Cinegnose

por Wilson Ferreira

04 de outubro de 2017, 17h01

“Fact-Checking” é o jornalismo “hipster” que a mídia corporativa adora

A primeira coisa que chama a atenção é que a necessidade de verificação de notícias é justificada por essas agências pelo crescimento da Internet e redes sociais e a “perda dos filtros dos guardiões detentores das notícias” da grande mídia. Ou seja, o pressuposto do fact-checking é corrigir um suposto efeito danoso das mídias alternativas. 

Depois que foi imputada a culpa do surgimento das fake News à campanha eleitoral de Donald Trump e à expansão das redes sociais e mídias alternativas, agora a grande mídia se assanha com o “hip” das chamadas “agências de verificação ou checagem de notícias” – “fact-checking”. Além de estratégia de salvaguardar a notícia como produto que promete a objetividade e isenção e encobrir o fato de que as fake news surgiram no jornalismo de guerra da mídia corporativa, a ferramenta “fact-checking” acirra o processo tautista do próprio Jornalismo atual: metalinguístico, auto-referencial, tautológico e auto-indulgente. Se a notícia é mais um commoditie, as fake News são resultantes da própria contradição da notícias como mercadoria no seu ciclo natural, dentro do Capitalismo, de precarização e busca de diferencial ou “selo de qualidade” que promova a mercadoria jornalística. O frisson em torno da ferramenta “fact-checking” é o sintoma de um jornalismo “hipster”, análogo ao “yuppismo cultural” do jornalismo modelo Folha dos anos 80-90.

No final dos anos 1970 a professora e pesquisadora da ECA/USP Cremilda Medina vaticinava que a notícia era mais um produto à venda no mercado no livro clássico Notícia, um Produto à Venda, Summus, 1978. 

Logo depois, em 1984, o jornal Folha de São Paulo lançava o seu “Projeto Folha” cujo mote era o “apartidarismo, pluralismo e profissionalismo”, objetivando administrar uma redação jornalística como uma empresa industrial moderna. Um projeto que se apresentava com “independência editorial” no qual a única preocupação era “prestar contas ao leitor” – segundo o Projeto, um “grupo heterogêneo constituído”.

Se a notícia era mais um produto à venda, então o leitor passou a ser considerado uma questão de marketing cujo manual de redação era regido pelos os famosos “quatro Ps” do Marketing: preço, produto, promoção e ponto de venda.

Com o clima de “fim da História” e a vitória da Globalização nos anos 1990, o Projeto seguiu glorioso – parecia mais interessado em falar de si mesmo do que do mundo exterior: cadernos especiais sobre as mudanças gráficas para explicar ao leitor cada centímetro por coluna, ombudsman, comentaristas baseados não em fatos, mas nos números do instituto Datafolha do próprio grupo jornalístico etc.

Tudo ia bem até entrar no século XXI, trazendo a ameaça das novas tecnologias irruptivas (Internet e dispositivos móveis) e os governos lulopetistas. 

Então a Folha, assim como o restante da mídia corporativa, mandaram à favas o suposto apartidarismo e profissionalismo e partiram para o jornalismo de guerra – a falsa ficha criminal da então presidenta Dilma e a primeira página da Folha que previa 35 milhões de vítimas da gripe suína no Brasil foram exemplos emblemáticos de “fake news” na guerra aberta na qual a grande mídia assumiu o papel de partido de oposição.

O ciclo básico da mercadoria

Se a notícia é mesmo mais um produto à venda, então seguiu-se o ciclo básico da evolução das mercadorias no Capitalismo: de produto artesanal passa para a industrialização em massa que, sob a pressão da relação custo-benefício, é artificializado e precarizado (o transgênico, o fast-food, a obsolescência planejada etc.). No caso do jornalismo, as notícias são precarizadas pela fake news, trash news e os “fait divers”.

Em seguida, para agregar valor e buscar diferencial num mercado saturado, o retorno como farsa ao artesanal: o “orgânico”, o “sustentável”, o “consumo consciente”, o “saudável” etc. Mas nunca essa busca do “produto correto” transforma-se em políticas públicas. 

Fazendo um paralelo, a comida “orgânica e saudável” apresentada pela “cozinha prática” de Rita Lobo e Bela Gil na TV fechada jamais chegará a políticas publicas massivas. Afinal, se tudo isso fosse democratizado, perderia o valor diferencial de mercado.

Da mesma maneira, depois de muita notícia “transgênica” (a desesperada tentativa de conciliar o jornalismo de guerra e a notícia como produto à venda), agora o jornalismo procura o seu valor agregado ou selo de qualidade “artesanal” com o surgimento das chamadas agências de verificação de notícias – fact-cheking, a suposta ferramenta para combater notícias falsas.

No Brasil a Agência Lupa, a primeira especializada em fact-cheking do Brasil lançada em 2015, tendo grande mídia por trás como Folha, Revista Piauí e parcerias com Globo News (como o “Festival Piauí Globo News de Jornalismo”), surge sintomaticamente após o período agudo do jornalismo de guerra que acabou culminando com o impeachment de 2016.

 

 

A primeira coisa que chama a atenção é que a necessidade de verificação de notícias é justificada por essas agências pelo crescimento da Internet e redes sociais e a “perda dos filtros dos guardiões detentores das notícias” da grande mídia. Ou seja, o pressuposto do fact-checking é corrigir um suposto efeito danoso das mídias alternativas. 

Viram às costas para o fato de que as “fake news” surgiram na grande mídia em decorrência da contradição interna do ciclo da mercantilização do próprio produto notícia no Capitalismo.

Selo de qualidade do fact-checking

Em outros termos, essas agências querem: (a) metalinguisticamente salvaguardar um suposto valor de uso da informação – a transitividade entre as palavras e as coisas, entre o signo e a realidade, entre Jornalismo e fatos; (b) agregar valor como um selo de qualidade à mídia que divulga “notícias verdadeiras” – o selo de qualidade (“exagero”, “insustentável”, “verdade” etc.) para o, digamos assim, jornalismo sustentável e orgânico… 

E os novos jornalistas hipsters (a versão atual do yuppismo cultural da Folha dos anos 80-90) seriam como as Rita Lobos e as Bela Gil do jornalismo artesanal… desculpem, não resisti à analogia.

O hip atual em torno do fact-checking como ferramenta de controle de qualidade da informação é mais um retrocesso dentro do zeitgeist atual de retrocessos em série – cultural, filosófico e científico: terra plana, patrulhamento moral e de gênero de exposições de arte, o retorno da antropologia criminal de Lombroso e Eugenia sob a roupagem high tech dos algoritmos e Inteligência Artificial entre outras que ressuscitam o bestiário conservador do século XIX – sobre isso clique aqui.

E nas agências de verificação, mais uma vez o Jornalismo abandonando o deserto do real para fechar-se em si mesmo de maneira tautista – metalinguística, auto-referencial, tautológica e auto-indulgente.

Se não, vejamos:

1. Por que o “hip”  em torno do fact-checking?

Checagem da informações é o pressuposto básico da prática do jornalismo. As próprias agências de fact-cheking assumem isso. Então, por que todo o estardalhaço atual sobre a cobrança de um preceito tão básico da profissão? Em primeiro lugar, para deslegitimar redes sociais e mídias alternativas, o lócus de ameaçadora resistência às fake news editadas pela grande mídia.

E segundo, para escamotear a própria contradição da notícias como produto à venda e seu ciclo natural, dentro do Capitalismo, de precarização e busca de diferenciais imaginários dentro do mercado jornalístico.

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