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05 de março de 2012, 11h30

EUA: Uma eleição do um por cento

Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, uma simples ilusão de democracia

Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, uma simples ilusão de democracia Por David Brooks  (Publicado por Carta Maior. Foto Gage Skidmore/Flickr) Que a eleição presidencial norte americana parece estar reduzida, com seu tsunami de fundos ilimitados e não regulados, a um concurso entre milionários para impor o seu favorito na Casa Branca já não é notícia. Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, guiada, desenhada e coreografada...

Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, uma simples ilusão de democracia

Por David Brooks  (Publicado por Carta Maior. Foto Gage Skidmore/Flickr)

Que a eleição presidencial norte americana parece estar reduzida, com seu tsunami de fundos ilimitados e não regulados, a um concurso entre milionários para impor o seu favorito na Casa Branca já não é notícia. Para muitos, a impressão é que esta é uma eleição do um por cento, para o um por cento e pelo um por cento, guiada, desenhada e coreografada pelos melhores técnicos especializados em criar uma ilusão de democracia enquanto os donos do jogo se dedicam ao negócio do poder real. Portanto, talvez o mais interessante agora sejam os detalhes raros e absurdos deste concurso ou as coisas que se revelam da classe política por acidente.

Por exemplo, no sábado passado houve uma agitação no estado mais orgulhosamente anti-imigrante do país, o Arizona. Ali, uma das figuras mais “machonas” da política estadual, um “sheriff” reconhecido por sua feroz posição anti-imigrante e fama de ser ex-militar e grande defensor da “lei e da ordem”, também candidato ao Congresso, de repente teve que renunciar à vice-presidência estadual da campanha presidencial do republicano Mitt Romney. A razão: um conflito passional com um homem, que além de tudo é… um imigrante mexicano!

Paul Babeu, político muito popular no Arizona, xerife do condado de Pinal, anunciou sua renúncia após serem publicadas nos meios de comunicação locais, versões de que havia ameaçado deportar um ex-namorado, de origem mexicana, quando este – identificado como José – recusou ocultar uma relação que, afirmou, durou anos. José declarou ao Phoenix New Times que recusou assinar um acordo segundo o qual jamais revelaria sua relação com Babeu e por isso foi ameaçado com a deportação. No sábado, Babeu foi obrigado a confessar, em entrevista coletiva, que teve uma relação “pessoal” com José, mas negou que houvesse ameaçado deportá-lo, embora admitisse: “A verdade é que sou gay”. As primárias no Arizona se realizaram nestes dias e o que menos desejava Romney, que destaca suas credenciais de “conservador” extremo, é que alguém associado a ele seja gay.

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Falando de estrangeiros, os republicanos ainda tentam manter a suspeita de que Obama não é norte-americano. Entre as filas ultraconservadoras se suspeita ainda da veracidade de sua certidão de nascimento e, embora os pré-candidatos tenham abandonado essa linha de ataque (que utilizaram na eleição de 2008), desejam gerar a ideia de que mesmo Obama sendo norte-americano, suas ideias sim são estrangeiras. Na impossibilidade de poder chamá-lo “africano” ou “muçulmano”, como tentaram antes, agora o pior insulto é que é um socialdemocrata ou socialista estilo europeu. O pré-candidato presidencial republicano Newt Gingrich o acusou de estar “a favor do socialismo europeu”.

Romney afirmou que Obama promove um “Estado de Bem estar de estilo europeu” em contraste com o seu, que é de “um país livre”. Como assinala o colunista Harold Meyerson, do The Washington Post, a “culpabilidade por associação era muito mais simples quando a associação, ou suposta associação, era com comunistas. Em sua ausência, os republicanos enfrentaram o desafio de tornarem-se mais ridículos. E conseguiram!”.

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Enquanto isso houve um intenso debate sobre a “liberdade de religião” quando os bispos católicos proclamaram sua oposição a que hospitais e escolas católicas paguem o custo de anticoncepcionais para seus funcionários, como estipula a reforma de saúde impulsionada por Obama. Quando o governo de Obama conseguiu torcer a férrea oposição da hierarquia católica, ao dizer que as seguradoras e não suas instituições pagariam esses custos, os bispos insistiram que ninguém deve pagar por algo tão cheio de maldade como a contracepção. Agora alguns republicanos atacam Obama como “inimigo da religião”.

O espetáculo da hierarquia – por definição de puros homens –, defendendo seus supostos princípios morais sobre a sexualidade, apesar da vasta maioria de seus fiéis não compartilharem seu ponto de vista e de que não há nenhuma menção a tal coisa na Bíblia, foi triste. Mas o mais notável, quase obsceno, assinalaram cômicos e satíricos, foi que uma instituição que passa por uma das piores crises de sua história – e paga indenizações multimilionárias – pelas perversas atividades sexuais cometidas com menores de idade por vários de seus pastores espirituais, e depois encobertas por seus líderes, ainda acredite que tem autoridade moral para pronunciar-se sobre isto. Revelou, mais uma vez, essa combinação tão letal de política e religião neste país.

Talvez o exemplo mais extremo desta combinação entre política e religião entre os republicanos é o pré-candidato Rick Santorum, que não só se pronuncia contra a anticoncepção, mas também descarta o aquecimento global, a teoria da evolução, afirma que o sexo gay é “selvagem” e até questiona o papel do Estado na educação (seus filhos foram educados em casa). Tudo em nome de sua fé católica. O fato de ser um candidato viável para a presidência provoca que muitos aqui gritem: “Deus nos salve!”.

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E, enquanto tantas coisas sérias acontecem, a convulsão continua em Wall Street. Há duas semanas se realizou um rito anual de uma confraria de banqueiros e executivos de Wall Street que se divertiram zombando do Ocupy Wall Street e de como foram resgatados da crise pelo tesouro público. Todo culminou com o rito de indução de novos membros, que tiveram que vestir roupa de mulher, dançar, cantar e submeterem-se a um bombardeio de pasteizinhos e guardanapos empapados em vinho exclusivo. Estes são, como informou The New York Times, os que tomam decisões cotidianas que “coletivamente podem fazer ou romper os mercados financeiros globais”.

Só com estes exemplos – e tem muito mais – pode-se concluir que, se por um lado os conservadores aqui tem razão: a imigração, o socialismo e o sexo ameaçam os Estados Unidos, por outro, é que talvez o estribilho da canção tema do grande filme Cabaret é o melhor exemplo para descrever a conjuntura neste país: “a vida, meu amigo, é um cabaret”.

(*) Do La Jornada, México. Especial para Página/12. Tradução: Libório Júnior

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