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04 de Maio de 2018, 15h23

Exclusiva: Histórias de um dia com Dilma em Buenos Aires

A liderança de Dilma entre os hermanos não foi arranhada com o seu impeachment. Nas ruas de Buenos Aires todos a tratavam com reverência.

Foto: Divulgação/Dilma Rousseff

Eram aproximadamente 23h30 da segunda-feira, 30 de abril, quando a ex-presidenta Dilma adentrou ao Café do Meliá do bairro da Recoleta, hotel no qual ficou hospedada durante a sua permanência em Buenos Aires. Chegou falante e animada, contando que a viagem tinha sido agitada e com muita turbulência.

Entre outros, já estavam ali conversando há algum tempo, o secretário-geral da Clacso, Pablo Gentili, o ex-ministro Aloísio Mercadante, e o reitor da Universidad Metropolitana para la Educación y el Trabajo (UMET), Nicolás Trotta, e o repórter. Depois de Dilma, chegaram os advogados que vieram para Buenos Aires lançar os livros sobre o processo de Lula.

O papo antes de a ex-presidenta chegar era quase que totalmente político. Entre outras coisas, falava-se dos momentos que antecederam o impeachment e dos erros e acertos de algumas decisões. Também se conversava sobre o fato de se manter ou não a candidatura Lula até o final ou se a aliança com Ciro podia ser um caminho para a centro-esquerda retornar ao governo.

Como a ex-presidenta chegou falando das turbulências do caminho aéreo, o papo voou para outro lado. E ela começou a contar o quanto tinha apreendido de aviação de tanto que voava nos tempos da presidência.

O repórter não estava ali para anotar detalhes, mas era impressionante como Dilma falava com intimidade do tema. Citava nomes de regiões onde se viaja melhor ou pior por conta dos ventos e de outras questões climáticas. E não só do Brasil, mas também de outros pontos do mundo. “Alguma coisa a gente aprende sendo presidente da República…”, brincou.

A conversa, regada a poucos goles de vinho e uns pedaços de queijo improvisados de última hora pelos funcionários do hotel, foi até a 1h30. No dia seguinte, 1º de Maio, Dilma teria uma agenda cheia. Talvez nem ela, como nós, soubesse o quão cheia e surpreendente seria.

Dia 1º de Maio

Dilma acordou aproximadamente às 8h e recebeu o jornal Página 12 para uma entrevista. Na sequência, foi, acompanhada de Aloísio Mercadante, para a casa da agora senadora e ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner. Pelo que Fórum apurou, Cristina estava muito preocupada com a segurança de Lula no cárcere de Curitiba. E isso talvez a tenha influenciado a dizer posteriormente no seu discurso na Feira do Livro que temia pela vida do ex-presidente. Essa parte, aliás, foi a mais destacada pela imprensa Argentina. Como também pela Fórum e outros veículos brasileiros.

Mercadante, Dilma, Carol Proner, Cristina Kirchner, Adolfo Perez Esquivel e outras lideranças argentinas no Café de La Palabra de Valdés (Foto: Renato Rovai)

Quando Dilma retornou para o bairro da Recoleta, nas proximidades do hotel onde iria almoçar, já eram aproximadamente 13h. Às 14h começaria a atividade central de sua jornada portenha. A esperavam para o almoço aproximadamente 30 pessoas, entre elas o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper. Ao lado de quem ela se sentou à mesa. Samper quando presidente (1994-1998) foi vítima de todo tipo de acusação e também quase foi afastado do cargo. À época como o inimigo da América Latina era o narcotráfico e não a corrupção, a ele coube ter de enfrentar a acusação de ter financiado sua campanha com o dinheiro sujo das drogas.

Enquanto Dilma não chegava, a professora de Direito e uma das organizadoras do livro “Comentários de Uma Sentença Anunciada: O Processo Lula”, Carol Proner, explicava para um Samper muito interessado detalhes da condenação do ex-presidente brasileiro. Entre os advogados, além de Proner, estiveram participando de uma longa agenda de denuncia do processo de golpe no Brasil durante esta semana em Buenos Aires, a espanhola Maria José Farinas e o venezuelano Manuel Gandara, ambos do Instituto Joaquin Herrera flores, Juarez Tavares, professor titular em direito penal da UERJ, Gisele Cittadino, da PUC-Rio, e Marcio Teinenbaum, advogado.
Ao lado de Samper estava o diretor da (UMET), Víctor Santa María. Aos 52 anos, o sindicalista também é dirigente de um clube de futebol, o Sportivo Barracas, e presidente do Partido Justicialista de Buenos Aires, mesmo partido de Cristina Kirchner.

Dilma com Carol Proner (a direita) e outros advogados que foram ao evento para denunciar o golpe no Brasil e a farsa do processo contra Lula. (Foto: Renato Rovai)

A força e atuação dos sindicatos na Argentina é diferente do que estamos acostumados no Brasil. Eles têm há muito mais tempo se dedicado a ampliar espaço em outras áreas sociais. Além de dirigir a UMET, criada em 2013, Santa Maria também é diretor-geral do Grupo Octubre, que gerencia os seguintes veículos de comunicação: o tradicional jornal progressista Página 12, a rádio AM 750, o Diario Z, a Radio Malena, a Revista PIN e El Planeta Urban, além do semanário Caras y Caretas.

Dilma também conversou muito com Santa Maria, a quem chamou de grande liderança política no seu discurso na Feira do Livro. Pela forma como Dilma se comportava no palco durante a fala dele, ficava evidente sua admiração pela sua oratória. Santa Maria foi várias vezes interrompido por aplausos.

Mas a estrela do evento era ela, que fez o discurso final para um público que, segundo os organizadores, deve ter sido de aproximadamente 1,5 mil a 2 mil pessoas. Não só a quantidade de pessoas impressionava, mas a forma como elas tratavam a ex-presidenta brasileira. A liderança de Dilma entre os hermanos não foi arranhada com o seu impeachment. Nas ruas de Buenos Aires todos a tratavam com reverência. Na Feira do Livro não era diferente. Dezenas de pessoas se empurravam em busca de um selfie com aquela que foi vítima de um golpe. Sim, golpe. Isso é outra coisa sobre a qual os hermanos progressistas não cogitam ter dúvida. Eles têm certeza tanto que foi golpe como que Lula é vítima de um processo kafkiano. Que visa não apenas afastá-lo da política no Brasil, mas de liderar a América Latina para que a região tenha uma política autônoma e independente. Aliás, a piada recorrente era, já que não querem Lula no Brasil, mandem ele para cá.

O público presente se empurrava para tirar fotos com Dilma, que não teve, na Argentina, sua imagem arranhada pelo impeachment (Foto: Renato Rovai)

Se a atividade da Feira do Livro foi um estrondoso sucesso, com muita gente e uma mesa composta por importantes lideranças, aquilo ainda não era tudo. A presidenta saiu apressada do local para ir ao encontro de sindicalistas da CGT, a mais antiga central argentina, depois foi para a UMET, onde deu uma coletiva de imprensa para aproximadamente 30 veículos de comunicação, ainda teve fôlego para passar numa sala onde a esperava um grupo de argentinos que constituiu um comitê contra o golpe no Brasil e por fim se sentou na primeira fileira do teatro da universidade para assistir ao espetáculo em defesa de Lula Livre.

O teatro também estava completamente lotado. E Dilma, que chegou reclamando de cansaço, foi ficando a cada apresentação um pouco mais emocionada com o espetáculo que contou com aproximadamente 30 artistas envolvidos. Ela fazia questão de mandar beijos a todos, se levantar para cumprimentá-los, fazer acenos e, num determinado momento, foi convidada para se juntar a alguns e cantar Romaria, de Renato Teixeira. Pegou o microfone e soltou a voz.

Aliás, voz que já ela já reclamava estar faltando naquele momento. Mas que também foi suficiente para fazer um discurso rápido ao final e registrar: “Estou com a alma lavada e enxaguada com este evento.” Destacando que cada vez mais considera fundamental unir cultura e política. E para terminar, recitou o trecho de Guimarães Rosa, em O Grande Sertão Veredas, que já havia utilizado no discurso de sua primeira posse na Presidência da República.

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Uma das artistas agradece Dilma e resume o espírito do ato: “Companheira Dilma, quero lhe chamar assim porque a palavra companheira é muito importante para nós. Leva contigo toda a carga de amor, emoção e esperança de cada um de nós que esteve aqui nesta noite. Porque nós estamos com vocês do Brasil”.

As pessoas com lenços vermelhos serigrafados com o rosto de Lula e a frase “Lula Livre” entoavam cânticos de liberdade. Não se pode dizer que foi uma comoção, mas algumas derramavam lágrimas.

Foto: Renato Rovai

Jantar com Cristina

Eram quase 22h quando Dilma e seus convidados chegaram ao jantar organizado pela ex-presidenta Cristina Kirchner. O encontro foi no Café de Las Palabras, que não é aberto ao público e só funciona para eventos fechados, em especial dos grupos mais próximos ao peronismo.

O dono, Eduardo Valdés, foi embaixador da Argentina no Vaticano e é amigo pessoal do Papa Francisco. Ou de como ele prefere chamá-lo, Bergoglio. O repórter teve o privilégio de sentar à sua frente na mesa enquanto comeu um pedaço de pizza e um lombo com batata. As histórias de Valdés eram uma mais interessante do que a outra.

Eduardo Valdés, dono do café, saboreia seu lombo no jantar com Dilma (Foto: Renato Rovai)

Em 2014, segundo ele, Dilma estava na Itália e ligou a ele pedindo uma reunião de emergência com o Papa porque teria dois pedidos a lhe fazer. Francisco a recebeu e Dilma então lhe pediu que enviasse uma mensagem ao Brasil pela ocasião da Copa do Mundo pedindo paz, porque estava preocupada com que pudesse haver um repique das manifestações de junho de 2013. O papa consentiu e lhe indagou sobre o segundo pedido. “Que o senhor não reze pela Argentina. Porque o senhor rezou tanto por este San Lorenzo e este time que ninguém conhecia ganhou tudo.” Quando o Brasil perdeu de 7 a 1 para Alemanha, segundo Valdés, Francisco teria ligado para Dilma e dito: “Como você me pediu para não rezar para a Argentina eu também não rezei pelo Brasil. Pena, porque senão teríamos uma final sul-americana”. Valdés garante que a relação entre o líder religioso e a ex-presidente era muito carinhosa e amistosa.

O Café de La Palabra de Valdés é um espetáculo à parte. Provavelmente deve ter uns 2 ou 3 mil objetos espalhados por todos os seus cantos. Segundo ele, foram sendo adquiridos aos poucos de lixeiros, principalmente a partir de 2001. “Quase todos os objetos que estão aqui alguém jogou fora”, contou. Alguns certamente foram feitos por encomenda, como um carro de corrida com Lula e Evo, estátuas de Peron e imagens de poetas e cantores. O papa, como muito do que se refere ao peronismo, tem destaque especial no lugar.

O Café de La Palabra de Valdés é um espetáculo a parte (Foto: Renato Rovai)

Dilma saiu do local para o hotel por volta das 00h30. Cansada, teria de acordar às 5h para pegar o voo das 8h. No Brasil, voltaria à dura realidade da prisão de Lula e, como a vida exige coragem, ainda terá que decidir qual seria o seu futuro político. Já que a sua candidatura ao senado de Minas embaralhou os acordos locais com o MDB. De uma coisa seus assessores mais próximos têm certeza, ela só disputa o Senado. Não aceita se sacrificar para uma candidatura à Câmara. Aliás, optou por Minas por conta de um pedido de Lula, que acha que o estado é fundamental para a vitória do partido em nível nacional. Para quem acha que Lula está quieto só observando a paisagem, está muito enganado.

*O jornalista Renato Rovai viajou à Argentina a convite do Clacso (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais), organizador dos eventos com Dilma