À Beira da Palavra

28 de maio de 2015, 09h57

7 GOLAÇOS E UM POUCO DE RANCOR – A QUEDA DOS VAMPIROS DO FUTEBOL

Fossem 7 os golaços. Sem frango, sem impedimento. 7 que não nos fariam vexame.

1- Caísse de vez não apenas Marin, o delator parceiro da ditadura, o que roubou até medalhas de juniores ao vivo na mão grande. Mas também cada presidente de federação, seja de país que lota decisões ou de qualquer estado das arenas monumentais sem time pra pisar no gramado e nem torcida pra pular no alambrado. E caísse cada cartola antigo ou atual dono do casarão, que brinda seu whisky arrotando na nossa idiotice e em nosso vício. Que caíssem e gemessem as cãibras de um repuxo eterno, removidos os distintos pra fora dos estádios até o ano 3.000.

Aos presidentes de clubes e aos cartolas que levam sua porcentagem nas vendas de campeonatos e de craques, nas compras de jogos de camisa e de pernas-de-pau. Aos que fintam entre bilhões e amontoam dívidas de trilhões, aos que miram suas eleições, reeleições e carreiras políticas como um guri na várzea sonha com um gol na final…

A estes, que a luva de um arqueiro, após a ponte do ano, voe e voe e voe até encontrar seus focinhos nas cadeiras numeradas, grudando em seus ranhos e tapando o ar pros seus pulmões.

2- Fosse expulso cada empresário que vampiriza a mulecada desde os primeiros chutes e dibrinhas, cada dono de passe e de escolinha mandrake, cada gerente carrapato de fraldinhas e veteranos. Cada um destes sinhôzinhos que babam dólares e reviram as categorias dos meninos que, antes de jogarem um ou dois campeonatos nos seus primeiros times, já deixam o terrão com chuteiras blindadas rumo qualquer campo sintético do exterior.

A cada abutre que engorda sua poupança com as caneladas e chapéus dos guris, e também a cada marqueteiro que remexe na convocação das seleções para expor seus pupilos na vitrine…

Que entalasse a goela com suas douradas moedas multinacionais e se sufocasse na papelada dos contratos assinados com as digitais de seus boleiros.

Que na volta do intervalo (às onze da noite de uma quarta-feira!) os holofotes lhes tostassem o colarinho branco e secassem suas gargantas.

3- Aos agentes que bancam propinas pra fatiar a propaganda do jogo e vender apartamento, isotônico, barbeador e cerveja durante as transmissões. Aos magnatas da TV que impõem centenas de jogos capengas por temporada, ditando que o apito inicie a peleja às dez da noite num dia de semana.

Que a estes, os tais ‘executivos do esporte’, o bico da caneta fina se voltasse contra os próprios pulsos no ato das assinaturas brindadas nos restaurantes chiques. E apavorados corressem ao jogo onde um bandeirinha atrapalhado marcasse impedimento lhes dando com o bastão na fuça.

4- A cada torcedor modinha que gasta suas altas mesadas pra frequentar as agora pálidas arquibancadas, num revertério que torna de novo o futebol daqui um esporte de grã-finos. A cada torcedor com sua coleção milionária de camisas e blusões dos times que largam na primeira seca de títulos, times do qual não conhecem nada da história, dos sofrimentos, das viradas e das glórias. E também a cada ameba uniformizada que espanca e mata ou morre na mão do seu irmão de cor ou mano de quebrada, aquele que veste outro agasalho e pinta outros bandeirões…

Que uma cegueira lhes rasgasse a vista bem na hora do gol aos 44 do segundo tempo. E que as arquibancadas e as almofadas de camarotes que eles avacalham criassem um buraco no cimento ou na poltrona fofa, pra suas quedas num caldeirão sem fundo.

5- A cada meia-esquerda que diante de toda essa fuleiragem, do racismo e da escancarada homofobia se cala; A cada beque que aceita ser driblado e humilhado pelos assassinos mentais dos gabinetes e azucrinado pelo passe torto dos nazistas das torcidas; A cada artilheiro que sente nos poros o esporro nazista nas canchas latinas ou nos vestiários europeus, mas que segue limitado às suas embaixadinhas, de bico fechado diante do estorvo que lhes marca cerrado e que também não desgarra de sua gente nos becos.

A toda cambada de discípulos do Edson Arantes do Nascimento e que nem resvalam em futebol de Pelé; a todos que recebem milhões mensais num país onde professores ganham centavos… que bolhas lhe comessem o calcanhar e uma unha encravada lhes benzesse o mindinho, bem ali onde a costura da chuteira pega.

6- Aos narradores que celebram o patriotismo besta e o tosco machismo piadista, aos comentaristas que por ibope berram ser mau-caráter quem perdeu o pênalti e covarde quem errou o lançamento, aos repórteres que inventam escândalos sobre a roupa ou o beijo de um jogador e aos que coroam goleiros conforme a cifra que lhes cabe pelo elogio pré-agendado com o empresário. Aos locutores que migalham presença em salões e apagam no cinzeiro as maracutaias que sabem e que pareiam. Aos fofoqueiros que são vendidos como ex-craques e que aceitam ser papagaios e hienas em troca de audiência.

A cada um destes ‘jornalistas esportivos’, que o microfone inchasse e se enfiasse em seu nariz. Que o petardo torto de um ponta-esquerda ganhasse altura e lhes nocauteasse na cabine, a bola um torpedo que estoura nas testas.

7- A cada técnico que tem a retranca como religião e o medo de perder como sol de cada dia. A cada técnico mancomunado com os chupins de gabinete, vendedor de escalação e de convocação. A cada treinador com seus milhões mensais e farto cachê pra palestrar aqui no país da fome e da cela. A cada ‘professor” que trava e castiga o improviso do craque, cada técnico que come na mão dos cartolas e disfarçado de padre, de intelectual ou de mafioso concede as entrevistas exclusivas ao canal mandante da pataquada toda.

Que no jogo o carrinho afoito de algum lateral grosso lhe atropelasse no banco de reservas e ele desabasse com os dentes cravados na grama, pra nunca mais preleção nem distribuição de camisas.

Ou, no treino, suas pernas se enganchassem na rede e dali não se desvencilhassem. Pra daqui anos, já caveiroso, esfarelar no gramado vendido a uma empresa de jazigos, nos tempos dos estádios cemitérios.

Foto: Divulgação/Filme Futebol de Várzea

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