Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

01 de setembro de 2014, 10h23

Exposição de fotos sem autorização das vítimas, até quando?

Texto de Thaís Campolina

Várias famosas tiveram sua privacidade violada ontem (31/08/2014) quando hackers invadiram suas contas no iCloud e disponibilizaram, sem o consentimento delas, fotos em que elas estavam nuas.

 
Assim como ocorrem com desconhecidas ao serem expostas, a caça às bruxas logo começou: condenavam as famosas por terem se fotografado nuas, culpando-as pelo ocorrido e assim afastando a culpa de quem roubou as fotos e as divulgou. E ao mesmo tempo, as pessoas buscavam as fotos incessantemente, pediam links e divulgavam entre si. Comentários jocosos ou mesmo elogiosos surgiam sobre os corpos das vítimas.
 

Sendo elas famosas, a culpabilização da vítima também teve o viés de “elas queriam a exposição para aumentar a fama” e a busca pelas fotos para muitos se justificava no simples fato delas serem pessoas públicas. Para alguns, se elas são famosas, elas devem ter seu direito à privacidade mitigado para que assim todos possam julgá-las e avaliá-las, acompanhar cada pedaço de suas vidas e alimentar ainda mais a sociedade do espetáculo. Achar as vítimas bonitas não é justificativa para alimentar a exposição. A beleza delas não serve à você e à sua sexualidade.

“O termo “caiu na net”, cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém.”

 
O corpo das mulheres é visto como público em nossa sociedade, sendo elas celebridades, a banalização da exposição da privacidade delas aconteceu com ainda mais naturalidade. Até mesmos alguns que diziam #JenniferLawrenceWeSupportYou buscavam as fotos, comentavam o corpo dela, ignorando que esse clique da busca pela imagem é uma forma de compactuar com a continuidade desse tipo de crime. Mesmo que as fotos já estejam circulando na internet, ao buscá-las e compartilhá-las você contribui para que essas exposições continuem acontecendo dando o click e age de forma insensível com as vítimas, visto que elas não consentiram que você tivesse acesso ao arquivo.
Vazar fotos íntimas de pessoas sem a autorização delas é um crime que atinge principalmente mulheres por causa do machismo e da misoginia. A constante objetificação dos corpos designados como femininos, a visão de que eles são públicos e a condenação da sexualidade feminina são os porquês dessas imagens causarem tanto furor, julgamento e culpabilização. Anônimas, ao terem sua intimidade exposta, são atacadas de xingamentos carregados de misoginia, como “vadia” e tem seus corpos avaliados de forma cruel.  Muitas vezes perdem seus empregos, o apoio da família e dos amigos e algumas até suicidam, após tamanha perseguição e por causa das consequências da exposição em suas vidas.Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição.

“Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos.”

Bons links: 

“This is why you shouldn’t click on thenaked photos of Jennifer Lawrence”

“Tua intimidade nos pertence” – Lugar de Mulher

Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você