14 de setembro de 2018, 16h05

Gabi Oliveira, do canal DePretas: Precisamos falar sobre estética negra

Em entrevista exclusiva à Fórum, a jovem youtuber fala sobre a importância da representatividade das mulheres negras

Foto: Reprodução Instagram

“Nós que crescemos nos anos 80, 90, sabemos o quão complexo foi ter uma representação na grande mídia totalmente oposta ao que nós somos esteticamente.” Com essa reflexão, a jovem carioca Gabriela Oliveira fala
da importância de representatividade da mulher negra. Gabi criou o canal DePretas no Youtube em 2015, hoje já são mais de 300 mil inscritos. Em seus vídeos, ela aborda assuntos que vão desde as relações étnico-raciais
à estética da mulher negra. Gabriela está na lista de mulheres inspiradoras da Think Olga e já palestrou no Latin America Education Forum (LAEF), na Universidade de Harvard.

Gabi iniciou o canal após cursar comunicação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e desenvolver uma pesquisa sobre o papel das redes sociais na valorização
da estética da mulher negra. Na época, ela analisou grupos do Facebook que falavam sobre transição capilar, blogs e canais no youtube. A partir disso surgiu o interesse em criar conteúdo com foco na estética negra.

Confira a entrevista.

Fórum – Como você se sente neste papel de inspirar outras mulheres negras?

Gabi Oliveira – Eu fico muito feliz quando percebo que, de alguma forma, inspiro essas mulheres que, assim como eu, são pouco representadas, principalmente pela mídia tradicional. O que eu percebo é que elas se identificam porque nós somos parecidas, temos sonhos parecidos, coisas a conquistar. Fico realmente muito grata por essa oportunidade. E quando eu falo em representação não é qualquer representação, como por muitas vezes na mídia tradicional, sempre na mesma posição, com o mesmo estereótipo. Hoje a gente tem a opção de trazer uma nova percepção sobre o que é ser uma mulher negra no Brasil, não é fácil. Mas é muito gratificante e eu me sinto muito feliz.

Fórum – Como você analisa a representatividade das mulheres negras na mídia tradicional? Qual a importância das redes sociais e Youtube nesse sentido de levar a mensagem, principalmente às garotas adolescentes
que se envergonham de seus traços?

Gabi Oliveira – Pra mim o mais importante é nos termos representações positivas de pessoas negras, representação dessas pessoas em todas as posições. Isso é muito significativo. Trazendo para o campo da estética é
muito interessante perceber o impacto que essa representatividade pode causar. Nós que crescemos nos anos 80, 90, sabemos o quão complexo foi ter uma representação na grande mídia totalmente oposta ao que nós somos esteticamente, causando quase um autoflagelamento ao tentar se aproximar daquele padrão exibido ali. E entramos em todo aquele processo de alisar os cabelos, esconder os traços, esconder até o sorriso. E por isso falar de estética nos dias de hoje ainda é tão importante, para que não se repita tudo isso.

Fórum – Hoje ainda vemos muitos casos de racismo no Brasil. O que você acha que é preciso para reverter esse quadro?

Gabi Oliveira – Particularmente eu não acredito na ideia de que o racismo um dia vai acabar, o meu entendimento de melhora em relação aos casos que acontecem é que precisamos de punições que façam com que as pessoas tenham medo mesmo de expressar qualquer atitude racista. E quando eu falo em punição eu não falo em cadeia, porque eu não acredito nesse tipo de punição, mas talvez uma punição que mecha com o ‘bolso’. A gente está em uma sociedade capitalista e eu acredito que essa é uma forma é uma das saídas para esses casos, outra saída é através da inclusão e da convivência entre pessoas nos espaços que não são ocupados por pessoas negras, acredito no poder da educação e na melhor divisão de espaço e na conscientização de pessoas negras para que possam se defender nesses casos.

Fórum – Como você lida com comentários e situações preconceituosas? Já recebeu em seu canal ofensas? Como é a resposta dos espectadores?

Gabi Oliveira – A maior parte das situações que eu vivo relacionadas ao racismo são na internet e redes sociais. Considero que já aprendi a lidar com esses comentários e que não devo me deixar abalar por esse tipo de ofensa. Eu denuncio e ignoro. E às vezes compartilho para mostrar o quanto essas pessoas são preconceituosas.

Fórum – Como influenciadora, como você enxerga o fato e a cobrança por tomar uma posição política e qual a importância desta atitude para você?

Gabi Oliveira – Nesse período de eleição eu tenho refletido muito sobre essas questões e cheguei à conclusão que, ao meu ver, a minha posição nessa situação é incentivar a pesquisa e mostrar formas que essa pesquisa pode ser feita, para que as pessoas, a partir disso, decidam por si e sejam conscientes. Eu sei que muita gente toma o que eu falo como verdade, então, principalmente em um momento como este, eu tenho que tomar cuidado. O meu papel é como o de um professor, mostrar os caminhos, mas sem impor a minha opinião.

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