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01 de setembro de 2007, 02h23

Fontana defende radicalização da democracia

Modelo de socialismo petista envolve mais participação, na concepção do deputado gaúcho

Modelo de socialismo petista envolve mais participação, na concepção do deputado gaúcho

Por Anselmo Massad

Defensor da tese Mensagem ao PT, o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS)

Fórum – Na sua visão, o que é o socialismo petista?
Fontana –
Em primeiro lugar, o PT tem que se preocupar com as linhas gerais da idéia de socialismo, pensar no modo de vida e na cultura que quer legar à sociedade como partido socialista. Levar desenvolvimento sustentável é uma bandeira fundamental para um partido socialista e de esquerda. Outro aspecto é a luta contra o modelo que coloca a competitividade e acirra o individualismo, buscando construir uma cultura hegemônica da solidariedade e da justiça social, para levar a uma situação em que se chegue à felicidade para todos e não que a felicidade de uns signifique a infelicidade dos outros. A distribuição de renda no planeta, entre e dentro dos países é uma forma de barrar um dos combustíveis para os conflitos permanentes da humanidade. Como partido socialista, tem que defender ainda a radicalização da democracia, do acesso pleno à informação, à universalização da educação de qualidade que é um dos maiores desafios da humanidade – fazer com que mais pessoas compreendam melhor o mundo.

Fórum – o senhor mencionou a radicalização da democracia. Duas outras referências latino-americanas que se afirmam socialistas, Fidel Castro e Hugo Chávez, são frequentemente considerados ditadores ou aspirantes a regimes autoritários. Em que medida eles são ou não modelos?
Fontana –
Não são referências no sentido de que temos que estruturar nossa proposta de socialismo dentro de nossa cultura e história e de nosso modo de implementar progressivamente o socialismo. Isso não quer dizer que não haja questões a aprender. O governo Chávez e o de Cuba têm conquistado importantes melhorias para o conjunto da população, e por isso são apoiados pelos povos e têm legitimidade dentro de suas culturas e histórias particulares. Não cabe a nós dizer em que estão errados ou certos, como não cabe a eles apontarem em nossa experiência. Mas o modelo de socialismo para o PT tem que ser pensado no cenário brasileiro.

Fórum – Um debate que parece ter sido mais trazido pela mídia e pela decisão do STF de aceitar as denúncias contra membros do partido do que pelas falas no Congresso é o caixa 2. O senhor acredita que o PT pretende criar mecanismos internos que coibam essa prática?
Fontana –
O PT tem que tirar da crise que vivenciou um profundo aprendizado, até para ter vigor para defender sua história e seu possível futuro. A ilegalidade e os erros cometidos por alguns não podem condenar o coletivo e o papel de um partido de esquerda. Um ponto de consenso é a defesa de mudanças no sistema político, porque esse modelo está falido. Mas há uma dificuldade no Congresso Nacional. Defendo uma Constituinte exclusiva, porque o conservadorismo do Congresso é muito grande para fazer as mudanças necessárias para devolver ao povo a possibilidade de fazer política. O sistema de financiamento permite o abuso de poder econômico ilimitado. Aliado ao financiamento privado de campanha, forma-se uma correia de transmissão quase automática para os desvios éticos. Parte da população, infelizmente, continua sensível ao argumento que considero inconsistente de que o povo não deve financiar as eleições, sem se dar conta das consequências do financiamento privado.