24 de maio de 2014, 09h57

Especialistas opinam sobre a “psicologia cristã”, defendida por Marisa lobo

Após cassação de Marisa Lobo, psicólogos explicam a diferença entre ser cristão e exercer o cristianismo na profissão

Após cassação de Marisa Lobo, psicólogos explicam a diferença entre ser cristão e exercer o cristianismo na profissão

Por Isadora Otoni

Na sexta-feira passada (23), Marisa Lobo foi cassada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná. Ela alegou à Fórum que a decisão era perseguição religiosa, visto que não a deixaram se denominar como “psicóloga cristã”. “Não sou eu homofóbica, esse povo que é cristofóbico”, declarou Lobo.

Os especialistas Valter da Mata, mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Bahia, e Jaqueline Gomes de Jesus, doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, opinaram sobre a “psicologia cristã”. Para eles, o profissional deve manter a laicidade de seu trabalho. Confira as duas entrevistas abaixo.

Fórum – É permitido o exercício da “psicologia cristã”?

Jaqueline Gomes de Jesus – É importante se entender o saber-fazer psicólogo para se responder adequadamente a essa questão. A Psicologia é uma ciência-profissão, fundamentada no rigor científico, por meio da aplicação de conhecimentos e técnicas cientificamente testados, e orientada para o atendimento às demandas da sociedade, respeitando princípios éticos como o da laicidade.

Nesse sentido, compreendo que a questão não é se é permitido algo denominado “psicologia cristã”, o que precisamos nos perguntar é se é possível existir uma psicologia que também seja religiosa, no caso, cristã. Minha resposta é não. O que quer que se queira chamar de Psicologia Cristã, um termo em si mesmo equivocado, não pode ser considerado Psicologia.

(Arquivo Pessoal)

“Demarcar essa especificidade não acrescenta em nada ao exercício profissional” (Arquivo Pessoal)

Valter da Mata – Não é permitido o exercício da ‘psicologia cristã’, assim como não é permitido o exercício da psicologia associada a nenhuma prática religiosa. Não existe psicologia cristã, islâmica, espírita ou umbandista. Isso é um grande equívoco.

Fórum – Há uma Associação Brasileiras de Psicólogos Espíritas e também cursos de psicologia budista. Isso é correto para a prática da profissão?

Jaqueline – Podem até existir, são livres manifestações de opiniões e crenças de seus participantes, inclusive podem ser, por isso mesmo, objetos de estudo da ciência psicológica, porém não são Psicologia.

Valter – Já ouvi falar da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas e do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos. Enquanto a cursos específicos que associem a Psicologia a alguma religião específica, eu desconheço. Na minha opinião, a existência dessas associações é completamente desnecessária. Demarcar essa especificidade não acrescenta em nada ao exercício profissional. A religião de um(a) psicólogo(a)não o(a) torna melhor, nem pior que os demais.

Fórum – A psicóloga Marisa Lobo, recentemente cassada pelo CRP, se auto-denomina como “psicóloga cristã”. Entretanto, ela alega que não usa o cristianismo em suas consultas. É possível que ela defenda a psicologia cristã mas não use isso em consultório?

Jaqueline – Sim, nossos discursos não refletem, necessariamente, nossos comportamentos. Quem deve julgar a utilização inadequada do título de psicóloga(o) é o Conselho ao qual ela está submetida.

Valter – Dentro da perspectiva de pertencer a uma religião e ser psicóloga, isso é completamente plausível. Conheço inúmeros psicólogos religiosos, que são padres, freiras, lideres espíritas, dentre outros, que embora não se autodenominem psicólogos cristãos, são pessoas que tem na sua vida cotidiana a fé religiosa e não a utilizam no seu consultório e portanto nunca foram alvo de processos éticos. Entretanto não foi essa a denúncia contra a psicóloga Marisa, contra ela pesam diversas denúncias que nem mesmo ela faz questão de esconder.

Fórum – O que você acha da decisão de cassação da Marisa Lobo?

 Jaqueline – Não vejo como um caso isolado, é uma referência para que os Conselhos sigam orientando e fiscalizando o trabalho das psicólogas e dos psicólogos, em prol de uma Psicologia com compromisso social.

(Reprodução/Facebook)

Para Jaqueline, se envolve religião não é Psicologia (Reprodução/Facebook)

Valter – Para a Psicologia brasileira a cassação de Marisa Lobo é exemplar e necessária. Ela violou diversos princípios do código de ética e rasgou a resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia, que estabelece normas de atuação para o psicólogo em relação à questão da orientação sexual. Na minha opinião, muito mais interessada em ser psicóloga, ela deseja ser deputada e encontrou na controversa terapia de reversão de sexualidade, o mote ideal para conseguir notoriedade pública dentro do seu segmento religioso. Adota o discurso de perseguida por manifestar sua crença religiosa, esconde covenientemente os reais motivos que a levaram a ser cassada. O fato é que ela já é pré-candidata a deputada federal pelo PSC-Paraná e deve eleita com a notoriedade que ganhou com todo esse caso.

Quero destacar que não questiono o fato de Marisa acreditar que do ponto de vista religioso, os comportamentos não heteronormativos sejam considerados doenças, portanto passíveis de cura, ou até mesmo influência demoníaca. O grande problema encontra-se em misturar a psicologia e religião, numa comparação que pretendo que seja didática, seria o mesmo que o Sistema Conselhos de Psicologia não punisse a prática da Terapia de Vidas Passadas (TVP), porque a reencarnação faz parte dos dogmas religiosos do espiritismo. A Psicologia existe enquanto ciência e profissão e assim deve continuar, baseando suas práticas em princípios racionais, rigor metodológico e ética comprometida com a promoção dos Direitos Humanos. Infelizmente o que Marisa Lobo e alguns outros da psicologia fazem é enviesar o trabalho e produção de uma categoria profissional que tem como princípio norteador a proteção da diversidade, transformando-o em mais um mecanismo de discriminação e manutenção de sofrimento psíquico.

(Foto de capa: Agência Câmara)