Funk samba soul reggae jazz em “Olhos Negros Vivo”, primeiro álbum solo de Renato Gama | Revista Fórum
29 de junho de 2018, 16h19

Funk samba soul reggae jazz em “Olhos Negros Vivo”, primeiro álbum solo de Renato Gama

Se você não sair pulando logo nos primeiros compassos do álbum, ou é ruim da cabeça ou doente do pé

Uma introdução de guitarra, baixo, bateria, cuíca, metais, samba funk soul jazz reggae, com pausas longas, coro de vozes bonitas e afinadas, entrecortadas, preparam a entrada trovejante de barítono suingado do seu autor. A plateia desaba: “Anda com nego, é com nego que eu vou”.

Se você não sair pulando logo nos primeiros compassos do álbum “Olhos Negros Vivo”, do cantor, compositor, produtor, escritor, ator e violonista, Renato Gama, ou é ruim da cabeça ou doente do pé, como diria Caymmi.

Daí em diante, tudo só melhora. Mas, afinal, de onde vem este som indecifrável, com recortes de todas as partes e jeitão de coisa paulistana, um tanto de Itamar Assumpção, um pouco lá de Branca Di Neve? Pois é. Vem lá da Vila Nhocuné, pequeno bairro encravado na tríplice fronteira entre Vila Matilde, Cidade Líder e Artur Alvim, Zona Leste de São Paulo.

Renato Gama. Foto: Facebook

Renato Gama tem corrida. Já produziu e gravou com muita gente: Nelson Triunfo, com a sua própria banda Nhocuné Soul, Tiarajú Pablo, Joana Flor. Também escreveu e dirigiu espetáculos como, “Canto de Vida e Obra” sobre a escritora Conceição Evaristo, o último Espetáculo do Sarau das Pretas, “CarnaPretas”, “As Pastoras do Rosário”, com o show “Canto para Carolina”, onde são interpretadas as músicas do disco “Quarto de Despejo” de Maria Carolina de Jesus.

Além disso tudo, também compôs, dirigiu e produziu o espetáculo “Rainhas do Tempo”, com o coletivo “3Áfricas”, que contém a música “Neguinha Sim!”, gravada recentemente pela TV Cultura, no programa “Quintal da Cultura.

Mesmo com tanta história, só agora chegou ao seu primeiro álbum solo, ou seja, “Olhos Negros Vivo”, repleto de um tanto do melhor que já mostrou de um lado a outro, e um pouco mais.

As canções do disco são todas de Renato Gama em parceria com jovens poetas, como Conceição Evaristo, Paulo Rafael, Alan da Rosa, Cutti, Oswaldo de Camargo, Daisy Serena, entre outros.

A poesia aguda e direta passeia por melodias fortes e dançantes, divertidas e referentes: “Isso é comida de comer com a mão, tempero forte do Nordeste, coisa de cabra da peste”. Tudo no som de Renato Gama é pertencimento e identidade. A sua música levita, faz dançar e faz pensar, não tem pressa, mas tem urgência.

A festa explode em “Madrinha”: “Hoje tem samba lá na vizinha, só não esquece o vinagrete que a Tia Gildete perguntou de você, também pediu para depois, se não for sacrifício, aquela farofa de arroz”. Tudo é comunidade, cultura e congraçamento.

O disco corre e discorre por personagens com imagens rápidas, fotos, filmes, sons e jeitos: “A Gata Gabi viaja na viela de cima do morro, vestida de crochê com vermelho no gorro, Não para nunca de se transformar”. Irresistível Gabi no passo do samba rock e dos metais. A plateia agradece, aplaude e pede bis.

O disco não para de crescer e o que resta quando acaba é voltar sempre ao começo, pra dançar e reverenciar este novato veterano, com seu som sempre surpreendente, límpido e cheio de energia.