Raphael Silva Fagundes

15 de março de 2019, 06h00

Eu, eu mesmo e Bolsonaro: notas sobre o fanatismo

Em novo artigo, Raphael Silva Fagundes questiona: “O bolsonarista defende os valores cristãos ao mesmo tempo que comemora a morte de Marielle, além de afirmar que a solução para tudo é a violência. Será que há um transtorno de dupla personalidade?”

Foto: Reprodução/YouTube

“Fanático é um termo cunhado no século XVIII para denominar pessoas que seriam partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa religiosa ou política”, explicam Jaime Pinsky e Carla Pinsky, na introdução do livro que organizam (1). Voltaire, em seu “Dicionário Filosófico”, descreve como fanáticos os que matam em nome de Deus, o tolo que derruba e destrói estátuas e ornamentos, os energúmenos enfermos que assassinam reis e os  “juízes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles” (2).

O filósofo iluminista continua afirmando que “o fanatismo tendo gangrenado um cérebro, a doença é quase incurável”. Em seguida, conclui que “não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal”.

O fanatismo tem origem no conhecimento dogmático. “É condição do fanático a irracionalidade”. Veja o que acontece hoje. Acreditar que o mais imbecil dos políticos do PSL pode ser superior a Einstein só por esse ser de esquerda e socialista, não decorre de uma apreensão racional da realidade, mas de uma verdade revelada absurdamente. Nenhum intelectual de esquerda que se preze pode negar a importância de Wittgenstein para a filosofia da linguagem, embora este tenha claramente um pensamento conservador.

Voltaire diz que são os velhacos que colocam o punhal nas mãos dos fanáticos: “Assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia imbecis gozarem de alegrias no paraíso e que lhes prometia uma eternidade de prazeres”. E são os velhos ideais reacionários que influenciam os fanáticos bolsonaristas. Estes se molham de prazer o vendo todas as quintas-feiras.

O fanatismo pode também estar ligado à nostalgia de um adulto que, quando criança, tinha um pai opressor que batia e o forçava a agir como homem. Essa imagem pode ser projetada facilmente no líder autoritário. Pode ser um trauma, um transtorno.

Há também uma relação ambígua, como a do personagem do filme “Eu, eu mesmo e Irene”. O bolsonarista defende os valores cristãos ao mesmo tempo que comemora a morte de Marielle, além de afirmar que a solução para tudo é a violência. Será que há um transtorno de dupla personalidade?

“O grande perigo do fanático consiste exatamente na certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades”. Portanto, o pai do fanatismo é sempre a ignorância. Ignorantes são aqueles que não procuram a sabedoria “porque acreditam que a possuem”. O “verdadeiro filósofo, amante da sabedoria, procura aproximar-se dela perseguindo-a durante toda sua vida”, diz o professor Nuccio Ordine (3).

Por causa disso, só para constar, prefiro a mão esquerda de Deus à direita, como dizia Lessing: “Se Deus guardasse na mão direita toda a verdade e na mão esquerda somente o desejo ardente pela verdade, e me dissesse: ‘Escolha!’, mesmo arriscando a me enganar para sempre e por toda a eternidade, eu me inclinaria humildemente para a sua mão esquerda e diria: ‘Pai, dai-me esta mão; a verdade absoluta pertence somente a ti’”.

(1)PINSKY, J. e PINSKY, C. (orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004.

(2)VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martin Claret, 2006. P. 218.

(3)ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

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