Imprensa livre e independente
12 de fevereiro de 2010, 15h07

EUA insistem na confrontação com o Irã

A disputa em torno do programa nuclear iraniano subiu de tom semana passada, depois de Teerã ter respondido a uma série de atos agressivos dos EUA

A disputa em torno do programa nuclear iraniano subiu de tom semana passada, depois de Teerã ter respondido a uma série de atos agressivos dos EUA Por Al-Ahram Weekly, Cairo A disputa em torno do programa nuclear iraniano subiu de tom semana passada, depois de Teerã ter respondido a uma série de atos agressivos dos EUA, primeiro em tom também agressivo, depois com aparente disposição para a conciliação e, finalmente, em aberto desafio. A temperatura começou a subir quando os EUA anunciaram, dia 31 de janeiro, que estavam enviando barcos de combate para missão de patrulha permanente da costa iraniana...

A disputa em torno do programa nuclear iraniano subiu de tom semana passada, depois de Teerã ter respondido a uma série de atos agressivos dos EUA

Por Al-Ahram Weekly, Cairo

A disputa em torno do programa nuclear iraniano subiu de tom semana passada, depois de Teerã ter respondido a uma série de atos agressivos dos EUA, primeiro em tom também agressivo, depois com aparente disposição para a conciliação e, finalmente, em aberto desafio.

A temperatura começou a subir quando os EUA anunciaram, dia 31 de janeiro, que estavam enviando barcos de combate para missão de patrulha permanente da costa iraniana e estacionando um sistema “de defesa” com mísseis Patriot no Catar, nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrain e no Kuwait – para acrescentarem-se aos sistemas Patriot já estacionados em Israel e na Arábia Saudita. Todos dirigidos contra o mesmo inimigo.

“O Irã é claramente uma ameaça muito grave do outro lado do front do Golfo”, disse o general David Petraeus, principal comandante militar dos EUA no Oriente Médio, em conferência em Washington dia 22/1.

Combinado com movimentos liderados pelos EUA para impor uma quarta rodada de sanções mediante o Conselho de Segurança da ONU, os deslocamentos são meios para aumentar a pressão para impedir que o país dê andamento a um programa nuclear, que o Irã garante que está de acordo com o que exigem as leis internacionais, mas que, para EUA, Europa, Israel e alguns Estados árabes, seria cobertura para o projeto iraniano de tornar-se o décimo Estado do planeta armado com bombas atômicas.

Tudo isso indica também uma mudança na política do governo Obama, de uma posição de conciliação e diálogo, para uma posição de confrontação.

As primeiras reações do Irã mostraram alguma confusão. O ministro das Relações Exteriores disse que com os novos movimentos Washington trabalha para inventar uma “Irãfobia” entre os Estados do Golfo. O ministério da Defesa disparou um foguete espacial que conduzia “uma cápsula experimental” que, na opinião dos poderes ocidentais, poderia ser um protótipo de ogiva nuclear.

Veja também:  México apreende cerca de imigrantes que estavam em contêineres

Em seguida, esses “atos de provocação” (na avaliação de Washington) deram lugar a declarações que foram as mais conciliatórias que o Irã emite dos últimos meses.

Em outubro, a Agência Internacional de Energia Atômica [ing. International Atomic Energy Agency (IAEA)] propôs uma fórmula que, pelo menos em parte, poderia esvaziar a crise: o Irã comprometer-se-ia a exportar 70% de seu estoque de urânio baixamente refinado para ser enriquecido na Rússia e na França, onde seria convertido em combustível para alimentar o reator em Teerã.

O Irã rejeitou a proposta, sob a alegação de que, uma vez exportado, nada garantiria que o urânio fosse devolvido. Mais tarde, dia 2/2, o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse, em entrevista à televisão estatal iraniana, que essa teria sido uma interpretação errada de suas declarações.

“Se pudermos supervisionar a viagem do urânio [para França e Rússia, ida e volta], não há problema algum. Assinamos um contrato pelo qual entregaremos urânio refinado a 3,5% e o receberemos refinado a 20%, depois de quatro, cinco meses”.

Em reunião com a IAEA dia 6/2, o ministro das Relações Exteriores do Irã Manouchehr Mottaki estava animado. “Nos aproximamos, afinal, de um acordo que pode ser aceito por todas as partes” – disse.

A principal restrição que ainda precisava ser negociada era que o Irã – não a IAEA – decidiria quanto à quantidade de urânio a ser refinado. Foi onde tudo emperrou, porque a porcentagem de 70% do estoque de urânio a ser enviado para refino no exterior havia sido fixada pela IAEA com o objetivo de impedir que o Irã se tornasse capaz de fabricar uma bomba atômica.

Veja também:  O Globo: duas capas, duas caras

Considerados hoje, nem o comentário nem a posterior explicação de Ahmadinejad parecem ter sido resultado de negociação ou proposta séria. No dia seguinte, ordenou à Agência de Energia Atômica Iraniana que “dê início ao refino [do urânio] até 20%”, ao mesmo tempo em que “o caminho da cooperação permanece aberto, se eles [a IAEA] voltarem atrás e concordarem com modificar as precondições do acordo.”

Se prosseguir esse processo, o Irã abrirá nova frente de discordância com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Se refinar o urânio até 20%, o país demonstrará que em pouco tempo terá condições para produzir o urânio refinado a 90% necessário para produzir armas atômicas, dizem os especialistas. O mais provável é que sejam frases de impacto, importantes no contexto da política interna do Irã. Os mesmos especialistas dizem que a indústria nuclear iraniana ainda não controla a tecnologia necessária para refinar urânio a 20%.

Mas ainda que sejam só frases de efeito, bastaram para unir todas as potências ocidentais que creem que o único modo efetivo para submeter o Irã seria impor-lhe sanções, muito mais do que oferecer-lhe condições de negociação ou de cooperação. Sobre o mais recente movimento do Irã, o secretário de Defesa Robert Gates disse: “O único caminho que nos resta, agora, é pressionar. Mas é indispensável que todas as potências trabalhem unidas.”

As cinco potências do Conselho de Segurança, contudo, não estão trabalhando unidas. Os EUA, o Reino Unido e a França querem sanções “fortes”, mirando particularmente os Guardas da Guarda Revolucionária Iraniana: defensores do programa nuclear e principal força de repressão do movimento anti-Ahmadinejad que cresceu depois das eleições presidenciais. Mas a China – que importa do Irã 15% do petróleo que consome – opõe-se. E a Rússia, co-construtora histórica da indústria nucelar iraniana, ainda reluta em apoiar as sanções.

Veja também:  General Heleno fez vistas grossas para casos de corrupção no COB

Depois de reunir-se com Mottaki dia 6/2, o ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov reconheceu que “o Irã tem preocupações legítimas com a própria segurança”. Também reconheceu que “não podemos tratar o programa nuclear iraniano isoladamente, ignorando o que acontece na Região, inclusive entre Israel e os Estados árabes.” São os dois principais argumentos que o Irã sempre levantou, em todas as negociações.

Mas Lavrov também defende que o Irã mande a maior parte de seu urânio para ser refinado no exterior, nos termos da proposta que a IAEA apresentou em outubro. “Criar-se-ia um novo clima mais favorável a negociações produtivas”, disse.

Esse sentimento é partilhado pelos aliados do Irã no Conselho de Segurança. Nos últimos meses, a Turquia tem sido muito ativa, denunciando a “hipocrisia” do ocidente, que tanto fala dos riscos criados pelas ambições nucleares do Irã e imediatamente pensa em aplicar sanções, ao mesmo tempo em que admite que Israel mantenha sem sanções, sem monitoramento e, de fato, sem sequer o conhecimento da IAEA, o único e enorme arsenal nuclear real e já existente na região.

De qualquer modo, Ankara sabe que o Irã não poderá combater as sanções se não construir alianças regionais, nem poderá postar-se contra as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, cuja autoridade, em outros conflitos, o Irã frequentemente invoca.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://weekly.ahram.org.eg/2010/985/in1.htm

Traduzido por Caia Fittipaldi.

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum