21 de dezembro de 2014, 21h08

A Gangue e a observação da vida humana, por Daniel de Andrade Lima

 

 

 

 

A linguagem parece imprescindível para a compreensão de um contexto diferente ao do sujeito. O ser humano tem grande facilidade para entender intenções diversas, diferenciando atitudes ameaçadoras de não ameaçadoras, o que configura, provavelmente, uma das formas de comunicação mais básicas da espécie: a empatia emocional entre indivíduos. Ser inserido num ambiente em que a complexidade dos sistemas simbólicos e seus códigos não são legíveis nos leva a este estado básico de alerta e compreensão das vontades e, sem linguagem, voltamos a absorver apenas a base.

Em A Gangue (Miroslav Slabohpitsky, 2014), somos, assim como o protagonista, arremessados numa escola interna para surdo-mudos, um ambiente inóspito e intraduzível. Desde a primeira cena, de longe, em tempo real e à distância, percebemos que não somos e dificilmente seremos o eu-lírico do filme. Não entendemos o que se passa a não ser se por uma rede de suposições, como quem vê uma briga no apartamento vizinho através de um binóculo.

Como indica o título e o burburinho da crítica internacional, a escola de surdo-mudos abriga uma violenta gangue de jovens, obscena e amoral. De longe, compreendemos quem é o líder, o processo de entrada, a cotidianização dos crimes diários. A princípio, tudo com um grande estranhamento, sem saber aonde cada paço levará.

As cenas longas, distantes, sem cortes e sem espaços para percepções e afecções provavelmente são mais distanciadoras do que a incompreensível linguagem de sinais que, na verdade, é surpreendentemente esclarecedora, já que nos gestos rápidos e precisos é possível distinguir emoções quase como que onomatopeias visuais, resultado da linguagem corporalizada.

Passados alguns trinta minutos de filme, a busca pela compreensão plena já deixa de ser necessária e dá lugar à habituação de não entender a trama em suas reviravoltas, mas em suas intenções carnais, na efervescência de sentimentos e desejos. Na crueza como um todo.

Crueza, inclusive, é palavra de ordem no filme: sem trilha sonora, não nos diz o que sentir. Espectadores, acostumados com as explosões e violência hiperbólica de Hollywood, tendemos a questionar a veracidade das violências que, uma vez entendidas como reais, nos leva ao lugar de retorno, da comunicação mais básica entre indivíduos, a empatia da espécie.

Num ambiente que não é nosso, podemos nos observar à distância, ver nossas reações, chorar por nossas próprias mortes e acompanhar nossas pequenices, sem entender todas elas. É impossível falar de A Gangue sem falar em pertencimento, sem reconhecimento. Imagino que todo o cinema prenda a respiração à cada morte violenta do filme porque, em algum lugar deles, uma perda violenta acontece. Assim, com um grande feito, o filme nos lembra da nossa conexão mais básica, desconstrói parcialmente um dos interditos que a linguagem constrói, nos lembra que somos humanos.


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