04 de janeiro de 2016, 13h35

Futebol: continuo querendo o Paysandu na série A!

“Estatística é igual biquíni: mostra quase tudo, mas esconde o principal.”

Se me lembro bem, foi Millôr Fernandes quem escreveu isso, no Pasquim.

De vez em quando aparece algum ranking, que para mim é uma espécie de estatística, que me faz lembrar dessa frase e a dar razão ao seu autor.

No final do ano, a Folha de S. Paulo publicou um ranking dos cem melhores times de futebol do mundo em que o Barcelona aparece em terceiro lugar, depois do Real Madrid, o primeirão, e do Milan.

Ora, quem duvida que o Barcelona é hoje o melhor time do mundo? Certo que o Real Madrid é forte também, mas não é igual. E o segundo, Milan? Podemos dizer que ele já foi um time de meter medo, mas hoje em dia não está lá essas coisas.

Acontece que para fazer o ranking, a Folha dá nota a conquistas dos times em toda a sua história. Cada conquista internacional, ganha um número de pontos. Por exemplo: o campeão mundial de clubes (que este ano foi o Barcelona), ganha 80 pontos, e o vice 50 pontos.

O vencedor da Liga dos Campeões ganha 70 pontos, e o vice 40 pontos. A Recopa, a Copa da Uefa e outros torneios regionais dão 20 pontos para o campeão e 10 para o vice. E assim vai. Daí, o ranking é histórico, pega todo o passado, em que o Real Madrid e o Milan ganharam muitas taças. Daí essa classificação que para quem pensa no hoje não parece muito válida..

Para se ter uma ideia, não aparecem na lista dos cem os ingleses Manchester City e Manchester United, nem o francês Paris Saint Germain. São timaços, mas não têm um passado tão glorioso.

Brasil – o melhor na parada

Há algum tempo defendi aqui que o Brasil deveria ter mais times no campeonato nacional. Uns 28. Mas não: se na Espanha, que hoje tem o melhor futebol do mundo o campeonato tem 20 times, por que aqui teria mais que isso?

Acontece que a Espanha é pouco mais que o estado de São Paulo, e seus times também. Tem o Barcelona, o Real Madrid, e o que mais? Na lista dos cem times do ranking, aparece o Atlético de Madrid em 25o lugar, junto com o nosso Corinthians, o Valencia em 35o e o Sevilla em 57o. E só. Enquanto isso, dos times paulistas, o São Paulo aparece em 8o, o Santos em 17o, o Palmeiras em 23o e o Corinthians e, 25o.

E há no ranking times do Rio, de Minas e do Rio Grande do Sul. Sem contar que uns bons times de outros estados não aparecem, assim como bons times de outros países.

Então, minha proposta – pegando como base esse ranking mundial – se justifica.

Num exercício de quem tem tempo a perder, “analisei” o ranking da Folha (não me esquecendo que ele tem um quê de estatística – mostra muito mas esconde o principal, mas valho-me da credibilidade dessas coisas entre os outros) e vi que estamos bem na parada.

Faço aqui um intervalo para lembrar o que me disse meu amigo Hanneman: “Nelson Rodrigues dizia que a seleção brasileira é a pátria de chuteiras, mas hoje, com prisões de cartolas e outros que não ousam viajar para o exterior para não acabarem na cadeia também, adaptaria para a pátria de tornozeleiras”.

Bom, volto ao meu exercício de quem não tem o que fazer.

Se pegarmos só os 50 melhores do ranking mundial, o Brasil tem dez times entre eles (o número entre parênteses seguindo cada um indica a classificação em que ele aparece): São Paulo (8), Santos (17), Cruzeiro e Internacional (21), Grêmio e Palmeiras (23), Corinthians (25), Flamengo (30), Vasco (37) e Atlético Mineiro (46). Depois disso, entre os cem melhores, ainda temos o Fluminense (91). Dez entre os 50; 11 entre os cem é ou não é muito?

Depois do Brasil, quem tem mais times na parada é a Argentina: Boca Juniors (4), Independiente (7), River Plate (14), Estudiantes (18), Vélez Sarfield (35), Racing e San Lorenzo (37), Newel’s Old Boys (60) e Lanús (91). Ou seja, los hermanos têm 7 entre os 50 maiorais; 9 entre os cem.

Enquanto isso, a Espanha dos dois timaços só têm 3 entre os 50 do topo da lista; 4 entre os cem.

E a Alemanha, outra potência? Tem o Bayern de Munique (5), o Borussia Dortmund (29), o Hamburgo (41), o Bayer Mönchengladbach que nunca ouvi falar (55), o Enfracht Frankfurt que também desconheço (73) e o Bayer Leverkusen (83). Ou seja: 3 entre os 50; 6 entre os cem.

A Itália? Ah, lá vai: Milan (2), Juventus (8), Inter de Milão (12), Fiorentina e Parma (60), Sampdoria (73) e Roma (83). São 3 entre os 50 melhor classificados; 7 entre os cem.

Lembro que, se aqui temo times que, se ganhassem o campeonato, seriam pura zebra, na Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra também tem. E as zebras às vezes acontecem. Bahia, Sport e algum catarinense têm muito mais chance de ser campeão brasileiro do que um Osasuna de ser campeão espanhol, ou de um Swansea City ou Bournemouth ser campeão inglês. Entretanto eles disputam o campeonato lá. Por sinal, lembro que também o Arsenal e o Liverpool estão fora da lista dos cem melhores do mundo… rê-rê…

Imitando os europeus aqui, e nos limitando a vinte times no campeonato brasileiro, ficam de fora muitos times bem melhores do que alguns da série principal da Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra. Lá, não tem tantos times “na fila” e pode-se dizer que todas as regiões ficam representadas. Aqui, há muitos anos não tem nenhum time da região Norte. Podem dizer que é porque os times de lá não prestam. Mas afirmo que há alguns melhores do que os que disputam certos campeonatos de ponta na Europa. Vejam que, ao lado do Barcelona e do Real Madrid, disputam o campeonato espanhol times como o Eibar, o Betis, o Málaga, o Levante, o Rayo Vallecano, o Sporting Gijón e o Getafe. Na Itália, tem o Chievo, o Atalanta, o Sassuolo, o Hellas Verona… Na Alemanha, tem o Hoffenhein, o Darmstadt 98… Na França, tem o Bastia, o Gazélec Ajaccio, o Troyes… Fazem parte do “show”, não é? E de vez em quando provocam tropeções dos grandalhões, assim como fazia com frequência o Juventus no campeonato paulista, que por isso ficou conhecido como “moleque travesso”.

Por tudo isso, defendi e defendo que tenha pelo menos um time de cada região. Lembrei anteriormente aqui que o Paysandu é um time bom e com uma torcida enorme, extrapolando as fronteiras do Pará. E lota o estádio. E disse: “Quero o Paysandu na série A”. Ele quase chegou lá em 2015, mas não deu. Porém, continuo querendo.

E tem o Centro-Oeste, que estava representado apenas pelo Goiás, que caiu no fim do ano porque respeitou as exigências da CBF de não gastar mais do que podia e fazer dívidas. A exigência é uma espécie de “fair play financeiro”, ou uma “lei de responsabilidade fiscal” a ser seguida pelos clubes. O Goiás obedeceu e com pouca grana não reforçou o time, para equilibrar o orçamento. Enquanto isso, times grandes estão atolados em dívida e não dão bola para as exigências da CBF. E não seguindo as regras, escaparam do rebaixamento.

O Goiás entrou na justiça desportiva para não cair. Não gosto do tapetão. Mas continuo querendo um campeonato “brasileiro” mesmo. Não um do Sudeste e Sul, com um pouquinho de Nordeste. É certo que na Europa estão os melhores times da atualidade. Mas são poucos por país, lá tem um monte de timecos disputando campeonatos nacionais. Aqui, continuo querendo 28 times na série.

Em certa altura do campeonato da série B, cheguei a pensar que entre os quatro que pulariam para a série A poderiam estar o Luverdense (do Mato Grosso), o Sampaio Correia (do Maranhão) e o Paysandu. Mas não deu. Eu gostaria muito que isso tivesse acontecido.

Podem achar que quem defende isso é maluco ou não entendenada de futebol. Tudo bem… Nada de estranhar para quem torce pelo Bangu no Rio, para o América em Minas e para o Ypiranga na Bahia. E eu torço.

Foto: Divulgação/Site do Paysandu