10 de outubro de 2018, 20h51

Filipe Monteiro Morgado: Evangélicos são vítimas de um plano de poder

Bolsonaro e certas lideranças evangélicas escondem atrás do discurso conservador moral o projeto “Temer radicalizado”, acentuando as medidas neoliberais adotadas pelo atual governo

Foto: Reprodução/YouTube

Por Filipe Monteiro Morgado*

De acordo com o censo de 2010 do IBGE, há mais de 40 milhões de brasileiros que se autodenominam evangélicos, dentre os quais cerca de 30 milhões são pentecostais (ou seja, membros das igrejas Assembleia de Deus, Universal, Nova Vida, Maranata, Mundial etc.).

No atlas do censo, nota-se a região metropolitana do estado do Rio de Janeiro com forte concentração de evangélicos pentecostais ou de tendência indeterminada (tal indeterminação pode ocorrer em razão da diversidade gigantesca de denominações evangélicas). O município de São Gonçalo chegou a ser veiculado, por meios de comunicação, como o mais evangélico do mundo, com o maior número de igrejas evangélicas por km² em todo o globo.

Frequentei a Assembleia de Deus, em São Gonçalo, por 12 anos e pude presenciar (não sob a direção de todos os pastores da congregação da qual fui membro!) diversos casos de utilização do púlpito da igreja por líderes religiosos para a promoção de certos candidatos, tais como Arolde de Oliveira (PSD) e Eduardo Cunha (MDB).

Em várias ocasiões, pastores afirmaram que, de acordo com certos projetos de leis (dos quais não davam a referência) de “políticos da esquerda”, os pastores seriam obrigados a realizar casamentos homossexuais em suas igrejas, sendo detidos em caso de não o fazerem, ainda que motivados por suas convicções religiosas.

Desde que começaram a se tornar significativas no número de membros, as igrejas evangélicas vêm exercendo cada vez mais influência na nossa conjuntura política. Recentemente, Edir Macedo, autor do livro “Plano de Poder: Deus, os cristãos e a política”, cujo título já insinua o conteúdo, declarou apoio ao presidenciável do PSL.

Na noite do último debate entre presidenciáveis, ocorrido na Rede Globo de televisão, a rival da empresa dos Marinho transmitiu, ao arrepio da legislação eleitoral (pois favoreceu um candidato, em detrimento de outros), uma entrevista de cerca de 30 minutos com Jair Bolsonaro.

Portanto, o apoio não se efetivou somente por parte de Edir Macedo ou somente por parte da sua igreja, mas também pela emissora do religioso e da igreja, que explora uma concessão pública, influenciando, assim, não somente membros da Universal, mas também todos os telespectadores.

Não é a primeira vez que um grande veículo de comunicação toma posturas extremamente políticas, mesmo que contrariando a legislação vigente. Não é a primeira vez, também, que a Record o faz e nem a Igreja Universal. Em 2016, na disputa eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro, panfletos chegaram a ser apreendidos pelo TRE em templos da Igreja de Edir Macedo. Tal igreja fez campanha para Marcelo Crivella, naquela ocasião, e, agora, repete as medidas em favor de Jair Bolsonaro.

Em São Gonçalo, a adesão evangélica ao mencionado candidato é grande. Inclusive das lideranças das igrejas, chegando algumas a efetuarem reuniões com os membros do templo a fim de lhes convencer que deveriam votar em Bolsonaro. Há uma tendência majoritária, no meio das lideranças evangélicas, ao conservadorismo ao modo brasileiro, esse conservadorismo no âmbito moral e liberal na economia. Não é sem motivo que apoiam o candidato do PSL, talvez a maior caricatura de conservadorismo colonial e escravocrata brasileiro, desse conservadorismo que se diz patriota, mas que bate continência para a bandeira dos colonizadores.

Em meio a tudo isso, é importante evidenciar evangélicos que destoam desse caráter retrógrado, como o pastor Eriovaldo Ramos, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Aliás, a existência da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito já demonstra, cabalmente, que há evangélicos progressistas, nacionalistas (no sentido bom do termo), interessados no bem da nação e, com ela, no bem-estar das brasileiras e brasileiros.

Destaco, ainda, o pastor evangélico Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, fundada como uma das congregações da Primeira Igreja Batista de Niterói em 2009 e dela emancipada em 2012, pastor que promove um acolhimento das pessoas, inclusive das minorias oprimidas, vítimas de uma sociedade desigual em vários sentidos.

Grande parte dos evangélicos é formada por pessoas que vivem nas periferias, pessoas pobres, trabalhadoras. Isso fica claro em pesquisas e em minha experiência cotidiana. O dispositivo argumentativo conservador e retrógrado de Bolsonaro e das igrejas esconde algo que é extremamente danoso aos mais pobres: o liberalismo econômico ou, mais precisamente, o neoliberalismo.

Pesquisas mostram que a grande maioria da população brasileira (cerca de 70%) não concorda com privatizações. Mostram, também, que há uma grande repulsa pela Reforma Trabalhista proposta pelo governo Temer (MDB) e aprovada em 2017. Ora, Bolsonaro propõe uma radicalização do que foi e é o governo Temer, governo que realizou privatizações e a reforma trabalhista, repudiadas por grande parte dos brasileiros e brasileiras.

Porém, Bolsonaro e certas lideranças evangélicas escondem atrás do discurso conservador moral o projeto “Temer radicalizado”, acentuando as medidas neoliberais adotadas pelo atual governo. Talvez seja o momento de a esquerda dialogar com os evangélicos, visto que muitos deles vêm sendo ludibriados pelas candidaturas que chegam ao púlpito das igrejas como as únicas possíveis. Evangélicos são vítimas de um plano de poder que não os beneficia.

*Filipe Monteiro Morgado é bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense