Cid Benjamin

03 de abril de 2019, 20h45

Fatos escabrosos no reino do “sabe com quem está falando”

Em novo artigo, Cid Benjamin diz: “O país está diante de gente que pensa ser uma família real, mas não passa de um bando de caipiras grosseiros, deslumbrados, primários e autoritários, encantados com o poder"

Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE

O Ibama demitiu semana passada o servidor José Olímpio Augusto Morelli. A razão? Em 2012, ele autuou o então deputado Jair Bolsonaro, que acabou multado em R$ 10 mil por pescar em área de preservação ambiental protegida.

No exercício de suas funções, Morelli, que era funcionário concursado, assinou o auto de infração e o relatório do flagrante de Bolsonaro. Foi também o autor da foto na qual Bolsonaro aparece num barco, de sunga, tendo ao fundo uma vara de pescar. O então deputado estava na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis (RJ), área protegida e em que não é permitida a presença de pessoas estranhas e, muito menos, a pesca.

O caso se arrastou durante sete anos sem que Bolsonaro pagasse a multa. Depois de sua posse na Presidência, resolveu se vingar do servidor e envolveu nisso o novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Este último veio publicamente em sua defesa com uma tese capaz de corar um frade de pedra. Disse que o fato de o presidente estar num barco, no mar, com varas de pescar não era evidência suficiente para a autuação.

“Ele foi multado porque estava com uma vara de pesca. O fiscal presumiu que ele estava pescando”, afirmou o ministro.

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É inacreditável. O que Bolsonaro estaria fazendo, então, com os apetrechos de pescaria? O que, na opinião do ministro, deveria o fiscal presumir?

Este foi um caso menor e pouco relevante, a não ser pelo simbolismo. É um exemplo típico de tempos não republicanos, nos quais vale a história do “sabe com quem está falando?”

Lamentavelmente, a demissão do funcionário não foi o único exemplo envolvendo o presidente e seu entorno mostrando que critérios republicanos não se aplicam a eles. Em apenas três meses de governo se multiplicaram os casos assim.

O ex-PM Queiroz – amigo, laranja, motorista, faz-tudo e sabe-se lá mais o quê de Bolsonaro – debochou do Ministério Público ao ser chamado para depor, depois de flagrado em transações econômicas suspeitas. Um cidadão comum faria isso sem ser incomodado? Pois Queiroz não foi.

Os filhos de Bolsonaro – que já fizeram jus ao epíteto de Três Patetas – pintam e bordam no governo do papai, sem que tenham qualquer cargo nele e sem serem desautorizados.

A cerimônia da posse do presidente já tinha antecipado a situação. Um dos patetas, ostensivamente armado, exibindo cara de mau, sentou-se na parte de trás do Rolls Royce presidencial, como se fosse um segurança. Nunca se viu coisa igual.

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O mesmo dos patetas derrubou um ministro pela ousadia de trombar com ele. E era um ministro importante, nada menos que o secretário-geral da Presidência.

Outro filho sapecou na cabeça o boné de campanha de Trump, como se garoto-propaganda fosse, e arvorando-se a chanceler saiu a fazer articulações internacionais e a pregar a invasão militar de um país vizinho.

São tantas as situações nesse festival de idiotices que é difícil saber qual dos filhos fez o quê. Mas um dos patetas participou da primeira reunião ministerial, que, por sua natureza, deveria ter a participação vedada a quem não fizesse parte do Ministério. Não satisfeito, desandou a sacar fotos com seu aparelho celular, postando-as nas redes sociais para mostrar aos amigos como era importante. Deixou claro, com o gesto, que a segurança do Planalto não se atrevia a recolher o seu celular, a exemplo do que fez com os aparelhos de todos os ministros.

Enquanto isso, outro dos filhos (como se vê, o autor deste artigo os confunde e, sinceramente, já não sabe se está falando do pateta 01, do 02 ou do 03) usa o Twitter para agredir o presidente da Câmara e ditar regras sobre todo e qualquer assunto do governo, como se voz oficial tivesse. Não é desautorizado pelo papai. É como se fosse mais um pimpolho fazendo travessuras.

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Mas há algo mais grave. As flagrantes ligações da família Bolsonaro com as milícias – grupos criminosos da pior espécie – não são investigadas seriamente pelo outrora candidato a justiceiro Sérgio Moro. Aliás, o mesmo Moro, agora ministro, elabora um projeto de combate ao crime que não dá a menor importância a elas. Será que as notórias ligações do presidente com milicianos inibem uma ação do ministro da Justiça?

A verdade é que voltamos ao reino do “sabe com quem está falando”. O governo não funciona segundo critérios republicanos.

O país está diante de gente que pensa ser uma família real, mas não passa de um bando de caipiras grosseiros, deslumbrados, primários e autoritários, encantados com o poder e ignorantes sobre o que significa uma república e o funcionamento de um Estado democrático.

Enfim, estamos diante de um retrocesso civilizatório.

Como se vê, a espantosa demissão do funcionário do Ibama não foi algo isolado. Ela é perfeitamente coerente e se articula com um conjunto de fatos.

Fatos escabrosos, por sinal.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.