Blog do Mouzar

13 de janeiro de 2016, 12h25

Futebol: brasileiros continuam sendo os maiorais

“Lá vem ele defender os timecos brasileiros de novo”, deve ter gente pensando.

Não, não vou. Concordo que nossos times têm cada vez menos craques daqueles que fazem dar gosto assistir a uma partida de futebol. Mas não é que o Brasil não tenha produzido jogadores excelentes, que fazem lembrar os bons tempos em que tínhamos “o melhor futebol do mundo”, e o campeonato brasileiro era transmitido pelas TVs europeias, onde invejavam o “futebol arte”, um espetáculo bonito de se ver.

Por isso, repito, concordo quando nos referimos à qualidade dos times brasileiros, que piora progressivamente.

Mas o futebol “dos” brasileiros não está nada mal.

Esta semana, Neymar concorreu para ganhar a Bola de Ouro, da temporada, dada ao melhor jogador do mundo. Certo, ficou em terceiro lugar. Mas nada mal: perdeu só para o argentino Messi, um quase Pelé dos dias de hoje, e para o português Cristiano Ronaldo, também um grande craque.

E um brasileiro bem simples, Wendell, com um gol marcado por ele num modestíssimo time goiano, o Goianésia, foi vencedor do Prêmio Puskas. Seu gol foi considerado o mais bonito da temporada. Viva ele!

Além disso, a Fifa fez uma “Seleção do Mundo”, de 2015, em que constam os brasileiros Neymar, Thiago Silva, Marcelo e Daniel Alves.

Fora os já citados Messi e Cristiano Ronaldo, estão nessa seleção, dois espanhóis: Iniesta e Sergio Ramos; o alemão Neuer; o francês Pogba e o croata Modric.

Então, temos quatro brasileiros entre os onze melhores do mundo. Além deles, só dois espanhóis, um francês, um alemão, um argentino, um português e um croata. E nenhum inglês, nenhum italiano, nenhum de qualquer outro país da Europa. Nada mal, se pensarmos apenas na nacionalidade dos jogadores e não onde eles jogam.

Veja também:  Ele não seguia regras...

O problema que atinge o futebol brasileiro é a sedução do dinheiro. Não estou “culpando” os jogadores que vão para a Europa, mas só constatando que quando algum se destaca, ou apenas promete se destacar aqui, aparecem propostas que chamam de “irrecusáveis”, e eles se mandam daqui.

É um direito deles. Mas acho que devia haver uma regra: jogador que atua fora do Brasil não deveria ser convocado para a seleção. Lá fora, eles não têm ligação afetiva conosco. Não formam um conjunto “brasileiro”, e fica difícil até torcer por uma seleção formada por gente que nunca vimos jogar ou que mal conseguimos identificar quem são. Quando juntamos na seleção os craques brasileiros que fazem sucesso na Europa, a coisa não funciona. Eles não formam um conjunto. Cada um joga de acordo com seu time europeu, não dá liga, e lá vem 7 a 1.

Então, a opção seria entre ganhar muita grana no exterior ou poder atuar na seleção. Torcem o nariz: deixar os craques de fora? Ora, com os craques perdemos de 7 a 1. Com os que jogam aqui, talvez não fizéssemos papel tão feio.

O certo é quando os craques brasileiros jogavam aqui, dava gosto assistir a uma partida de futebol dos nossos campeonatos. Na seleção os jogadores, embora de times diferentes, tinham algo em comum, formavam um conjunto de verdade e a torcida era acostumada a vibrar com eles.

E não era só no eixo Rio-São Paulo. Até hoje considero o jogo mais bonito que já vi uma final do campeonato brasileiro, disputada por Internacional e Cruzeiro, em Porto Alegre, não sei em que ano. Faz tempo. O Cruzeiro venceu por 5 a 4, mas se perdesse não seria vergonha, porque o Inter jogava maravilhosamente.

Veja também:  Ele não seguia regras...

Ligávamos a televisão em campeonatos estaduais ou no nacional e víamos entre os jogadores vários que se jogassem hoje estariam com certeza em algum time europeu, ou jogando aqui só de birra. Aliás, alguns deles foram para fora, mas eram casos isolados, às vezes para desenvolver o futebol em certos países, como Zico no Japão e Pelé nos Estados Unidos, e um outro em países árabes. A seleção brasileira tinha no máximo um ou dois jogadores que atuavam no exterior. Além de gênios que mereceriam estar em qualquer seleção mundial de todos os tempos, como Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Didi, víamos nos gramados nacionais gente como Djalma Santos, Tostão, Dirceu Lopes, Rivelino, Joãozinho, Zico, Roberto Dinamite, Gerson, Luizinho, Luiz Pereira, Reinaldo, Amaral, Clodoaldo, Falcão…

E não era um ou outro caso isolado, um só craque em cada time. Uma época, o Botafogo do Rio tinha no time três dos citados selecionáveis de todos os tempos, jogando juntos, Garrincha, Nilton Santos e Didi, além de Manga, Quarentinha e outros craques.

O Santos de Pelé tinha também Coutinho, Pepe, Zito e depois Clodoaldo, além de coadjuvantes à altura. O Cruzeiro chegou a ser um time com muito mais estrelas em campo do que as cinco de seu distintivo.

Agora, quando se começa a pegar gosto por um time que joga bonito, logo ele é desmontado, como aconteceu com o Santos de Neymar, Ganso e outros que não se igualavam a eles mas bons o suficiente para colaborar para o espetáculo.
Em 2015 foi a vez do Corinthians se destacar, com um time sem nenhum gênio do futebol, mas com muitos jogadores bons, formando um ótimo conjunto. Um time que já não existe. E pior: seus jogadores nem vão para a Europa. Agora é a China, com seus dólares adquiridos com a venda de bugigangas para nós, que está levando jogadores daqui.

Veja também:  Ele não seguia regras...

Enfim, quando há um respiro e parece que a coisa vai melhorar, volta a ser difícil ver um jogo que valha a pena, entre os times maiorais do Brasil. Assim, em vez da TV transmitir jogos do Brasil para a Europa, agora é o contrário. E muitos brasileiros sabem mais sobre os campeonatos europeus do que sobre o nacional. E tem até brasileiro torcedor do Barcelona, do Manchester, do Real Madrid…

Quem sabe, um dia assistiremos aqui jogos do campeonato chinês, invejando os times de lá!

Termino por aqui… Mas com uma alegria: Wendell, autor do gol mais bonito do mundo em 2015, foi contratado pelo Vila Nova de Goiás. É o meu preferido entre os times goianos, e o que tem a maior torcida no estado.

Gostei da declaração dele para os que se surpreenderam com seu gol ganhando como mais bonito do que um de Messi. Manhosamente, disse algo assim: “Quando Golias apareceu, todos diziam: ‘Ele é muito grande, não tem como ganhar’. Mas quando olhou para Golias, Davi disse: ‘Ele é muito grande, não tem como errar’”.

Tomara que continue fazendo gols bonitos. E que esse gols continuem sendo feitos aqui no Brasil, ou fora daqui, mas pelo Brasil. Contra os Golias mundo afora.

Foto: Youtube/Reprodução

Fórum em Brasília, apoie a Sucursal

Fórum tem investido cada dia mais em jornalismo. Neste ano inauguramos uma Sucursal em Brasília para cobrir de perto o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Clique no link abaixo e faça a sua doação.

Apoie a Fórum