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02 de agosto de 2018, 16h22

“Foi um crime”, diz filho que teve a mãe morta após atendimento negado em hospital no Rio

Em entrevista à Fórum, Rangel Marques afirma que foi “negligência” o que ocorreu no Hospital Estadual Getúlio Vargas e que vai processar o Estado do RJ e o Hospital; sindicância apura a morte de sua mãe

(Foto Reprodução)
Causou indignação o vídeo gravado por Rangel Marques que mostra uma médica no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio, utilizando seu celular, enquanto ele aguardava mais de uma hora, desesperado, por atendimento para sua mãe. Uma sindicância e uma comissão de intervenção, criadas pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, prometem investigar e apurar responsabilidades pela morte de Irene de Jesus Bento, de 54 anos, que, segundo denúncias de seu filho, teve atendimento negado. De acordo com Rangel, a informação que recebeu é que o caso não era grave e que a família deveria...

Causou indignação o vídeo gravado por Rangel Marques que mostra uma médica no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio, utilizando seu celular, enquanto ele aguardava mais de uma hora, desesperado, por atendimento para sua mãe.

Uma sindicância e uma comissão de intervenção, criadas pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, prometem investigar e apurar responsabilidades pela morte de Irene de Jesus Bento, de 54 anos, que, segundo denúncias de seu filho, teve atendimento negado. De acordo com Rangel, a informação que recebeu é que o caso não era grave e que a família deveria procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

“Eu a levei para o Getúlio Vargas às duas da tarde e eles não atenderam. Disseram que só recebiam pacientes graves. Mandaram procurar a UPA. Minha mãe estava sem falar, sem andar, sem poder respirar e falaram que não era grave. Mediram só a pressão dela e mandaram procurar uma UPA”, disse Rangel Marques à Fórum.

Quando ele chegou com a mãe ao Getúlio Vargas, ela, que estava passando muito mal, foi colocada em uma cadeira de rodas. “Ficamos aguardando atendimento.” Depois de meia hora sem nenhuma assistência, ele resolveu percorrer os corredores do hospital atrás de uma solução. Com o celular em mãos, procurou um médico.
A gravação feita por Rangel mostra o momento em que ele entrou em um consultório, solicitando ajuda. Encontrou uma médica mexendo em seu celular, na sala em que estavam outros funcionários. Ele perguntou a razão de não efetuarem nenhuma consulta. A médica respondeu que era preciso aguardar, pois ela necessitava receber uma ficha com o nome do paciente.

Em um misto de irritação e desespero, Rangel disse que a médica estava no WhatsApp ao invés de trabalhar. “Eu não estou no zap zap (Whatsapp). Estou lendo artigo sobre doença. E você tem que esperar ser chamado. A gente precisa da ficha. Se publicar a minha imagem eu vou processá-lo”, ameaçou ela. “Perguntei o nome da médica para outra funcionária, mas ninguém quis dizer, se negaram a dizer o nome dela”, revela Rangel.
Irene continuou sem receber assistência médica. Uma enfermeira mediu sua pressão, afirmou que o caso não era grave e orientou que ela fosse levada para a UPA, que fica perto do hospital. “Aqui a gente não atende caso que não seja grave”, teria dito.

Na UPA, de volta para o hospital

Por volta das 15h30, foi buscar atendimento na UPA. Mediram a pressão de Irene novamente e a encaminharam a uma sala. O problema respiratório piorou e, às 22 horas, aproximadamente, Rangel foi informado que a mãe havia sofrido duas paradas cardíacas e deveria ser transferida para um hospital. O mais próximo era justamente o Getúlio Vargas.

Rangel disse que os médicos iniciaram uma massagem cardíaca dentro da ambulância e internaram Irene no Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Por volta das 23 horas, ele foi informado do falecimento de Irene. O filho revelou o que consta no atestado de óbito da mãe como causa da morte: “Eles escreveram que foi diabete e umas palavras que a gente não entende”.

“Houve negligência por parte do hospital, porque os médicos estavam lá e o que aconteceu é de responsabilidade do hospital. Agora, vamos procurar nossos direitos, os meios legais. Vamos arrumar um advogado, porque isso foi um crime que eles cometeram contra ela. Vamos entrar na Justiça contra o estado e contra o hospital”, acrescenta Rangel. Irene deixou sete filhos, entre eles uma criança de 11 anos.

(Foto: Rangel/ Reprodução)

Sindicância vai apurar o caso

A Fórum tentou contato com o hospital, sem sucesso. Questionada pela reportagem quais as providências que seriam tomadas e se algum funcionário seria afastado, a Secretaria Estadual de Saúde enviou um e-mail à redação, com a divulgação de uma nota:

“A Secretaria de Estado de Saúde criou uma comissão de intervenção no Hospital Estadual Getúlio Vargas que tem o objetivo de reavaliar todos os protocolos assistenciais e de classificação de risco da unidade para evitar que episódios lamentáveis como o da paciente Irene de Jesus Bento se repitam. A SES também instaurou uma sindicância para apurar a responsabilidade de todos envolvidos no caso.

A rede de emergência da SES é formada por hospitais que fazem acolhimento e classificação de todos os pacientes que procuram a unidade. São absorvidos os casos classificados como amarelo e vermelho (média e alta complexidades), os pacientes classificados como azul e verde são encaminhados para Unidades de Pronto Atendimento da rede estadual, que funcionam no entorno dos hospitais de emergência.
A SES reitera ainda que a rede estadual está abastecida, em pleno funcionamento e com todos os contratos com as Organizações Sociais de Saúde pagos em dia”.

Confira aqui vídeo feito por Rangel:

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