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14 de Abril de 2018, 10h17

Exclusivo: “Há alguém muito importante por trás desse crime”, afirma Monica Benício, viúva de Marielle

Um mês após o assassinato da socióloga e vereadora do PSOL-RJ, ninguém foi preso. Sua companheira aguarda a solução do caso: “Eu ainda espero diariamente ela voltar para casa”

Monica: "A retirada da vida da minha mulher e do Anderson, de forma tão brutal, serviu para demonstrar que tanques de guerra na rua não vão resolver e não são a solução" - Foto: Reprodução/TV Globo

Um misto de dor, indignação, esperança e orgulho. É nesse turbilhão de sentimentos que a arquiteta Monica Tereza Azeredo Benício, 32 anos, vive há exato um mês. Foi no dia 14 de março que sua companheira Marielle Franco, socióloga, vereadora do PSOL-RJ e ativista dos direitos humanos foi brutalmente assassinada, junto com o motorista Anderson Gomes, em uma emboscada que foi cuidadosamente armada e que teve seu desenlace no tradicional bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Monica tenta tirar força da solidariedade de todo o Brasil e internacional para prosseguir. No entanto, o que a faz seguir adiante é o legado de lutas e bandeiras deixado por Marielle. Um mês depois dos crimes, ninguém preso. O fato parece não perturbar Monica. Ela, serenamente, diz: “Tenho buscado confiar que esse tempo é necessário para que se descubra, realmente, o que aconteceu e quem, realmente, está por trás disso. Não nos interessa só saber quem foi que executou o crime, mas, principalmente, quem mandou fazer. Nós não aceitamos que esse caso fique sem solução, isso é inadmissível”, destaca. Em entrevista exclusiva à Fórum, Monica fala o que pensa sobre as investigações e como está tentando lidar com a perda de seu grande amor.

Fórum – Depois de um mês dos brutais assassinatos da Marielle e do Anderson, você tem acompanhado as investigações, como avalia o andamento e o fato de que nenhum suspeito dos crimes foi identificado?

Monica Benício – Apesar da dor e da angústia, que é ainda não saber exatamente o que se passou na execução da Marielle, eu tenho buscado confiar que esse tempo é necessário para que se descubra, realmente, o que aconteceu e quem, realmente, está por trás disso. Não nos interessa só saber quem foi que executou o crime, mas, principalmente, quem mandou fazer. Nós não aceitamos que esse caso fique sem solução, isso é inadmissível. Seguiremos cobrando no Brasil e internacionalmente para que esse crime bárbaro seja desvendado. O crime contra Marielle e Anderson transbordou as fronteiras do Brasil e comoveu o mundo inteiro. Então, hoje a satisfação desse brutal assassinato, dessa execução, desse crime político, o Brasil deve ao mundo, e não só a mim, enquanto viúva, nem aos 46.502 eleitores da Marielle, nem aos amigos e familiares. Então, nós seguimos confiantes. Se o sigilo nesse momento é precioso para que as investigações ocorram da melhor forma possível, tem meu apoio. Nós acreditamos que haverá a resposta adequada e não qualquer resposta para que simplesmente nos cale e deem por encerradas as investigações. A voz da Marielle não pode ser calada com o corpo físico sendo abatido brutalmente da forma que foi.

Fórum – Os crimes da Marielle e do Anderson aconteceram em meio à intervenção federal militar no Rio. Como você observa essa ação e o papel dos governos federal (Temer), estadual (Pezão) e municipal (Crivella) no processo de recrudescimento da violência no Rio?

Monica Benício – Infelizmente, a gente vive num país onde pessoas que articulam e cometem crimes bárbaros como esse que foi cometido contra minha mulher acreditam na impunidade. Infelizmente, foi um crime muitíssimo bem planejado e muitíssimo bem executado, que só nos faz concluir que há alguém muito importante por trás disso. Foi um crime executado por profissionais e a atual conjuntura de violência no Rio vem em escalada. Nós não acreditamos que essa intervenção deva ser federalizada, muito pelo contrário. Ela não deveria existir sequer no Rio, porque a intervenção federal deveria ser o último recurso a ser utilizado pelo Estado, quando a gente tem uma situação como a do Rio de Janeiro. Em nenhum momento outro tipo de intervenção, que visasse educação, cultura, benefício da população, foi pensado. Foi direto para o último recurso. Assim como Marielle, eu também não acredito que a intervenção seja a solução. Infelizmente, a retirada da vida da minha mulher e do Anderson, de forma tão brutal, serviu para demonstrar que tanques de guerra na rua não vão resolver e não são a solução.

Fórum – Você já declarou que não deseja ingressar na política partidária, mas pretende manter as bandeiras de luta da Marielle. Como fazer isso sem uma participação parlamentar, por exemplo?

Monica Benicio – Eu acredito que a política é, até hoje, a melhor forma que a gente encontrou de levar os diálogos e exercer a democracia de forma justa, de forma limpa. O Brasil não é o exemplo mais prático de que isso possa acontecer com efetividade, mas eu acredito, sim, que a política seja um dos melhores caminhos para a gente lutar pela democracia, que isso possa ser feito por dentro do sistema. O que eu declarei é que nesse momento, esse não é o meu lugar de fala, e que agora eu não tenho interesse em que esse seja meu lugar de fala, o lugar de fala que Marielle ocupava, dentro do parlamento. Mas se me perguntam como se pode participar democraticamente, socialmente, levando as bandeiras da Marielle, dando continuidade às lutas da Marielle por fora do parlamento, eu acho que qualquer cidadão de bem que tenha boa vontade e que tenha esperança de que se pode modificar essa cidade ou esse país, pode fazer isso do seu lugar de trabalho. Eu posso fazer isso enquanto arquiteta ou humanista que sou, trabalhando e estudando para poder criar uma cidade acessível a todos, que não seja segregada, entre a zona sul periférica da elite e a periferia da favela. Eu posso fazer isso na sala de aula, instruindo novos alunos, fazendo com que eles acreditem e lutem por um mundo melhor. Qualquer ser humano pode fazer isso, de qualquer espaço que esteja ocupando, seja no seu lugar de trabalho, seja só no seu lugar de militância. Meus princípios e objetivos de vida são: sou arquiteta e urbanista por formação, viso a sala de aula como meio de trabalho e o meu lugar pode ser esse. Eu posso ajudar contribuindo na educação, que eu acho primordial. Só através da educação que a gente consegue modificar essa sociedade que a gente tem, ensinando aos nossos jovens que um novo mundo é possível, que os sonhos e bandeiras que Marielle levava, e que tantas pessoas têm esperança pelas mesmas modificações, devem ser continuados e qualquer cidadão pode fazer isso, não necessariamente dentro do parlamento.

Foto: Arquivo Pessoal

Fórum – Sua história com Marielle começou quando ambas eram muito jovens. Durante essa trajetória, vocês encontraram muitos preconceitos para superar?

Monica Benício – Foram muitos os preconceitos a serem superados. A gente começou um relacionamento que, além de muito jovem, nenhuma das duas tinha experiência com outras mulheres, nenhuma das duas tinha experiência homoafetiva. Então, daí já era muito complicado. Primeiro, entender os sentimentos que a gente tinha, reconhecer que o que a gente estava sentindo uma pela outra não era só amizade, que foi nosso primeiro impulso. Depois desse entendimento, de resolver optar por viver e lutar por esse amor, vieram muitas outras coisas a serem superadas: o preconceito nas ruas, o preconceito dentro de casa com a família. Vamos lembrar que estamos falando de mais de uma década atrás, não era uma coisa simples você andar de mão dada na rua, como hoje ainda não é, mas um pouco mais respeitado e aceito. E de um lugar que a gente está falando que era a favela. Eram duas mulheres que não têm o estereótipo do masculino e éramos muito hostilizadas, porque a gente ouvia comentários, do tipo que a gente só era sapatão porque não tinha conhecido um homem de verdade. Isso para falar nos termos mais educados que eu consigo encontrar nesse momento. E, para além disso tudo, dentro do universo da favela e também no campo da cidade, em relação ao índice de violência que temos hoje, o Brasil é um dos países que mais mata a população LGBT. A gente sofria também o risco do estupro corretivo, que era onde os homens julgavam que se mostrassem para a gente qual era o prazer do masculino a gente deixaria de ser lésbica. Foram inúmeras as barreiras a serem superadas, foram inúmeros os preconceitos dentro de casa, fora de casa, foi uma luta muito difícil e muito árdua para poder viver esse amor, mas que nem por isso deixou de ser a linda história de amor que foi e que para mim é e será.

Fórum – Como você está trabalhando a questão do luto na sua cabeça?

Monica Benício – Nesse momento, não existe tempo nem condições de lidar com o luto. O luto tem virado luta, uma luta constante para que a gente não perca o foco das investigações da Marielle, porque a gente precisa da resposta do que aconteceu. Isso não me trará ela de volta, mas é fundamental que a gente chegue à conclusão dessa história. Hoje, existem para mim duas Marielles. A que a gente grita nas manifestações, que ela vive, e a Marielle da qual eu tenho que me deparar com a ausência, quando chego em casa à noite e percebo que a minha mulher não vai mais voltar. Esse luto da perda da minha companheira, infelizmente, ainda não tive condições de fazer. Tenho trabalhado e tentado elaborar melhor essas questões na terapia, tenho tido apoio de muitos amigos, de toda a equipe que trabalhava com a Marielle, que tem me dado um suporte fundamental nesse momento. Mas o luto de viúva ainda não foi feito e sequer compreendido que deve existir, porque esse tempo de um mês me atravessou, eu não percebi. Fui informada de que já fazia um mês do falecimento dela. Eu ainda espero diariamente ela voltar para casa. Então, objetivamente, eu acho que eu não estou lidando com esse luto ainda.

Fórum – Dentro de você, qual o sentimento que predomina neste momento: indignação ou dor?

Monica Benício – De maneira inevitável, os dois. Mas existe um terceiro também, que é um sentimento de orgulho. Eu sabia da seriedade do trabalho da minha esposa, eu sabia do comprometimento dela, em querer fazer o melhor trabalho possível. E hoje vejo que essa execução, esse crime brutal cometido contra ela, serviu para o mundo olhar para as bandeiras que ela levantava e se identificar com as pautas dos direitos humanos, se sensibilizar. Isso é muito gratificante, porque eu tenho certeza que ela também estaria muito feliz em ver toda essa comoção de solidariedade. Claro que há muita indignação. Claro que há muita dor, essa é incalculável. Mas a gente não pode se deixar abater por esses sentimentos que geram na gente raiva, frustração, porque isso seria contra os princípios de luta dos direitos humanos e os direitos pelos quais a Marielle lutava e acreditava. A política da Marielle sempre foi feita com afeto, sempre foi feita com amor. Eu acho que as manifestações que acontecem nesse momento são manifestações de afeto, de amor, que levam, sim, indignação e dor no peito, mas, sobretudo, por acreditarem que pode vir um mundo melhor, pois foi o assassinato brutal de uma pessoa que lutava e acreditava em um mundo melhor. Então, não vai ser com raiva, não vai ser com ódio que a gente vai conseguir combater ou modificar a sociedade que a gente tem hoje e muito menos honrar a memória da Marielle. Ambos os sentimentos de indignação e dor existem, mas também existe o de orgulho de ver que o trabalho dela ainda está em curso e ainda está em movimento, porque esses sentimentos de afeto e solidariedade são muito maiores do que a dor que nos une agora.

Foto: Acervo Pessoal

Fórum – Se tivesse oportunidade, o que diria hoje para Marielle?

Monica Benício – Como eu disse antes, existem hoje para mim duas Marielles. A Marielle que a gente reivindica nas manifestações e grita que vive e que grita que está presente, e a Marielle minha esposa, brutalmente assassinada. À Marielle vereadora, eu diria: ‘Parabéns, meu amor. Você fez um lindo mandato’. O que ela queria este ano era terminar o mandato de vereadora, isso infelizmente não foi possível. Mas acho que o desejo e o sonho do trabalho dela ainda estão em curso, estão sendo cumpridos. Então, a essa Marielle eu diria ‘Parabéns pelo lindo trabalho que fez e que não vai acabar com a resposta dessas investigações. Essa Marielle se tornou muito maior do que ela pôde sonhar que seria. À Marielle minha esposa, eu diria o que já disse muitas outras vezes ao longo dos 13 anos de relacionamento que tivemos, que ela é e sempre será o amor da minha vida, e que ninguém nunca a amou, ama ou vai amar como eu.