Cinegnose

por Wilson Ferreira

25 de agosto de 2015, 10h56

Estágio meteorológico da informação cria presunção da catástrofe

Já foi a época em que a previsão do tempo nos telejornais era uma prestação de serviços para os espectadores saberem se teriam que sair de casa de guarda-chuva ou então se o próximo final de semana seria aproveitável para passeios. Hoje tornou-se um jogo televisual onde os dados dos satélites e os infográficos animados representando depressões atmosféricas e deslocamentos de massas de ar tornaram-se álibis da busca de uma amarração ideal das seguintes pautas: a “crise hídrica”, a presunção da catástrofe climática e a descontextualização das notícias. É o “estágio meteorológico da informação”, onde os boletins da previsão do tempo sucedem ou precedem notícias que precisam ser semioticamente maquiadas.

 A sessão da Previsão do Tempo nos telejornais tornou-se peça subliminar daquilo que chamamos de “jornalismo metonímico” – a ordem em que as notícias são colocadas em um telejornal cria uma narrativa para confirmar predisposições, visões de mundo e ideologias políticas pré-existentes nas reuniões de pautas das editorias.

O pensador francês Jean Baudrillard já observava esse fenômeno em 1995 ao afirmar que a informação estava entrando no “estágio meteorológico”: na televisão francesa as notícias sobre Bolsa de Valores e Economia sempre antecediam ou sucediam os boletins meteorológicos como que as previsões e incidentes climáticos naturalizassem as flutuações especulativas – a especulação dos mercados financeiros não são eventos políticas, mas fenômenos parecidos como os da Natureza – leia BAUDRILLARD, Jean. “A Informação no Estágio Meteorológico” In: Idem, Tela Total, Porto Alegre: Sulina, 1997.

O mundo da Economia seria tão objetivo e neutro quanto os fenômenos meteorológicos, restando a nós observarmos e tentar prever as tendências. Hoje, os europeus pagam o preço dessa blindagem ideológica dos anos 1990 que ajudou a criar a chamada “Zona do Euro”.

Aqui nos telejornais brasileiros, os boletins meteorológicos atualmente procuram fazer a amarração semiótica de três pautas: a “crise hídrica”, a presunção da catástrofe climática e  descontextualização de notícias.

Blindagem semiótica da “crise hídrica”

A cobertura jornalística da crise do abastecimento de água na Grande São Paulo e de cidades no interior do Estado tem se limitado a fazer uma contagem regressiva do esvaziamento das represas em cada boletim da Previsão do Tempo. Infográficos dinâmicos mostram massas de ar quente e nuvens de chuvas desviadas para o oceano.

 

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Analistas criticam a mídia de que a cobertura à chamada “crise hídrica” não menciona a responsabilidade do governador do Estado, Geraldo Alckmin, e nem a omissão administrativa da Sabesp (empresa de saneamento básico do Estado), alertada desde o início desse século por especialistas que já previam o cenário atual. E muito menos são noticiados os lucros recordes da Sabesp, mesmo em um momento de crise de abastecimento – que, aliás, é noticiado como pontuais “quedas de pressão” da rede de fornecimento.

Porém, mesmo que os telejornais comecem a fazer o contraponto e deem espaço para especialistas que falem sobre as verdadeiras razões da falta d’água, o estágio meteorológico atual da informação blindaria a pauta da grande mídia contra qualquer voz dissonante: logo em seguida ao bloco de notícias entraria um boletim sobre a previsão do tempo falando em estiagens, quantidades de chuva abaixo de uma suposta média esperada para o mês e assim por diante.

O primeiro critério que o leitor deve ter em mente ao fazer a leitura crítica de um telejornal, não é ficar apenas atento ao que não foi informado, mas a sucessão narrativa da pauta, a escalada das notícias. A contiguidade entre notícias e boletins meteorológicos, por exemplo, é uma desses mecanismo semióticos com a finalidade de, subliminarmente, amarrar a narrativa que se quer empurrar goela abaixo do telespectador.

Certa vez, o jornalista e sociólogo espanhol Ignácio Ramonet escreveu que mais importante do que as próprias notícias, é a forma como elas são dispostas na pauta do telejornal: as aproximações acabam sugerindo conexões e relações de causa-efeito entre fatos que, de outra forma, seriam meras informações isoladas. Ou, o inverso: notícias cujas conexões são críticas são afastadas, esvaziando seus significados. Aproximações ou afastamento de notícias dentro da pauta do telejornal acabam criando novas significações que, muitas vezes, podem ter motivações político-ideológicas.

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A bomba-relógio dos boletins meteorológicos

Outro função semiótica é a da presunção da catástrofe climática – depois de cada notícia exótica sobre fenômenos climáticos extremos (um lugar que não nevava há 50 anos, recorde de calor em Nova York ou Londres ou as apavorantes imagens do cone escuro de um ciclone destelhando casas no Paraná) ou incêndios em matas ou áreas urbanas, vem o boletim meteorológico sobre algumas palavras-chave esotéricas (e, portanto, assustadoras) para o leigo como “efeito El Niño”, “depressões”, “corredor de convergência”, “anti-ciclone tropical”…

Eventos previsíveis, sazonais ou compreensíveis numa perspectiva de recorrência climáticas de longo prazo transformam-se em evidências de uma catástrofe que se aproxima.

O cacoete metonímico em aproximar rapidamente um incêndio isolado com a sessão da previsão do tempo é um efeito involuntário dessa ansiedade nervosa por conexões que conduzam à agenda do Aquecimento Global. Notícias sazonais de queimadas em estações secas desde a Califórnia (principalmente quando se aproximam de mansões de celebridades) até o Planalto Central brasileiro seriam confirmações dessa marcha histórica para a catástrofe.

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O interessante na retórica das previsões do tempo é o efeito bomba-relógio ou contagem regressiva: diariamente os apresentadores do tempo fazem uma leitura da umidade do ar decrescente, a contagem dos dias de estiagem (não chove desde…) etc. Mesmo sabendo-se que colocado em perspectiva histórica é o período do ano de natural estiagem, o boletim reforça as tintas ao provar na contagem regressiva que alguma bomba climática explodirá.

Historicamente sabemos que, desde quando o magnata das comunicações dos EUA William Hearst inventou uma guerra entre EUA e Cuba em 1898 para aumentar a tensão diplomática com a Espanha e vender mais jornais, a mídia vive da presunção da catástrofe, do pânico e do medo. Supostamente, essas situações tornariam os cidadãos ainda mais sedentos por informação, para encontrar uma saída ou simplesmente sobreviver.

 

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