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09 de Março de 2018, 17h49

Fascistização de Israel no século XXI – 70 anos da “Catástrofe” palestina

Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre a questão palestino-israelense – conflito que se consolida como um dos mais brutais genocídios da contemporaneidade. Com este texto, inauguramos essa nova coluna na Revista Fórum, que mensalmente trará análises políticas e socioeconômicas internacionais, dentre outros temas que permitam compreender a crise estrutural do capitalismo em que se afunda o mundo moderno.

A ampliação das colônias israelenses confronta resolução do Conselho de Segurança da ONU, de dezembro de 2016, na qual se afirma a ilegalidade dos novos assentamentos de judeus nos territórios palestinos invadidos – Foto: Banco Mundial/Natália Cieslik/Arquivo

Em 1948, as potências vencedoras da Segunda Guerra, mediante o nome da ONU, promovem a criação do Estado de Israel – em território historicamente palestino, e suficientemente distante da Europa. A data, conhecida em árabe como “Nakba” (“Catástrofe”), rememora a dor do exílio forçado de mais de 700 mil árabes, e a destruição de cerca de 500 povoados.

Segundo estimativa da ONU, este foi um período de grave tragédia humanitária, em que 85% da população palestina foi expulsa de suas terras – contabilizando-se, hoje, mais de 6 milhões os refugiados e seus descendentes. Informações da Addameer – organização de apoio a prisioneiros palestinos e vítimas de tortura – acusam ainda o incrível montante de 800 mil palestinos encarcerados desde 1967, dos quais 75 foram mortos após serem submetidos a sessões de tortura.

Sete décadas depois, a situação se transformou em um “apartheid” social escancarado, configurando-se hoje em uma das maiores tragédias da história moderna, nesse seu capítulo predador, capitalista e eurocêntrico, dos últimos séculos.

De acordo com o relato apresentado agora em fevereiro pelo enviado da ONU para o Oriente Médio, o búlgaro Nikolay Mladenov, a situação humanitária na pequenina Faixa de Gaza é “catastrófica”, padecendo o território de diversos problemas graves, frutos da ocupação ilegal e dos bombardeios sistemáticos executados pelo país invasor para manter seu domínio: desabastecimento de água potável (95% da água encanada segundo a Organização Mundial de Saúde é imprópria para o consumo); fechamento de hospitais e falta de médicos; taxa de desemprego das mais altas do mundo, na casa de 47% (dos 2 milhões de habitantes), sendo que dentre os jovens atinge fantásticos 60% de desocupados.

Além disto, recente reportagem do Mediapart mostra que cerca de 4 entre 5 palestinos de Gaza somente sobrevive graças à “ajuda humanitária exterior” (eufemismo para “dominação externa por meio de discurso filantrópico”); e que o fornecimento de eletricidade é de apenas 4 horas por dia. Tal cenário, fez com que os próprios responsáveis por organismo de segurança de Israel, declarassem há um mês que Gaza está “no limite da completa desestruturação”.

Mas vejamos como toda esta desgraça se consolidou.

De “conflito” árabe-judeu a “massacre” palestino por Israel

Ideia apoiada inicialmente pela União Soviética, que ao lado dos Estados Unidos acabou sendo sua fiadora, esse projeto, que previa a criação de dois Estados na região (um árabe e um judeu), não tardaria a mostrar sua face desigual e desumana.

Ocorre que em 1947 a tensão na região encontrava-se em estado crítico. Neste tempo, a Palestina estava ainda sob o jugo do colonialismo inglês, que a dominava desde os anos 1920. Os judeus, recém-massacrados pelos europeus, ansiavam um Estado para si, e aumentavam o tom dos protestos. A Europa, porém, se recusava a albergar em seu território essa nova nação, acenando apenas para a possibilidade de instalá-la lá distante, na colônia palestina de maioria árabe – donde os judeus haviam sido expulsos há dois mil anos, pelos romanos (meados do primeiro século de Nossa Era). A proposta logicamente instigou a revolta também dos palestinos, povo então amplamente majoritário, que habita a região desde tempos igualmente imemoriais.

Desde logo, a partilha da Palestina começa mal: 53% do território é destinado ao minoritário Estado judeu (com 1/3 da população), e somente 47% aos palestinos (que eram o dobro de habitantes) – proporção que somente pioraria com as sucessivas invasões da Palestina por Israel, a ponto de restar hoje, sob controle palestino, apenas 12% da Palestina histórica.

Neste quebra-cabeças geopolítico do imediato pós-Guerra, a vitoriosa URSS, ainda comandada por Stalin, no intuito de diminuir o poderio imperial inglês no Oriente Médio, e na esperança de conseguir criar nesta zona estratégica mais um Estado socialista seu aliado, apoia o pleito judeu. Dentre os principais motivos que levou a essa decisão, vale mencionar os estreitos laços que uniram as monarquias e oligarquias de países árabes com o Ocidente capitalista após a dissolução do Império Turco-Otomano (conflito que iniciara essa aliança); por outro lado, os ares libertários da Revolução Soviética tinham tido forte apoio de judeus russos, em reação ao antissemitismo czarista (com a vitória bolchevique, pela primeira vez em séculos os judeus eslavos puderam viver sem serem segregados).

Em 1948, EUA e URSS dão o aval para o surgimento do Estado de Israel – o qual, em seus primórdios, posta-se na posição mais confortável, equilibrando-se entre a influência soviética (que lhe cede armas, contra o capitalismo árabe pró-ocidental), e a do poderoso Ocidente (em especial os EUA, grandes vencedores da Guerra fora de seu território, conflito do qual emerge como superpotência). Desse modo, a maioria de seus partidos de então se inclina para a experimentação do chamado “socialismo sionista” – espécie de “centrismo” que, como tal, se move escorregadio entre os dois polos da Guerra Fria, segundo uma ideologia socialdemocrata de cunho religioso, baseada no reformismo cooperativista (que teve no kibutz seu emblema).

Cabe frisar que o controverso termo “sionismo” serve, de maneira geral, para designar a ideologia político-religiosa fundada no “sentimento nacional” judaico – doutrina etnocêntrica que prega a “supremacia racial” do judeu – um “povo escolhido” pelo seu deus, que a ele lhe ofertou determinada terra sagrada (a mesma terra, aliás, ofertada aos seus respectivos devotos, pelos deuses cristão e muçulmano).

Isto posto, há que se atentar à contradição dos termos “socialismo” e “sionismo”. Com efeito, apesar de seu aparente “discurso pacifista”, esta inicial centro-esquerda, moderada e sionista, acabaria “contribuindo” para o “extermínio palestino” – como afirma o israelense especialista em Relações Internacionais, Shajar Goldwaser (no Opera Mundi). Por trás da centrista defesa do “diálogo” e da solução dos “Dois Estados”, oculta-se “a perpetuação de um sistema de discriminação e segregação racial”, em que “os judeus sempre serão a fonte da democracia e da racionalidade e os palestinos serão os terroristas”; a centro-esquerda sionista foi portanto “responsável pela criação de Israel e pela forma com que este Estado se configurou e se configura até hoje”, utilizando-se da força de seu “discurso” para “tentar preservar uma supremacia racial judaica”, mesmo que para tanto tivesse que abdicar de parte da “Terra de Israel”. Por exemplo, observa o pesquisador, os próprios kibutzim (comunidades agrícolas “coletivistas” e “igualitárias” que foram a marca do trabalhismo judeu) eram racistas: “não admitiam membros palestinos”.

Porém, esta tendência ao equilíbrio, na década seguinte já penderia para o lado das potências centrais do capitalismo, tanto por fatores diplomático-políticos (a recusa soviética de permitir a imigração de cidadãos de origem judia – com boa formação técnica e cultural – para Israel), como econômicos (o investimento maciço que os bilionários judeus-estadunidenses dirigem ao novo país), e militares (o interesse Ocidental em manter um posto avançado no Oriente Médio, motivo pelo qual a França fomenta a construção de reator nuclear israelense em meados dos anos 1950, passo para que Israel obtivesse sua bomba atômica no fim dos 1960, auxiliado também pela Inglaterra).

Apesar de sua nova inclinação mais conservadora dos anos 1950, as correntes “trabalhistas” (Mapai, depois Partido Trabalhista) dominariam a cena política israelense até meados da década de 1970, quando a crise internacional capitalista, derivada da alta do preço do petróleo, faz com que uma onda de imigrantes aportem nesse pequeno território, dando espaço – como toda crise capitalista – a uma crescente vaga de ódio e xenofobia, palco para a ascensão da direita liberal-sionista: a ala ortodoxa do judaísmo, defensora do “livre-mercado” (ou em linguagem clara, da desregulamentação irracional do comércio mundial, de modo a favorecer os mais fortes).

É neste processo retrógrado que, em 1977 o conservador partido Likud (de Ariel Sharon, genocida mais tarde processado na Europa por crimes de guerra) – sobe ao poder. Desde então, Israel se tornaria o que é hoje: uma importante parte do projeto imperialista ocidental que, com o controle desse país, logra estabelecer no Oriente Próximo um enclave estratégico para melhor se apropriar do abundante ouro negro local.

Enquanto isso, por seu lado, a história palestina vem sendo a narrativa de massacres sistemáticos por parte dos governos sionistas, os quais, nos últimos tempos neoliberais, mostram-se cada vez mais abertamente racistas e impiedosos, promovendo recorrentes atos de genocídio, incluindo o uso confesso de fósforo branco (arma química proibida pelas leis internacionais de guerra – vide a respeito meu artigo “A demografia e o terror”, no portal Vermelho).

Tal violência estatal se dirige contra uma população armada de paus e pedras, pobre e trancafiada em uma espécie de campo de concentração – zonas cercadas por altos muros e soldados fortemente armados pelo grande-irmão financeiro, que chegam ao cúmulo de restringir a entrada de itens básicos (de remédios e água potável até profissionais de saúde) –, a despeito da memória do sofrimento similar pelo qual passaram seus próprios antepassados há pouco mais de meio século.

A título de exemplo, comparemos a desproporção de forças que mostram os números do último bombardeio massivo de Gaza, em 2008 e 2009, barbárie motivada pela campanha eleitoral israelense, na qual candidatos direitistas buscavam o apoio dos votos desesperados “pela segurança pública” (algo como o Brasil militarizado de Temer): para cada soldado israelense morto em ofício, foram assassinados 100 palestinos (entre civis e milicianos mal armados, pois a Palestina não dispõe de exército); ademais, dois terços das quase 1.300 vítimas palestinas eram civis, e a maioria, crianças! De acordo com o professor Emir Sader (UERJ), esta matança “foi uma das piores que o mundo conheceu nos últimos tempos”.

Contradição judaica: a fascistização acentuada da última década

O episódio não destoa da feição da nova realidade nacional: desde a crise econômica de 2008, o conservadorismo do Estado judeu vem se agravando – de modo que o resultado é hoje uma crescente fascistização da sociedade israelense, e não só de seus governos, mas também da opinião pública (veja-se o caso marcante da “selfie” tirada por judeu, tendo por cenário a suas costas um bombardeio de vilarejo em Gaza).

De acordo com Michel Warschawski, coordenador do Centro de Informação Alternativa – organização que agrupa socialistas e comunistas judeus e palestinos –, em entrevista ao portal espanhol “Viento Sur”, a “fascistização” de Israel tem raízes na “campanha de ódio e deslegitimação que precedeu ao assassinato de Yitzhak Rabin” (morto em 1995 por um fundamentalista israelita, opositor dos Acordos de Paz de Oslo, negociados pelo então premiê): “Os assassinos do primeiro-ministro tomaram o poder e seguem de fato no poder desde então – inclusive no período de Ehud Barack” – (1999-2001), candidato trabalhista que se desviou para uma “política de extrema-direita”, aliando-se com o criminoso de guerra Ariel Sharon.

O clímax desse processo, diz o analista, é que desde há alguns anos Israel vive um regime de tipo fascista – “fascismo” que pode ser percebido em diversos aspectos de sua sociedade, por exemplo: o “racismo” ascendeu, “tanto no discurso político, como nas ruas, ou na legislação”, com leis “abertamente discriminatórias” contra os palestinos e a violência estatal dirigida para “aterrorizar toda palavra crítica” – e esmagando qualquer oposição. A situação é tal, que militantes pacíficos e organizações democráticas vêm sendo perseguidos por “grupelhos fascistas”, ou mesmo por parte da “gente que caminha em praça pública”.

Os motivos-chave disto: “Israel já é um dos países em que as desigualdades sociais são muito fortes (inclusive entre os próprios judeus)”; “as políticas neoliberais estão desmantelando as conquistas sociais”. Enquanto isto, no exterior, a falsa polarização midiática se dá em torno dos eixos “segurança” e “religião”, tendo “desaparecido da paisagem as questões sociais”.

Daí que, sem meias palavras, seja preciso dizer que Israel trata-se hoje de um governo de tipo fascista – ou mais precisamente fasci-sionista, dada a específica combinação de sua doutrina religiosa etnocêntrica, com a violência estatal genocida e o capitalismo autoritário (que de modo lato conformam o que se entende por “fascismo”).

Novos assentamentos judeus em territórios palestinos

Como se viu, apesar da desgraça recorrente, nos últimos anos, o panorama político de Israel piorou bastante. Em 2016, com o poder entregue à coalizão entre o partido governista Likud (“Consolidação”, direita neoliberal sionista, do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu), e o Israel Beitenu (“Israel Nossa Casa”, extrema-direita ultranacionalista e também antiárabe, liderada pelo moldavo xenófobo Avigdor Lieberman, alçado à frente do Ministério da Defesa), o Estado judeu conformou o governo “mais à direita” de sua história.

Esta notícia preocupante é ainda mais “preocupante” se constatarmos o fato de que ela não procede de meios de imprensa críticos, mas foi emitida desde o Departamento de Estado de Obama, em seu último ano à frente da presidência dos EUA – superpotência que é historicamente defensora das atrocidades israelenses.

No relatório, o órgão (Ministério de Relações Exteriores de lá) demonstra sua “inquietação” quanto às possibilidades dessa guinada conservadora da nação judia, inquietação que logicamente nada tem de “humanista”, mas consiste antes em “dúvidas legítimas” acerca do “tipo de política” – leia-se, de “problemas” e “custos” – que o atual governo sionista poderá causar à já combalida diplomacia e economia ianque.

Para se ter uma noção do peso do custo-Israel para os EUA, ainda no final da gestão Obama (a mais “opositora” dos últimos tempos, tida pelos fasci-sionistas como “antissionista”), foi firmado um pacto de ajuda militar entre ambos os países que prevê um aumento na transferência anual de 3,1 para 3,8 bilhões de dólares (até 2028) ao Estado judeu – verba especialmente destinada a operações bélicas; em troca, como de praxe, Israel deverá comprar armamentos exclusivamente estadunidenses.

O pacto firmado em tempos de algum estremecimento entre os dois países, mostra que a “crise” entre fiador e fiado não foi assim tão grave. Segundo a BBC, os EUA já remeteram a Israel um total de US$ 121 bilhões – fazendo desta nação o maior receptor de “ajuda” estadunidense depois da Segunda Guerra.

A ONU já não vale nada

 Apesar dos alertas do governo Obama, com a ascensão de Trump em 2017, os ventos mudaram – e o “avalista do terror” tem parecido mais aterrorizante que a própria desgraça. De acordo com a agência France Press, o direitista Netanyahu esperou a posse de Trump (início de 2017) para evitar obstáculos diante de seus planos de construção de cerca de 600 residências para judeus no leste da cidade de Jerusalém, esta “parte” da cidade sagrada que segundo a ONU é “território palestino ocupado” por Israel.

A ampliação das colônias israelenses confronta resolução do Conselho de Segurança da ONU, de dezembro de 2016, na qual se afirma a ilegalidade dos novos assentamentos de judeus nos territórios palestinos invadidos. Na ocasião, os EUA de Obama se abstiveram de vetar o documento crítico a Israel (atitude que não tinham desde 1979), motivo pelo qual o premiê judeu preferiu adiar o projeto até depois das eleições gringas – tendo ficado feliz com a recente vitória do bilionário chauvinista.

Não bastasse a violência de seu silêncio, o novo governo de Trump ainda piorou o problema, ao “reconhecer” Jerusalém como a capital de Israel, desprezando – novamente – posição de décadas das Nações Unidas, e, portanto, tratando com despeito o “resto” inócuo da comunidade internacional.

Como se sabe, ao contrário da poderosa OTAN – com seus marines, mísseis teleguiados e bombas de precisão –, a ONU é uma entidade sem força militar efetiva, o que na prática implica que suas decisões são de grandiosa e eloquente nulidade. Assim sendo, o governo fasci-sionista mais uma vez tratou com despeito a moção por direitos humanos da ONU, prosseguindo com seus “crimes”.

Com Agencia Latinoamericana de Información (alainet.org)