão de determinação estruturalmente assegurada – ao imperativo de ajustar suas aspirações de maneira conforme, ainda que não pudessem fugir à áspera situação da escravidão assalariada” (8).

A “neutralidade de valor”, reclamada pela Escola sem Partido, é de extrema importância para que encaremos os valores da ordem social capitalista como naturais. O indivíduo não terá outros valores críticos que possam combater os tradicionais, os que fazem girar a engrenagem do capitalismo. A ideia de ausência de valor cria uma liberdade ilusória, mas que no fim as pessoas optam pela prática, pelos procedimentos mecânicos que resolvem os seus problemas na realidade capitalista. Essa é a verdadeira doutrinação ideológica.

A esquerda não pode cair no erro de investir em uma luta que interessa às classes dominantes, que inclusive tem a intenção de desvirtuar a teoria marxista. O novo governo irá investir em uma luta ideológica contra uma espécie de marxismo que nada fez para a classe operária e, não é só porque o governo que muitos reprovam disse que essa ideia é ruim, que iremos todos ser a favor. Não temos que dançar conforme a música. Talvez esse seja o interesse das classes dominantes na sua formação atual: discutir ilusões para esconder o que realmente importa. O projeto “escola sem partido” e o “marxismo cultural” são parte disso.

Esquerdas de todo Brasil e do mundo, libertem-se do marxismo cultural! Essa ilusão que está enfraquecendo a adesão das classes trabalhadoras à esquerda e aumentando a simpatia de grupos sociais que não estão interessados em uma transformação social de fato! Temos que encarar essas medidas do governo como uma oportunidade para nos livrar dessa teoria que poluiu o pensamento de esquerda para que, assim, retornemos ao marxismo que conquistou os direitos trabalhistas que hoje estão sendo postos em xeque.

(1) MARX, K. e ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 63.
(2) Id.
(3) Id. 60.
(4) Id. 51.
(5) GIROUX, Henry A. e SIMON, Roger. “Cultura popular e pedagogia crítica: a vida cotidiana como base para o conhecimento curricular”. MOREIRA, Antonio F. e SILVA, Tomaz T. da (orgs.) Currículo, cultura e sociedade. 9 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 95.
(6) APPLE, Michael W. “Repensando ideologia e currículo”. MOREIRA, Antonio F. e SILVA, Tomaz T. da (orgs.) Currículo, cultura e sociedade. 9 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 40.
(7) MÉSZÁROS, István (org.). A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008. p. 61.
(8) Id. p. 80.

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