03 de dezembro de 2018, 16h40

“Espere agora pelo ano passado”, o mundo bizarro de Philip Dick

Raphael Silva Fagundes: “Artistas como Shakespeare, Machado de Assis, Stan Lee e o próprio Dick são fenômenos em suas respectivas épocas por conseguirem apreender a realidade, o contexto que os cercava, e, magistralmente, metaforizá-los”

Foto: Reprodução

Robôs, alienígenas, viagem no tempo, realidades paralelas, diversos elementos da ficção científica em um único romance. Além de tudo isso, uma dose de política. Podemos encontrar todas essas questões que vislumbram a fantasia dos homens e mulheres modernos no novo romance publicado pelo gênio do gênero Philip Dick. Digo novo porque é a primeira vez que “Espere agora pelo ano passado” é publicado no Brasil, embora tenha sido escrito em 1966.

O ano é 2055 e o personagem principal, Eric Sweetcents, é um médico que consegue um emprego que tem como missão árdua a de tratar o Dique, Gino Molinari, primeiro-secretário da ONU que lidera a guerra contra os reegs, alienígenas que possuem a forma de moscas gigantes.

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Por ter sido escrito em 1966 entramos em contato com elementos da Guerra Fria e do mundo das drogas que contagiava a juventude e os artistas da era hippie. Política e drogas acabam por assumir o centro de toda a trama do romance, na lógica bizarra de um futuro despótico bizarro.

Dick, como é comum em seus romances e contos, sempre questiona a realidade, buscando compreendê-la, em alguns casos, como uma ideologia política. “Um dos axiomas dessa ficção é que a realidade corriqueira, de que todos nós dependemos, é precária e ilusória”. Neste romance, o chefe político, Molinari, manipula as diversas realidades paralelas, que podem ser acessadas a partir do uso da droga JJ-180, para manter o poder na ONU e o domínio sobre a guerra intergaláctica.

Talvez seja o único romance de Dick em que ele não vê as máquinas como um problema. Diferente de Isaac Asimov, Dick não via um futuro em que as máquinas auxiliariam o ser humano, mas, pelo contrário, elas se tornam sempre um elemento de conflito, meio que na síndrome de Frankenstein. Mas, na obra que esse texto faz um comentário, as máquinas aparecem como bons servos.

Os seres humanos são os seus próprios inimigos. Isso fica claro quando Sweetcents, em uma das realidades acessadas cem anos à frente de sua época, pergunta sobre quem ganhou a guerra. Com o medo de que tivesse sido os reegs, ele indaga: “Foram os reegs?”, o outro ser humano responde: “Nós somos os reegs”. Nós somos os monstros criados para nos dizimar.

É lógico que o conflito extraterrestre é apenas uma forma figurativa de representar os conflitos da época que o escritor produzia a sua obra, a era da Guerra Fria. Entretanto, a possibilidade de vida em outros planetas vem de outras eras, mas, sem dúvida, tornou-se muito mais presente no cotidiano das pessoas quando se divulgava que os russos já haviam chegado ao espaço enquanto que os americanos se esforçavam para enviar o homem à Lua. “Espere agora pelo ano passado” foi escrito exatamente entre estes dois acontecimentos que marcaram a corrida espacial.

Por mais que se especulasse antes, foi a revolução copernicana e a invenção do telescópio galileano que provocou “uma radical mudança na orientação das ideias sobre a possibilidade de existência de outros mundos”, explica o historiador Eduardo Dorneles Barcelos. A ideia de Giordano Bruno, de que havia vários mundos, que, inclusive, o levou à fogueira, era inspirada na nova astronomia.

Mais tarde os filósofos entraram nessa discussão. Voltaire dizia: “Tenho até mesmo motivos para crer que os planetas que giram em torno de sóis inumeráveis enchendo o espaço estão povoados de seres sensíveis e pensantes”. Para Kant, “poderiam existir, também, regiões desertas e desabitadas que não fossem utilizadas para a finalidade da natureza, que é a contemplação de seres racionais”.

“A guerra dos mundos”, de H. G. Wells foi um marco divisório na concepção imagética do alienígena bizarro. Escrito em 1898, o escritor britânico conta a história de marcianos invadindo a cidade de Londres. Alguns acreditam que Wells estava fazendo uma crítica ao colonialismo britânico que dominava o globo na época, por isso coloca a questão: “Somos porventura tão puros apóstolos da misericórdia para que possamos nos queixar de que os marcianos nos tenham atacado com o mesmo intuito?”. Foi sua narrativa de excepcional força dramática que introduziu os marcianos de forma expressiva na indústria cultural.

Em 30 de outubro de 1938, a notícia radiofônica de que estava ocorrendo uma invasão marciana nos EUA criou uma histeria no país. Mas era nada mais do que o romance de Wells que estava sendo lido. Na União Soviética ocorreu um episódio similar em meados dos anos 50. Foi assim que o interesse popular pelo tema ganhou corpo abrindo espaço para os diversos escritos da ficção científica com histórias que retratam a possível existência de extraterrestres.

Artistas como Shakespeare, Machado de Assis, Stan Lee e o próprio Dick são fenômenos em suas respectivas épocas por conseguirem apreender a realidade, o contexto que os cercava, e, magistralmente, metaforizá-los. Eles produziram obras que nos permitem revisitar o tempo histórico de tais produções. E, sem dúvida, “Espere agora pelo ano passado”, é um exemplo claro disso.

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