Imprensa livre e independente
01 de maio de 2014, 14h32

Farc negam participação no narcotráfico e defendem debate global sobre drogas

“Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, pondera Andrés París, um dos negociadores da organização com o governo colombiano

“Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, pondera Andrés París, um dos negociadores da organização com o governo colombiano Por Leandra Felipe*, da Agência Brasil/EBC As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) rejeitam as acusações de envolvimento direto na cadeia produtiva do narcotráfico, como afirmou um relatório sobre terrorismo divulgado ontem (30) pelo Departamento de Estado do governo americano, e defendem que o problema só será resolvido “se os grandes países consumidores...
“Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, pondera Andrés París, um dos negociadores da organização com o governo colombiano
Por Leandra Felipe*, da Agência Brasil/EBC

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) rejeitam as acusações de envolvimento direto na cadeia produtiva do narcotráfico, como afirmou um relatório sobre terrorismo divulgado ontem (30) pelo Departamento de Estado do governo americano, e defendem que o problema só será resolvido “se os grandes países consumidores assumirem responsabilidades”.

A guerrilha, que negocia a paz com o governo e discute uma solução para o problema das drogas no país, nega que tenha participação direta no plantio, na produção e no tráfico de drogas, como a cocaína, a maconha e a heroína. “A única coisa que fazemos é cobrar um imposto aos grandes capitais que circulam nas regiões em que atuamos”, diz.

Embora não tenha respondido aos Estados Unidos após a divulgação do relatório dessa quarta-feira, as Farc afirmaram em diversas ocasiões que tais acusações são infundadas.

“O pecado que as Farc cometem é viver em áreas de cultivos ilícitos e compartilhar estas zonas com camponeses”, disse Fidel Rondón, um dos representantes da guerrilha em Havana, Cuba, durante uma entrevista coletiva realizada na capital cubana, na 3ª Assembleia Geral da União das Agências de Notícias Latino-Americanas, a ULAN, que contou com a presença da Agência Brasil, entre os dias 21 e 22 de abril.

Veja também:  Desembargadora vira ré no STJ por injúria a Jean Wyllys

Andrés París, um dos negociadores das Farc com o governo colombiano, disse que o imposto cobrado, as chamadas vacunas, não estabelecem uma política de colaboração com as máfias do narcotráfico. “Fazemos isso desde o começo, para nosso financiamento, e de tal maneira que só permitimos a permanência destes capitais nas regiões em que estamos mediante o pagamento deste imposto”, explicou

A cobrança dos “impostos” é uma exigência feita pela guerrilha a empresas mineradoras, energéticas e petroleiras nacionais e internacionais que atuam no país, em áreas onde as Farc permanecem. Entretanto, no tema do narcotráfico, as Farc sustentam a versão de que a prática da cobrança do imposto é a única relação com a cadeia produtiva de drogas – versão contestada pelo governo colombiano e por aliados, como o governo americano.

No relatório, os Estados Unidos afirmam que a guerrilha colombiana é a principal responsável por atos terroristas e que há provas documentadas da participação da guerrilha na cadeia do narcotráfico – no plantio de coca e de maconha, na produção e no tráfico de drogas.

Em busca da paz, o governo e as Farc conversam sobre o tema na mesa de negociações e esperam fechar um acordo parcial em breve. Na entrevista coletiva, as Farc falaram do impasse enfrentado na negociação com o governo sobre as soluções para o problema das drogas ilícitas.

Ainda que não admita envolvimento direto no narcotráfico, a guerrilha reconhece que o fenômeno é uma realidade no país, que permeia as relações políticas, militares, sociais e econômicas colombianas.

Veja também:  Acesso a dados sigilosos de estudantes estaria por trás de demissão no Inep: "É crime", diz Haddad

Neste ponto, as Farc divergem do pensamento do governo de Juan Manuel Santos. “Para nós, o narcotráfico só será resolvido quando todos os países, mundialmente, dialogarem e buscarem uma solução comum. Só quando os países poderosos assumirem suas responsabilidades”, destacou Páris.

O governo por sua vez, defende que a mesa negociadora trate do problema internamente, já que o tema depende internacionalmente do envolvimento de outros países e da definição coletiva de novos parâmetros.

As Farc reconhecem que não conseguirão “resolver um problema global” na mesa, em Havana. “Sabemos que não é possível, mas queremos chamar a atenção para que os países se envolvam, além de lembrar que o império das drogas não sobreviveria sem apoio de capitais e setores do poder mundial”, frisou Rondón.

A guerrilha confirmou que já tem um acordo sobre os cultivos, e que espera que a mesa aprove uma proposta que libere o cultivo para fins medicinais, além de uma abordagem do consumo dentro de uma perspectiva de saúde pública.

Veja também:  “Vamos educar o Bolsonaro”, diz Haddad, em manifestação na Paulista. VÍDEO

Mas para a solução verdadeira, as Farc dizem que é preciso chamar atenção para o “ponto final” da cadeia produtiva. “Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, ponderou París.

Para as Farc, o principal responsável pelo narcotráfico são os Estados Unidos. “Para transformar coca em cocaína são necessários componentes químicos e todos vêm dos Estados Unidos. Vamos ver se eles [americanos] estão dispostos a firmar uma declaração que comprometa as partes a tratar deste tema”, ponderou.

O processo de paz entre o governo e a Colômbia começou em novembro de 2012 e, para ser concluído, a mesa negociadora deve chegar a um consenso sobre o tema das drogas e avaliar ainda três assuntos: a reparação das vítimas do conflito armado, a desmobilização e a reintegração de guerrilheiros e as  garantias para cumprimento de acordos no pós-conflito.

*Colaborou Lana Cristina 

Fórum em Brasília, apoie a Sucursal

Fórum tem investido cada dia mais em jornalismo. Neste ano inauguramos uma Sucursal em Brasília para cobrir de perto o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Clique no link abaixo e faça a sua doação.

Apoie a Fórum