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15 de Janeiro de 2013, 10h40

Evo Morales vê despenalização da folha de coca como vitória contra ‘os gringos’

Presidente da Bolívia encontra produtores na região central para comemorar decisão da ONU; pesquisador afirma que EUA mantêm 'ideia tola' de erradicar a produção da planta

Presidente da Bolívia encontra produtores na região central para comemorar decisão da ONU; pesquisador afirma que EUA mantêm ‘ideia tola’ de erradicar a produção da planta

Por João Peres, da Rede Brasil Atual 

A decisão da ONU foi o ápice da luta de Evo Morales, iniciada em 2006 (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

O presidente da Bolívia, Evo Morales, viajou ontem (14) à cidade de Cochabamba, no centro do país, para comemorar ao lado de produtores a decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) de despenalizar o consumo e a mastigação da folha de coca. “Geralmente os convênios e os tratados internacionais são dos gringos dos Estados Unidos, mas, graças à luta do povo e à luta política, ideológica e cultural que fizemos, foi possível mudar as normas do imperialismo norte-americano com relação à folha de coca.”

Na sexta-feira chegou ao fim uma campanha iniciada no primeiro dia do mandato de Evo Morales, em 2006, com a admissão pela ONU de uma mudança na Convenção de Entorpecentes, que desde 1961 considerava a mastigação da coca como ilegal, pois estava associada ao consumo de cocaína. Morales, que iniciou a carreira política como líder cocaleiro da região do Chapare, no departamento de Cochabamba, empreendeu uma campanha que passou por discursos nas Nações Unidas e pelo lançamento de produtos confeccionados com as folhas.

A Convenção de Viena foi alvo de protesto formal da Bolívia em junho de 2011, e a decisão favorável ao pleito teve a adesão de 169 países. 15 foram contra, entre eles Estados Unidos e Reino Unido. “Os Estados Unidos querem acabar com o cultivo da coca porque é a matéria-prima da elaboração da cocaína. Uma pena. É uma ideia tola”, afirmou o pesquisador Mauricio Mamani Pocoaca, em entrevista concedida por e-mail à RBA quando da denúncia apresentada pelo governo de Morales à ONU. “Se querem erradicar a coca, terão de erradicar toda a Amazônia, onde há muitas plantas psicoativas. Além disso, o uso de drogas é biológico, não é só o homem que usa a droga, mas também os animais, muitos insetos. Nenhuma droga é má quando usada devidamente e com muito respeito.”

Mamani conduziu na década de 1970 para o Museu de Etnografia e Folclore de La Paz um dos primeiros estudos sobre o uso da folha de coca. Recém-formado em antropologia, ele entrevistou quase 3 mil camponeses e mineiros de cinco dos oito departamentos bolivianos – o equivalente a estados. Na época, concluiu-se que o “acullico”, a mastigação da folha, remete a cinco mil anos.

A coca desempenhou um papel importante durante a história dos povos andinos, e há registros sobre a necessidade social durante os tempos de colonização. Na época, os indígenas escravizados passaram a recorrer ao acullico para aguentar os efeitos dos trabalhos forçados e a fome. “Pelas vitaminas e minerais que contém a coca, para o consumidor é um complemento alimentício e, como medicina, a coca está sempre dentro dos itens básicos da família mais pobre para tratar qualquer dor ou enfermidade.”

Em Cochabamba, Morales acrescentou que a mudança aprovada na ONU significa também a descriminalização dos produtores de folha, que deixam de ser encarados como narcotraficantes. O presidente da Bolívia recordou que esta é a primeira vez desde a independência que a Bolívia consegue modificar um tratado internacional. “Esta concentração demonstra a unidade do povo para defender nossa cultura, essa luta de tantos anos. Não só a partir de 2006, mas antes da fundação da República nossos antepassados deram suas vidas”, discursou.

Ele prometeu agora identificar outros tratados internacionais que “prejudicam” as vidas dos povos em geral e trabalhar pela alteração dos mesmos.