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10 de dezembro de 2017, 09h58

Estudo da Folha aponta que estudantes cotistas têm bom desempenho na universidade

O caminho durante o ensino superior se mostra ainda mais positivo para esses estudantes beneficiados se considerado que eles começam o curso com desempenho inferior aos demais alunos

O caminho durante o ensino superior se mostra ainda mais positivo para esses estudantes beneficiados se considerado que eles começam o curso com desempenho inferior aos demais alunos Da Redação* Um levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo analisou o desempenho de alunos que ingressam nas universidades por meio de cotas. De acordo com o resultado, eles se formam com a performance igual a dos demais estudantes, exceto em ciências exatas. Este dado quebra o mito de que alunos cotistas não conseguem acompanhar os cursos por conta da falta de preparo prévio. O jornal analisou o desempenho de 252 mil estudantes nas últimas...

O caminho durante o ensino superior se mostra ainda mais positivo para esses estudantes beneficiados se considerado que eles começam o curso com desempenho inferior aos demais alunos

Da Redação*

Um levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo analisou o desempenho de alunos que ingressam nas universidades por meio de cotas. De acordo com o resultado, eles se formam com a performance igual a dos demais estudantes, exceto em ciências exatas. Este dado quebra o mito de que alunos cotistas não conseguem acompanhar os cursos por conta da falta de preparo prévio.

O jornal analisou o desempenho de 252 mil estudantes nas últimas três edições do Enade, de 2014 a 2016. O exame é aplicado pelo Ministério da Educação a alunos no último ano da graduação e contém perguntas de conhecimentos gerais e específicos.

Em 33 dos 64 cursos, a nota média dos estudantes beneficiados por cotas ou outra ação afirmativa foi superior ou até 5% inferior -desempenho considerado semelhante, pois representa diferença de até dois pontos em cem possíveis em uma prova.

Estão nesse grupo odontologia (3% superior), ciências sociais (exatamente igual) ou medicina (2% inferior).

O caminho durante o ensino superior se mostra ainda mais positivo para esses estudantes beneficiados se considerado que eles começam o curso com desempenho inferior aos demais alunos.

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Em odontologia, a nota de entrada dos estudantes beneficiados por cotas é 6% menor, segundo projeção feita com base no sistema de ingresso nas universidades federais em 2015. Em ciências sociais e medicina, por exemplo, é de 4% abaixo.

Ou seja, sem a reserva de vagas, esses estudantes provavelmente não estariam na universidade pública, pois teriam sido ultrapassados no processo seletivo por alunos de colégios particulares.

OPORTUNIDADE

A política de cotas tem como objetivo aumentar a presença em universidades públicas de populações que são representativas na sociedade, mas têm tido acesso limitado ao ensino superior -como alunos de escolas públicas, negros ou indígenas.

“Uma vez que esse aluno desfavorecido entra numa universidade pública, ele vai fazer de tudo para aproveitar a oportunidade”, afirma o ex-ministro da Educação (gestão Dilma) Luiz Cláudio Costa.

Ele diz que, se o cotista ficar com nota até 10% menor que a de um não cotista no Enade, significa que eles estão praticamente empatados (a reportagem utilizou 5% como critério). Pelo modelo do ex-ministro, os alunos que utilizaram cotas estariam empatados ou acima dos demais em 54 dos 64 cursos.

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Em qualquer um dos critérios, fica nítido que, nas exatas, há maiores dificuldades para os estudantes beneficiados por ação afirmativa.

Entre os 31 cursos que os alunos de ação afirmativa tiveram média ao menos 5% inferior, 13 são de exatas.

Nos cursos em que eles tiveram desempenho melhor, nenhum é de exatas.

A defasagem em matemática dos alunos das escolas públicas é evidente desde o ensino básico. Apenas 4% desses alunos se formam com desempenho adequado, ante 22% em português.

“Especialmente os primeiros três semestres são puxados para qualquer aluno, porque exige muita matemática”, diz o presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia, Vanderli Fava de Oliveira. “Para o cotista é ainda pior, porque ele chega com mais defasagem.”

Professor de engenharia da Universidade de Juiz de Fora (MG), Oliveira diz que, nos primeiros semestres nas engenharias, a evasão bate os 50%, para cotistas e não cotistas.

Ele defende que as universidades devam ter programas de acolhimento, em que as dificuldades sejam atenuadas com aulas de reforço, e que haja também apoio social.

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A medida poderia ajudar alunos como Luan Lima, 21. Ele ingressou em 2015 em engenharia na Universidade Federal de São Carlos (SP) por meio de cotas para rede pública. De cara, reprovou em duas disciplinas de cálculo e em outra de programação.

“Muitas das bases da matemática para desenvolver os cálculos eu não tinha visto na escola”, conta ele, cuja mãe é empregada doméstica.

Sem conseguir bolsas de permanência estudantil, teve de voltar para São Paulo.

Ingressou em engenharia da informação na Federal do ABC. Hoje no 2º ano, Lima tem se sentido mais à vontade com o curso. “Senti uma diferença na questão de costume, de como estudar e fazer as provas. Fica mais difícil quando você nem sabe como correr atrás”, diz.

Secretário-executivo da Andifes (associação dos dirigentes das universidades federais), Gustavo Balduíno diz que quase todas as instituições se preocupam com atendimento a alunos carentes.

“Mas são problemas para os quais precisamos procurar soluções de forma permanente”, diz ele, citando exemplos como da UFABC, que tem curso de reforço em matemática.

*Com informações da Folha

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