Especialistas apontam que combate às fake news pode levar à censura da mídia livre | Revista Fórum
15 de Abril de 2018, 10h05

Especialistas apontam que combate às fake news pode levar à censura da mídia livre

Reportagem especial da #fórumweek, newsletter semanal da Fórum, explica os riscos da batalha contra notícias falsas para a liberdade de expressão e o impacto para as mídias livres. Surgidas nas últimas décadas, diversas iniciativas independentes a grandes grupos econômicos ampliaram a diversidade informativa no país, onde ainda hoje há um cenário grave de concentração midiática, segundo o Media Ownership Monitor

O combate às fake news se tornou o grande tema dos veículos de comunicação tradicional que, com apoio do Google, Facebook e fundações internacionais, têm incentivado iniciativas no Congresso Nacional e na justiça eleitoral que podem recriar um perigoso sistema de censura no país. Uma censura diferente da época da ditadura militar, porque organizada também pelo mercado de mídia, mas mais perigosa do que a anterior, porque tende a calar um campo informativo. O que se organizou a partir do advento da web e que se contrapôs ao discurso monolítico da mídia tradicional brasileira.

Em recente entrevista, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, afirmou que neste ano eleitoral contará com o apoio de “veículos de imprensa confiáveis” para acabar com as fake news. Ao mesmo tempo, o Senado realizou um debate sobre o tema e convidou apenas jornalistas da mídia tradicional (Globo e Folha) para debater o assunto.

Essa divisão entre um suposto “jornalismo profissional”, representado pela velha mídia e alguns novos veículos financiados por fundações internacionais, e o resto, que seria um jornalismo baseado em fake news, independente da linha editorial, tem um único objetivo, a reserva do mercado da informação para poucos. E isso se dá de muitas maneiras.

Uma das consequências dessa ação organizada se deu com as recentes mudanças de algoritmo anunciadas por Google e Facebook, com o objetivo de combater fake news. “Quando os algoritmos do Google foram alterados para definir quais notícias apareceriam na primeira página de busca um dos fatores que foi incluído ali é que se uma notícia foi produzida por um grande meio de comunicação, ela tem um selo de qualidade que a diferencia da notícia produzida por um blog, por um coletivo de comunicação independente, pela comunicação popular, pela comunicação alternativa”, pondera a jornalista Renata Mielli, secretária-geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. “Se é produzido por uma grande e tradicional empresa de comunicação aquela notícia já tem uma preferência na hora de dizer que aquilo não é fake news.”

O benefício objetivo que esses veículos tradicionais têm é de que ao se posicionarem melhor no Google e ganharem maior alcance no Facebook, eles acabam tendo audiência maior e aumento de receita pelas chamadas publicidades programáticas.

First Draft

Uma das iniciativas que desembarcaram por aqui com o objetivo de combater notícias falsas durante as eleições brasileiras é o First Draft, que foi criado na Universidade Harvard. Essa ONG selecionou 20 redações para participar de um projeto de checagem de informações. A inciativa já foi implantada na eleição francesa de 2017, que elegeu Emmanuel Macron. E, segundo seus organizadores, busca “desmascarar informações” falsas. “Queremos dar aos eleitores as melhores informações antes de se dirigirem às urnas”, afirmou Aimee Rinehart, representante do First Draft, à Fórum.

De acordo com ela, após a eleição dos EUA em 2016, membros do First Draft começaram a trabalhar na área de checagem de informações, até que em 2017 lideraram o projeto francês. “Chamamos fundações que normalmente financiam projetos de jornalismo e eles disseram: sim, gostaríamos de financiar um projeto como este em 2018”, conta. “Pedimos aos nossos parceiros Google News Lab e o Facebook para ajudarem a financiar o projeto e tivemos o financiamento na semana seguinte. Eles nunca interferiram em nossos resultados editoriais e apenas amplificaram os resultados finais. Ambos eram excelentes parceiros.” Além do Google News Lab e do Facebook, a First Draft é financiada por John S. and James L. Knight Foundation, Open Society e Fundação Ford.

Segundo Aimee, os veículos que farão parte da iniciativa brasileira serão “organizações de mídia já estabelecidas”. Ela considera que “organizações maiores podem ampliar o trabalho do projeto” porque podem “desenvolver habilidades de verificação nas redações que participam”. Questionada se ao selecionar apenas veículos da mídia tradicional para o projeto não estaria contribuindo para a manutenção do histórico oligopólio da informação no Brasil, Aimee afirmou que o Nexo Jornal, fundado em novembro de 2015 por Paula Miraglia, Renata Rizzi e Conrado Corsalette, também foi convidado pelo projeto.

O Nexo Jornal não tem publicidade e não está vinculado a nenhuma empresa jornalística tradicional.  Segundo informações do próprio site, conta com 30 profissionais e diz viver apenas de assinaturas. No mercado, ninguém considera isso possível. A hipótese mais cogitada é a de que ou recebe financiamento internacional ou conta com um grande empresário como sócio oculto.

Entre as fundações que apoiam iniciativas tanto de combate a fake news como de ações como a First Draft está a Open Society. A assessora da Open Society para a América Latina, Manoela Miklos, afirma que a organização apoia iniciativas cujos esforços tenham relação com a liberdade de expressão. E cita a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) entre essas organizações. E diz que é por este programa que se dá o apoio à First Draft. A Open Society Foundations contribui, segundo Miklos, via o Programa para o Jornalismo Investigativo, para o trabalho internacional First Draft. E diz que a Open Society não tem “nenhuma incidência sobre as pautas que escolhem”.

A fundação não respondeu à Fórum sobre critérios adotados para o apoio às iniciativas como as de combate às fake News, nem sobre valores recebidos por essa e outras organizações citadas nas perguntas enviadas pela Fórum. E também não respondeu se destina recurso a veículos de comunicação no Brasil, algo que sabidamente ocorre.

“Tenho muita preocupação quando eu vejo determinadas fundações ligadas a interesses econômicos neoliberais, interesses imperialistas, defendendo a veracidade da informação, a verdade. Eles nunca se preocuparam com isso”, afirma o sociólogo, professor da Universidade Federal do ABC e representante da comunidade acadêmica no Comitê Gestor da Internet (CGI.Br), Sergio Amadeu da Silveira. Para ele, os grandes grupos de mídia e as fundações internacionais “viram uma oportunidade de garantir o silenciamento e a desmoralização do discurso alheio, do outro, principalmente os discursos contra-hegemônicos. Por exemplo, a revista Veja tem trabalhado o tema das fake news. Mas vamos friamente analisar as matérias e as capas da revista Veja. Elas são as principais promotoras de desinformação no nosso país. Temos que tomar muito cuidado para que a denúncia da imprecisão, da incorreção, da mentira, não seja na verdade mais um trabalho fake”.

Quem checa a verdade?

Outras iniciativas que vêm surgindo no país com o objetivo de combater fake news são as agências de checagem (fact-checking). A Agência Lupa foi fundada pela Editora Alvinegra, do documentarista João Moreira Salles, que publica a revista Piauí. A agência Aos Fatos foi fundada pela jornalista Tai Nalon e Rômulo Collopy e aposta em um modelo híbrido de financiamento com campanhas sazonais de crowdfunding, parcerias editoriais e consultorias em fact-checking. O Truco é o projeto de fact-checking da Agência Pública, financiada pela Fundação Ford, uma organização norte-americana, e a OAK, sediada na Suíça. Todos os três projetos são membros da International Fact-Checking Network (IFCN), do Instituto Poynter de Estudos de Mídia. A organização sediada na Califórnia foi fundada por Nelson Poyner, dono do jornal Tampa Bay Times.

Em entrevista à Fórum, Graciela Selaimen, coordenadora de Programas da Fundação Ford Brasil, afirma que a organização não financia nenhum projeto relacionado especificamente às fakes news. No entanto, são apoiadas iniciativas de comunicação que estejam “alinhadas aos objetivos programáticos da Fundação na defesa de direitos e promoção da democracia e justiça social, inovação, relevância para o campo (do jornalismo/da defesa de direitos à comunicação e liberdade de expressão), pluralidade, entre outros”. A Ford, como a Open Society, também não respondeu sobre critérios e valores investidos em veículos e comunicação no Brasil. Fórum, porém, apurou que a Agência Pública recebe entre 300 mil a 400 mil dólares por ano já há algum tempo da Fundação Ford. E que alguns outros veículos também recebem de 100 mil a 250 mil dólares/ano.

Boa parte desses que recebem esses recursos, são parceiros em diversas iniciativas da mídia tradicional e se dizem independentes, a despeito do seu funcionamento se dever quase que tão somente às verbas recebidas de organizações como a Ford e Open Society.

A checagem e seus limites

Na opinião de Bia Barbosa, é preciso problematizar a quem caberia a decisão de dizer se uma informação é falsa ou não. “Há uma série de distorções que se pode praticar na produção de uma determinada informação. Mesmo tendo números verdadeiros, dependendo do tratamento dado para esses dados, pode-se dar uma informação completamente manipulada e distorcida”, pondera. “Por isso tem que se relativizar essas checagens, porque muitas vezes você tem uma checagem cheia de dados e não se faz uma análise sobre contexto, opinião, formato. Há muitas formas de manipulações diferentes que podem gerar todo tipo de desinformação.”

Para Renata Mielli, o crescimento desse “mercado de agências de checagem” estaria ligado à perda de credibilidade da imprensa tradicional nos últimos anos. “A sociedade passou a perceber que não tem imparcialidade nos grupos de comunicação e agora com os debates de fake news e com a criação dessas agências fact-checking se busca novamente criar uma falsa ideia que é possível classificar uma notícia de uma maneira neutra e imparcial, tentando recuperar a credibilidade da notícia produzida pelos grandes veículos de comunicação.” Renata ainda sustenta que “há todo um movimento por trás de dessa discussão das fake news, de revalorização do valor mercantil da notícia, da notícia como mercadoria, que é o grande ativo das empresas de comunicação. O mercado da notícia se desvalorizou muito com o surgimento da mídia alternativa, da mídia contra-hegemônica, dos blogs, coletivos de comunicação, que passaram a produzir uma informação de qualidade e a disputar narrativas e versões de fatos”.

O professor Sergio Amadeu argumenta que, apesar de ser uma prática interessante, o fact-checking nunca vai ser neutro. “Acho importante agências de fact-checking, só que não tenho dúvidas que quando vai se analisar por exemplo temas mais complexos, porque aconteceu um fato ou quais as consequências de um fato, se a descrição dele foi exagerada ou não, aí não existe objetividade.”

A pesquisadora e diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes, acredita que mais do que carimbar se uma notícia é falsa ou verdadeira, é preciso avaliar seus efeitos e investir na “formação para as mídias e pelas mídias”. “É necessário investir em uma formação para as mídias e pelas mídias, uma nova alfabetização midiática que explicite como funciona a fábrica de produção e simulação de fatos e notícias. Os factoides e fake news.”

Impacto às mídias livres

Um relatório divulgado pela Comissão Europeia aponta para novas diretrizes em relação à questão das fake news. Além de problematizar o termo, ressalta como essa discussão pode afetar mídias alternativas aos grandes grupos de comunicação. “O termo ‘fake news’ não é apenas inadequado, mas também enganoso, porque foi apropriado por alguns políticos e seus apoiadores, que usam o termo para desvalorizar a cobertura que eles acham desagradável, e tornou-se assim uma arma com a qual atores poderosos podem interferir na circulação de informação e atacar e minar meios de comunicação independentes”.

No Brasil, um recente estudo da Pública em parceria com alunos da ESPM-Rio e o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da Universidade de São Paulo, causou polêmica ao relacionar sites progressistas à produção de fake news. O estudo sorteou perfis no Facebook e analisou interações dos escolhidos, afirmando que os mais jovens compartilhariam mais notícias da mídia tradicional (que no estudo são consideradas isentas) preocupados em espalhar fake news. Além disso, compara sites progressistas com páginas anônimas do Facebook, como Anti-PT e Partido Anti-PT, claramente produtoras de fake news. Fórum apurou que o Gpopai também recebe financiamento de fundações internacionais.

Para o jornalista Luís Nassif, que mantém o site independente Jornal GGN, o foco nas fake news podem significar uma censura aos blogs oposicionistas. “Fica clara a intenção de influenciar Google e Facebook, e o público do mercado formal de opinião – juízes, procuradores, TSE, TSJ – sobre o papel da nova mídia, ao equiparar os veículos aos geradores de fake news da direita. Um prato cheio para as promessas de Luiz Fux, de colocar a Polícia Federal e Ministério Público para busca e apreensão de quem ousar difundir notícias fake – isto é, que não saem na velha mídia.”

Bia Barbosa alerta que é preciso considerar que a discussão sobre fake news vem do norte do planeta, onde a realidade do sistema midiático, é muito diferente da América Latina. “Do ponto de vista da diversidade de informação, onde tem um sistema público de comunicação funcionando fortemente fazendo contraponto, onde você tem uma imprensa que não é monopolista. Lá essa discussão tem um contexto muito diferente do brasileiro. Aqui ela é rapidamente apropriada pela mídia tradicional, que vem de um processo de perda de credibilidade, ou no mínimo de questionamento de sua credibilidade pelos leitores e telespectadores, inclusive pela massificação da internet que acaba permitindo uma diversidade maior de fontes de informação.”

Prova disso é que no Fórum de Governança da Internet das Nações Unidas, realizado em dezembro de 2017, em Genebra, representantes da sociedade civil da América Latina e do Caribe assinaram uma carta-aberta justamente expressando preocupações sobre os rumos que essa discussão das fake news estava tomando em seus países.

Para as entidades que assinam o documento a forma como se está debatendo o problema pode levar ao “fortalecimento dos monopólios tradicionais de mídia em detrimento das mídias independentes, meios de comunicação comunitários e vozes críticas independentes, como se fossem os únicos capazes de oferecer uma versão verificada e oficial dos fatos”.

No Brasil, as iniciativas de combate às fake news estão mais associadas a um novo tipo de censura do que à busca de um sistema de informação menos intoxicado. Fosse diferente, os grupos de mídia tradicional, como Revista Veja e TV Globo, não seriam os principais interessados e beneficiários desta ação.

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