24 de abril de 2012, 11h35

França: Quando a aritmética e as sondagens não coincidem

O tom dado por Nicolas Sarkozy é o de que a partir de agora e até 5 de maio, véspera da eleição decisiva, será uma campanha de vale tudo com uma chantagem permanente sobre o eleitorado do tipo “ou nós ou o dilúvio” Por José Goulão  Publicado por BE Internacional As primeiras sondagens conhecidas depois dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas continuam a dar a vitória final a François Hollande, do Partido Socialista, com vantagens variando entre os 53-47 e os 54,4-45,5 sobre o presidente em exercício, Nicolas Sarkozy. As previsões não são claras sobre o modo como...

O tom dado por Nicolas Sarkozy é o de que a partir de agora e até 5 de maio, véspera da eleição decisiva, será uma campanha de vale tudo com uma chantagem permanente sobre o eleitorado do tipo “ou nós ou o dilúvio”

Por José Goulão 

Publicado por BE Internacional

As primeiras sondagens conhecidas depois dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas continuam a dar a vitória final a François Hollande, do Partido Socialista, com vantagens variando entre os 53-47 e os 54,4-45,5 sobre o presidente em exercício, Nicolas Sarkozy. As previsões não são claras sobre o modo como se vão repartir agora os votos dos restantes oito candidatos, sabendo-se desde já, no entanto, que o eleitorado de Jean-Luc Mélenchon (Frente de Esquerda), 11,11%, e de Eva Joly (Verdes), 2,3%, irão quase na íntegra para Hollande. Dúvidas maiores, e decisivas, existem sobre os comportamentos dos votantes em François Bayrou (centrista), 9,1%, e Marine Le Pen (neofascista), 18%.

O tom dado pelo principal derrotado do primeiro turno, Nicolas Sarkozy, é o de que a partir de agora e até 5 de maio, véspera da eleição decisiva, será uma campanha de vale tudo com uma chantagem permanente sobre o eleitorado do tipo “ou nós ou o dilúvio”. Se a França escolher Hollande “será a falência do país”, ameaça Sarkozy. Um dos seus porta-vozes de campanha considera que agora “a campanha será justa porque se fará no sistema de um contra um e não de nove contra um”.

A Frente de Esquerda foi a primeira organização a declarar o seu apoio a François Hollande nos egundo turno dentro do acordo tácito de “convergência republicana” que existe há muito entre a esquerda, incluindo comunistas e socialistas, isto é, votar no candidato do mesmo quadrante melhor colocado para vencer. “Temos a chave da eleição para bater Sarkozy”, declarou Jean-Luc Mélenchon na sua declaração após a divulgação dos resultados. “Trabalhámos bem”, e agora há “uma esquerda que emerge”, acrescentou o candidato. A Frente de Esquerda alcançou 11,1%, duplicando as intenções de voto que lhe eram atribuídas no início da campanha mas ficando aquém dos 15% que chegaram a ser anunciados em estudos de opinião, provavelmente devido a uma concentração de votos de última hora em François Hollande.

O candidato socialista ficou, graças aos seus 28,63%, com mais de um ponto acima da média das sondagens efectuadas durante a campanha.

Com Sarkozy aconteceu praticamente a mesma coisa, apesar das críticas generalizadas à sua campanha centradas no fato de a insistência nos assuntos securitários e xenófobos ter estendido o tapete aos neofascistas liderados pela família Le Pen, que alcançaram o melhor resultado de sempre – a filha Marine superou o patriarca.

Os socialistas de Hollande e os setores à esquerda salientam a importância final que poderá ter a dinâmica de vitória expressa pelos resultados de domingo, sobretudo porque pela primeira vez na V República, em mais de 60 anos, um presidente em exercício não venceu na primeira volta. Esse fato revela uma grande falta de confiança no presidente, inclusive no seu setor natural, a direita, onde se registaram importantes fugas para a extrema direita e para o centro. Os resultados eleitorais revelam que o presidente em exercício mereceu apenas a confiança de pouco mais de um em cada quatro franceses.

Há, de fato, outras chaves desta eleição, importantes dúvidas em aberto suscetíveis de fazer balançar ainda as sondagens que dão grande favoritismo a Hollande. A aritmética dos eleitorados naturais não coincide com o estado atual das sondagens uma vez que a soma da direita com a extrema direita e parte dos centristas aglutinados em François Bayrou, oriundos originalmente das hostes de Sarkozy, garantiria ao atual presidente mais do que os 47% que lhe são atribuídos.

Em compensação, a soma dos votos em Hollande, Mélanchon, Joly e dois candidatos trotskistas não chega a 50%, precisando o candidato socialista de uma parte do eleitorado de Bayrou maior do que a que lhe é presentemente atribuída. Segundo as sondagens mais recentes, os 9,1% de Bayrou seriam distribuídos da seguinte maneira: 32% para Hollande, 38% para Sarkozy, 30% de indecisos.

Sarkozy e Bayrou são, na realidade, adversários políticos com grande animosidade pessoal. Existem muitas dúvidas, que só a campanha decidirá, sobre a forma como esse antagonismo se reflectirá na importante fatia de eleitores que à primeira escolheram o candidato dito centrista.

Outra chave é a do eleitorado que convergiu na neofascista Marine Le Pen. O discurso pós- primeiro turno da candidata é cerrado contra Sarkozy, que considera “politicamente morto” e propondo-se fazer “implodir a direita” para reformular todo o espectro partidário, incluindo o desaparecimento da UMP do atual presidente – que já tem uma parcela de deputados aliada do setor neofascista. Resta saber qual será o efeito dos discurso corrosivo da senhora Le Pen – que afirma não fazer recomendação de voto para o segundo turno – no voto útil do eleitorado que a escolheu no primeiro turno.

O Primeiro de Maio será o auge da campanha do sgeundo turno, com três manifestações programadas para Paris. A de extrema direita, nacionalista e xenófoba, convocada como sempre em torno da figura de Joana d’Arc. A convocada pelo próprio Sarkozy, qualificada desde já como um “contrassenso oportunista” tendo em conta o que a sua administração tem feito para deteriorar os direitos dos trabalhadores. E a manifestação do Primeiro de Maio, a da grande convergência das esquerdas e das forças sindicais em torno do que está efetivamente em causa na eleição presidencial francesa: uma nova política capaz de por em causa o tratado orçamental ou de austeridade, a dependência da França em relação ao neoliberalismo fundamentalista da senhora Merkel, e uma Europa capaz de aplicar outras alternativas no combate à crise.

É visível, posto tudo isto, que o resultado final está muito aberto.

Para lá da aritmética e das sondagens, a dinâmica própria da campanha da segunda volta será determinante, sobretudo o modo como a lucidez construtiva da esquerda conseguir esquivar-se e neutralizar o trauliteirismo sarkozyano.