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16 de dezembro de 2011, 04h14

Foi oló: Christopher Hitchens (1949-2011), o maior polemista do nosso tempo

Do trotsquismo no qual militou entre 1966 e 1976, Christopher Hitchens herdou – e nunca abandonou – o gosto pela polêmica, a total ausência de receio de ser minoria e o horror a qualquer tipo de discurso feito para agradar o senso comum dos fariseus. Mais ou menos como um músico de ouvidos bem treinados […]

Hitch em Belfast, com o inseparável cigarro. Foto: Edward McNamara

Do trotsquismo no qual militou entre 1966 e 1976, Christopher Hitchens herdou – e nunca abandonou – o gosto pela polêmica, a total ausência de receio de ser minoria e o horror a qualquer tipo de discurso feito para agradar o senso comum dos fariseus. Mais ou menos como um músico de ouvidos bem treinados reconheceria o dedilhar de Jimi Hendrix ou Johnny Marr aos primeiros acordes, os leitores de Hitch identificaríamos qualquer frase sua imediatamente, mesmo que descontextualizada. Com adjetivação abundante mas nunca óbvia, orações subordinadas de um barroquismo que levava a vocação pragmática da língua inglesa aos seus limites, fechamentos devastadores para o adversário—e ele sempre tinha um adversário—, Hitch escrevia como ninguém. Ao contrário da grande maioria dos que escrevem como ninguém, ele também falava admiravelmente: era um orador potentíssimo, capaz de reduzir o oponente ao ridículo em questão de minutos. O debate protagonizado por ele e por Stephen Fry, em 2009, contra um arcebispo da Nigéria e uma deputada conservadora britânica, sobre se a Igreja Católica seria uma força “para o bem”, é um dos maiores espancamentos verbais de que se tem notícia. Foi o grande polemista do nosso tempo.

Os obituários falarão abundantemente do “giro” conservador de Hitch nos anos 2000, durante os quais ele adotou a cidadania estadunidense, apoiou a Guerra do Iraque, rompeu sua longa colaboração com o periódico progressista The Nation e desfez de forma escandalosa praticamente todas as amizades que havia formado na esquerda: Gore Vidal, Noam Chomsky, Tariq Ali, Edward Said e Alexander Cockburn, para ficar só nos mais famosos. Mas prefiro sublinhar aqui o que considero a grande lição de Hitch para o nosso tempo, particularmente importante no Brasil de hoje. Ele personificava como ninguém o compromisso ético nº 1 de qualquer intelectual público que se preze: a coragem de estar em minoria e a recusa a fazer qualquer concessão ao senso comum dominante. Nada exemplifica melhor essa característica sua que o livro sobre a Madre de Teresa de Calcutá, demolida por Hitch como uma exploradora da pobreza, fanática, fundamentalista e fraudulenta, segundo suas próprias palavras.

Palavras eram coisas que Hitch não economizava, e a sucessão de efes no artigo lincado não é gratuita. Hitch adorava aliterações. Uma das demolições retóricas mais divertidas, na longa lista que acumulou ao longo da vida, ocorreu quando um evangélico lhe perguntou: “se você estivesse numa cidade estrangeira, e um grupo de homens desconhecidos viesse na sua direção, você se sentiria mais ou menos seguro se soubesse que eles vêm de um encontro religioso?”. O evangélico, evidentemente, espera um “sim, mais”, como resposta. Hitch fulmina, devastador: posso lhe garantir com absoluta certeza que me sinto muito mais ameaçado se este for o caso, porque já passei por essa experiência. Para ficar só na letra B? Belfast, Belgrado, Belém, Bagdá, Bombaim e Beirute. Nocaute, fim da discussão.

Hitch chegou ao rol dos best-sellers com seu God is not Great, seguramente o melhor livro entre a abundante literatura do neo-ateísmo capitaneada por Richard Dawkins. As demolições de Bill Clinton e Henry Kissinger também adquiriram certa notoriedade.  Mas sua grande obra, a meu modo de ver, é também a mais sucinta: Letters to a Young Contrarian [Cartas a um jovem contestador, na edição brasileira], breve volume de 141 páginas, deveria ser lido por qualquer um que se interesse pelo mundo das ideias, seja lá qual for sua tendência política ou especialização. Entre seus alunos da New School, em Nova York, em 2000, um deles lhe faz o desafio de estabelecer qual seria o rumo para um intelectual que passou pelos levantamentos revolucionários de 1968 e vive hoje na ressaca da financeirização completa do mundo. Ele aceita o desafio e toma inspiração nas Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke. Em 18 missivas inesquecíveis, ele repassa a ética, a estética e a política que deveriam orientar, segundo ele, o verdadeiro radical—palavra que, aliás, ele adorava e nunca abandonaria. As Cartas são um texto digno de George Orwell, herói intelectual a quem ele tampouco jamais renunciou.

Suas memórias, Hitch 22, mostram sem sombra de afetação o traço que o acompanhou durante toda a vida: ele não tinha medo de nada. Nunca escolheu o momento mais fácil para suas viagens: Portugal em 1975, Buenos Aires em 1977, Palestina em plena Intifada, Uganda no meio da guerra civil, Belfast no auge do horror, a lista é infindável. Foi uma daquelas grandes ironias da História que ele tenha morrido na cama, zombando até o final dos religiosos que rezavam por ele e aguardavam uma conversão que—sabíamos os seus leitores—jamais viria. Prefiro não guardar dele a memória de sua chegada ao Iraque junto com as tropas de ocupação estadunidenses. Muito melhor é cultivar a lembrança de um brevo papo em Parati, depois que ele fizera picadinho de Fernando Gabeira num debate. Ali eu lhe dizia, depois de me apresentar, que um dia encararia um debate com ele sobre a Guerra do Iraque e a política externa dos EUA para o Oriente Médio, pois eu achava inaceitável sua conversão a ela. A resposta foi puro Hitch: é só você marcar hora e local. O cabra não fugia da raia, e essa é a grande lição que deixa, para além de sua absurda erudição, seus dotes de polemista e sua legendária memória, a um mundo de novo assombrado pela mediocridade do consenso.

Descansa em paz, velho trotsko. O mundo amanheceu bem menos brilhante sem você.