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26 de novembro de 2013, 19h59

Falta de opção de vida é doença mortal para meninas

Nós temos concurso de mulher para sambar pelada na televisão em programa de domingo, mas a menina pode ser levada ao suicídio se mostrar um peito e essa foto for parar na internet

Nós temos concurso de mulher para sambar pelada na televisão em programa de domingo, mas a menina pode ser levada ao suicídio se mostrar um peito e essa foto for parar na internet

Por Madeleine Lacsko, do Blogueiras Feministas

(Foto: Concurso de fantasias da marca Glodie Blox)

Estamos matando nossas meninas. Acredito ser a tradução desse nó na garganta que eu sinto, creio que muitos sentem, e que o Lino Bocchini conseguiu colocar com clareza em palavras no artigo: Quem é culpado pelo suicídio da garota de Veranópolis? É uma reflexão sincera sobre dois suicídios de meninas que não aguentaram a humilhação sofrida após terem vídeos íntimos vazados na internet.

Talvez os comentários de alguns leitores embrulhem o estômago tanto quanto os fatos. Tenho só sentimentos fortes e poucas palavras claras quando constato a canalhice em ação, principalmente nesses casos que interrompem vidas no começo. O texto tem palavras e uma linha de raciocínio coerente dissecando a distância entre o que a nossa sociedade exige das mulheres e meninas e o possível para um ser humano.

Nós temos concurso de mulher para sambar pelada na televisão em programa de domingo, mas a menina pode ser levada ao suicídio se mostrar um peito e essa foto for parar na internet. As bundas ornamentando os balés dos programas do auditório miram agradar o mesmo público que oprime mães que amamentam em público. Não somos campeões apenas em hipocrisia, somos também em falta de opção.

Afinal, o que exatamente se valoriza em uma mulher? Somos — e eu me incluo — craques em pegar situações fragmentadas e apontar o problema: a opressão. Às vezes somos craques também em apontar soluções para aquela situação específica. A vida vem em detalhes, vem aos goles, mas pensamos nela como um oceano inteiro e é aí que está o ponto em que poderíamos dar mais foco.

Algumas pessoas entendem o Feminismo ou a busca da igualdade como um simples assassinato do feminino. E, enquanto isso, os exemplos do desejável que estão aí para as nossas meninas e meninos são também amostras do impossível. O modelo de mulher na televisão é pelada e gostosa mas, socialmente, tem de ser ao mesmo tempo casta. Ser bem sucedida tem que ser algo combinado com submissão a um sistema onde o feminino é sempre intruso. Ou seja, não há saída.

A questão é que trabalhamos pouco as opções, principalmente para as gerações futuras, que vão viver lutas e dilemas diferentes dos nossos. São caminhos diferentes, escolhas diferentes, que talvez a gente não aborde porque nem imagine. As mulheres da minha geração vivem vidas que não foram traçadas para nós, como intrusas em um mundo que originalmente tinha as portas fechadas.

Vivemos um caminho pavimentado pela coragem de gerações anteriores que resultou na realização de opções que originalmente não existiam, seja no campo profissional ou no pessoal. Convivemos com homens surpreendidos por um mundo muito diferente daquele das histórias que lhes foram contadas na infância. Mas as meninas e meninos de hoje estão prontos para escrever uma história nova.

A questão dos brinquedos é, para mim, recorrente. Seja pelo kichute e pelo skate que me foram negados na infância ou pela dificuldade de encontrar os brinquedos que meu filho pede e não estão na categoria transporte, construção ou material de guerra. Por isso, eu fiquei tão feliz quando vi uma novidade nessa área celebrada por um site de engenharia: a linha de brinquedos para meninas engenheiras. No mundo, 89% das pessoas formadas em engenharia são homens. Uma das razões pode ser facilmente comprovada com uma visita a qualquer loja de brinquedos, as meninas não são inspiradas a fazer parte desse universo.

Uma engenheira formada em Stanford e que só optou pelo curso por insistência de um professor, já que jamais havia considerado essa possibilidade, resolveu usar a porta que abriu para fazer passar outras meninas. Ela criou uma linha de brinquedos chamada Goldie Blox, dedicada a futuras engenheiras e inventoras.

vídeo que promove a empresa se tornou um viral, com mais de 8 milhões de visualizações na primeira semana. Dessa vez, veio da internet a mudança, o avanço que fez o tema entrar nos veículos de imprensa mais importantes dos Estados Unidos, incluindo o tradicional Good Morning America, da rede ABC.

A existência da linha de brinquedos traz a reboque consequências animadoras, como a discussão social sobre as opções que estamos dando às nossas meninas e a nova proposta de interação entre as crianças. É uma tentativa de sair daquele universo que eu vivi onde todos os brinquedos de meninas são igualmente tediosos e só se faz uma brincadeira legal quando os meninos admitem que elas entrem naquele universo infantil masculino.

Se as meninas também tem brinquedos legais e que serão certamente desejados pelos meninos, entram em pé de igualdade no mundo da brincadeira. É uma forma de promover na prática essa vivência, mesmo que os pais ainda não tenham descoberto como fazer isso nas próprias vidas. Vivemos uma sociedade em que a mulher é uma intrusa e qualquer ação pode virar um deslize e motivo de execração pública. Os brinquedos para engenheiras tratam de dar opções, de fazer enxergar a menina como ser humano, exatamente o que falta nesses casos que pularam da tela do computador para a tragédia.

Claro que um brinquedo não resolve séculos de opressão e a luta diária pela igualdade continua necessária e importante. Mas a ideia da engenheira de pavimentar o caminho para que outras meninas cheguem mais facilmente onde ela chegou tem toda a minha simpatia. Todos os dias arrombamos portas e quebramos correntes. Creio que tem a mesma importância sinalizar a quem ainda está no começo da estrada como passar pelos caminhos que já foram abertos.