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03 de dezembro de 2013, 10h51

Esse texto não é sobre o Lulu e o Tubby

Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca conversou com qualquer mulher

Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca conversou com qualquer mulher

Texto de Felipe Pacheco publicado no Blogueiras Feministas

Estou faz tempo para escrever sobre isso. De toda a polêmica de Lulu/Tubby o que mais me incomoda – e assusta – é a noção do que é igualdade para alguns homens. Algo próximo ao nível de pensamento de uma criança de 12 anos.

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Tenho coletado vários exemplos de hashtags que vários caras disseram que gostariam de taguear as mulheres em um aplicativoinverso do Lulu. Algumas deles são: #BucetaFedida, #DáNoPrimeiroEncontro, #DáABunda, #DáDeQuatro, #FazComMaisDeUm, #MamaEuEUzamigos. Isso sem contar o que o Tubby já promete, como #EngoleTudo e #CurteTapas. Em todas as reclamações que vi de caras que davam exemplos de hashtags, não encontrei nenhuma que não fale de sexo.

Aí que começa o que tem me incomodado. Essa noção de “Putz, ela falou que uso Rider, deixa eu revidar falando que ela tem uma buceta fedida!” ou “Vadia, disse que eu valho menos que um pão na chapa. Vou lá escrever que ela dá a bunda pra todo mundo saber a putinha que ela é”. Uma coisa não é a revanche da outra, não. Existe até uma política do Lulu de, em coisas relacionadas ao sexo, ele fala bem, mas não fala mal. Tanto que #TrêsPernas existe e o #NãoFazNemCócegas já saiu na última revisão porque viram que não tinha a cara do aplicativo.

Nem preciso entrar no assunto da diferença da opinião pública entre o “homem bom de cama” – o que #CaiDeBoca, o #SafadoNaMedidaCerta – e a “garota boa de cama” – que #EngoleTudo, que #CurteTapas –, né? É só perguntar quantos caras gostariam de ser vistos com essas hashtags e quantas mulheres, considerando a sociedade “é puta” em que vivemos.

A mesma coisa com a visão do “homem objetificado”. Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca teve uma namorada ou nunca conversou com qualquer mulher. Nunca teve que acalmar uma garota que volta chorando de raiva depois de ser assediada na rua. Nenhum cara chega na garota no metrô, encosta o pau na bunda dela e fala em seu ouvido: “você tem uma carinha de quem curte Romero Britto”. Não, caras. Estamos bem longe de sofrer o que qualquer uma delas sofre.

A gente vive num mundo em que a garota que beija o brasão do time na camiseta e mostra sem querer o sutiã – SUTIÃ! – na transmissão do jogo de futebol vira piadinha não só na internet, como dos próprios comentaristas do jogo na televisão. Jornalistas que formam opinião, que deveriam ajudar na educação.

Aí, depois ainda tem gente que fala que o homem branco é quem sofre preconceito, que ele é injustiçado, que nada trabalha ao seu favor. Que é um absurdo existir Delegacia da Mulher, mas não existir uma para homens. Quem dera não precisar existir uma delegacia só para mulheres, é aí que teríamos igualdade. Não quando existe uma delegacia para mulheres e outra para homens, mas quando todos se tratassem como iguais a ponto de NÃO PRECISAR existir.

Ah! Ainda tem aqueles que acham que não precisa de Delegacia da Mulher mesmo. Ou pior! Aqueles que afirmam que, por causa da Lei Maria da Penha, por exemplo, “as mulheres os desrespeitam mais”. E não são poucos que pensam isso, não! 37%! MAIS DE UM TERÇO. Vale dizer que esses são, normalmente, os que dizem que “o homem só bate porque a mulher provoca” (29% dos homens). Isso sem contar os milhares de casos de estupro cuja culpa é da roupa que a garota usa e não do estuprador, né? E isso não é opinião de qualquer um não. É opinião de policiais, juízes, o que for, homens que definem as leis. Realmente… Não precisamos de delegacia para mulher.

É claro que, nas redes sociais, conversamos com gente com um nível de educação parecido e tal, onde “uma situação dessas seria improvável” (sic) e, por isso, acredito que muita gente tenha esse tipo de visão do que é o equilíbrio de direitos entre homens e mulheres.

Enfim, esse texto não é sobre Lulu, Tubby, nem nenhum outro aplicativo com vida útil limitada. É sobre essa visão distorcida de que o homem precisa de um Tubby, de uma delegacia para homens ou de qualquer outro artifício para “se defender das feminazi”, de que isso sim é igualdade. Ah vá, né cara? Uma dica? Conversa um pouquinho mais com as garotas que vc conhece, ouça suas histórias e pelo que passam todos os dias.

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Felipe Pacheco é publicitário e trabalha com planejamento em redes sociais. Apaixonado por viagens, abandonou a agência para ter a liberdade de viver em qualquer lugar do mundo. Este texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook.