Anarca é a mãe

13 de agosto de 2015, 08h04

Gorda!

Eu brincando

Eu, brincando.

Ensaiei escrever a respeito disso aqui no blog umas tantas vezes, mas em todas recuei, porque não queria passar a mensagem errada. Daí, li este excelente artigo da Clara Averbuck e tomei coragem.

Eu fui criada para achar que minha função primordial na vida era ser bonita. Só que isso me criou um problema, afinal, eu nunca serei realmente bonita, pelo menos não de acordo com os padrões de beleza vigentes. Eu não sou branca, não tenho os olhos certos, o nariz certo, o formato certo, de corpo ou de face. O resultado foi uma ansiedade, um desespero para me adequar ao inatingível, que envolveu, também, pela maior parte da minha vida, um desejo doentio de ser magra.

Doentio? Sim, doentio. Muito mais doentio do que colesterol alto, glicemia descontrolada, pressão alta. Porque eu estava disposta a me machucar, a me ferir, a me matar, se fosse necessário, para emagrecer. Aliás, nas muitas vezes em que pensei em morrer, especialmente como adolescente, a primeira coisa que vinha na minha cabeça era se eu ia ser um cadáver gordo, cujo caixão as pessoas carregariam até a cova fazendo piadinhas.

Isso é saudável?

Tive a fase de induzir vômito. Tive a fase de me negar a comer. Tive a fase de fazer de conta que não estava me privando porque trocava a palavra regime por “reeducação alimentar”. Tive a fase dos chás, da sopa, da água, da beringela, do alho, do limão, do aipo, da cenoura…

O interessante é que, a cada fase dessas, quando eu voltava ao normal – sim, ao normal, a uma vida que não girava em torno de emagrecer e não engordar e me punir por engordar –, eu engordava mais. E mais. E mais. E, a cada vez que um novo regime começava, minha estaca zero era mais e mais alta.

Demorei muito tempo para me dar conta de que o que eu tinha era um problema de cabeça, não de barriga. Que eu não tinha simplesmente um apetite voraz – ou “falta de vergonha na cara”, como a gordofobia nos ensina.

Foi o feminismo que me ajudou a ver isso, ao me despir do meu preconceito contra mim mesma, ao me ensinar o que é padrão de beleza e como ele é massacrante para todas as mulheres, mesmo as que conseguem se aproximar dele, ao me mostrar que eu era mais que a minha aparência física, ao me dar as ferramentas para me acolher, me aceitar.

Aos poucos, fui parando de correr atrás do meu próprio rabo e comecei a perceber certas correlações na minha vida. Por exemplo, teve um tempo em que, quando eu estava acordada e não estava trabalhando, estava fazendo exercícios. Teve um tempo em que eu trabalhava das sete da manhã às onze da noite. Teve um tempo em que eu  passava todo o meu tempo livre no pc, jogando. Teve um tempo em que eu bebia até cair todos os dias.

Eram tempos em que toda a minha existência parecia devotada a um único tipo de atividade. Como esses, houve muitos outros. O que eles tinham em comum? Eram momentos em que eu estava obstinadamente fazendo alguma dieta. Em que eu não podia me entregar à minha válvula de escape usual, a comida, e então focava em alguma outra coisa – e com muito mais furor, já que só o fato de não poder comer em si aumentava minha angústia e, logo, minha necessidade de escape.

Estudando o meu caso, cheguei à conclusão de que o meu comportamento com a comida era compulsivo. Compulsão alimentar. A comida era só o objeto, a via de manifestação da minha compulsão, esta própria um sintoma de algo muito maior e mais profundo. Parti, então, em busca de entender o que isso poderia ser, começando por analisar o que é que me levava a comer descontroladamente.

Primeiro percebi em mim todas as neuroses ligadas à comida com que a criação tradicional costuma nos presentear: a síndrome da lata de lixo (não pode sobrar nada no prato, se sobrar, a gente come para não desperdiçar), o “comer para agradar” (mesmo já estando de barriga cheia, mesmo estando uma bosta, comer para a outra pessoa não se sentir mal), o “comer para não perder a oportunidade” (que inclui o “comer senão vai acabar”), a “comida-cafuné” (quando a gente associa comida a carinho, alegria ou a alguma memória, daí come quando está precisando de um afago, de animação, ou com saudade).

Daí encontrei o machismo de não querer ser uma mulherzinha, né? Comendo pouquinho, saladinha. Como aspirante a “cool girl, eu um dia me orgulhei de bater pratadas maiores que as de homens com o dobro do meu tamanho.

Além disso, comer, num momento de ansiedade, muitas vezes ajudava a engolir sentimentos indesejados, mastigar frustrações, deglutir a angústia. Até animais fazem isso. Mas não reconhecemos tão facilmente quando acontece com a gente. Comer era uma fuga. Quando eu não tinha como ou para onde fugir, eu fugia para dentro da minha barriga. Num momento de agonia intensa, comer parece uma boa forma de conseguir alívio imediato, ainda que efêmero.

Enxerguei, também, que a minha rebeldia irrompia toda vez que eu me sentia inadequada, reprovada. E eu me sentia muito inadequada e reprovada – e culpada – quando comia, o que me levava a querer comer mais e mais, como autoafirmação. Era por isso que a privação imposta pelos regimes funcionava como um estilingue para mim – num primeiro momento, eu ia na direção que eu queria ir e então era impulsionada muito mais longe e com muito mais velocidade na direção oposta. Aliás, quando eu me privava, eu criava vontades que não tinha antes: enfiei na cabeça que nunca mais comeria açúcar e passei a ser tarada por doces, coisa que nunca havia sido; enfiei na cabeça que ia colocar de lado o glúten, não conseguia parar de comer pão, massa, bolo.

Hoje eu acredito que dieta faz muito mais mal que bem. E já tem nutricionista falando isso.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, eu me punia com a comida. Em algum momento perdido do meu passado, fui forçada a comer como forma de punição. Assim, em momentos em que sentia raiva de mim mesma, eu me agredia me forçando a comer. Essa visão punitiva da comida era também alimentada pela minha tendência autodestrutiva. Já vi pessoas se referirem à compulsão alimentar como uma forma de automutilação e acho que isso faz muito sentido. É uma coisa estranha e ruim comer sem querer mas não conseguir parar.

Descascando aquela cebola emocional, a sensação de inadequação e o medo de ser rejeitada, medo do desamparo, do abandono, vindos de traumas passados, especialmente na infância. É daí que vem tanto a carência e a necessidade desesperada de agradar e ser aprovada, quanto a conduta antissocial e a rebeldia agressiva, como forma de proteção, de defesa, que se misturavam em mim parecendo opostas e contraditórias, quando, na verdade, sempre foram complementares.

Resolvi fazer um exercício de aceitação. Passei a comer na hora que queria, o que queria, do jeito que queria, na quantidade que queria, sem me importar com ganho de peso. Sem pedir desculpas por comer, sem me justificar por comer, sem racionalizar, sem explicar, nem para mim, nem para ninguém. Queria comer? Comia.

Comprava roupas para mim que me pareciam confortáveis e não ficava me recriminando por engordar. No começo deste ano, fui à praia e, pela primeira vez em mais de década, me senti verdadeiramente à vontade lá. Eu e os meus, à época, mais de cem quilos. Mais de cento e dez quilos, na verdade.

Eu estava livre. Não é à toa que eu digo que o feminismo é o melhor presente que uma mulher pode se dar. Eu agora me via no espelho e enxergava a mim mesma, não um conjunto de inadequações. Uma pessoa. Uma mulher. Eu.

Daí que, quando eu parei de me sentir mal por comer, quando passei a cagar regiamente para engordar ou emagrecer, quando finalmente me aceitei gorda, eu emagreci. De repente, começou a me bastar um pedaço de torresmo. Um prato de feijoada. Uma mordida no quindim.

E agora, sem o amargor da culpa e da vergonha, o gosto da comida era outro. Eu me permitia comer o que tinha vontade e comecei a sentir vontades diferentes. Por exemplo, de comer uma fruta ao invés de um doce, uma salada ao invés de um prato de massa. Não algo forçado, “estou de dieta” ou “isso é melhor para mim”, mas vontade mesmo. Engraçado que eu vejo nas crianças que elas são capazes de se regular sozinhas: que, se não intervirmos, elas naturalmente tendem a buscam alimentos com os nutrientes de que precisam, se os tiverem à sua disposição. Só não imaginava que o meu corpo adulto, “viciado”, ainda era capaz disso.

Mas ele era. Ele é.

Emagrecendo rápido, minha vontade e o meu prazer de me mexer começaram a crescer e eu voltei a me exercitar, mas fazendo só o que eu gosto e só quando estou a fim. Sem a loucura de cumprir metas, sem segundas intenções, sem obrigação – o movimento pelo movimento, pelas endorfinas, pelo bem-estar que me dá. Porque o que estraga é a poluição “no pain, no gain” da gordofobia e da imposição da “saúde”, e a obrigação de estar bonita e apresentável o tempo todo, mesmo enquanto suada, suja e bufando. Sem isso, é gostoso a gente jogar bola, correr, pular, dançar, esmurrar um saco de pancadas, subir em árvore… brincar. Brincar.

Recentemente, tive alguns episódios compulsivos. Além de ser uma fase de muito estresse, muita gente tem elogiado a minha aparência e sinto que isso, por incrível que pareça, tem acionado meus gatilhos de compulsão, porque eu me sinto pressionada a não decepcioná-las, a não engordar de volta, não perder a aprovação.*

Voltei a engordar. Me senti mal, a princípio. Daí me lembrei que engordar não é o problema. Afinal, guardei as roupas de quando estava mais gorda e tenho certeza de que as pessoas serão capazes de viver com o fato de que eu, assim como emagreço, engordo. E não seria a primeira vez, né?

A parte mais gostosa de tudo o que se passou foi essa sensação de desprendimento, de desamarrar, de liberdade de que eu hoje gozo. Não vivo 24h por dia pensando na próxima refeição, nem em como evitá-la, ou “emagrecê-la”, e com isso a comida perde, na maior parte do tempo, seu valor simbólico de campo de batalha de mim contra mim mesma e volta a ser comida, apenas, nada mais, nada menos.

Não vou mentir que nunca tenha recaídas – depois de 34 anos de lavagem cerebral, seria impossível que não as tivesse. Mas eu hoje consigo me lembrar que meu valor como pessoa não decresce a cada centímetro que minha cintura aumenta.

Mais do que asas, o feminismo nos dá novos olhos. E de repente a gente se vê diante de um mundo que, na realidade, não é nem mais bonito, nem mais feio; só mais verdadeiro.


 

* Não é um indireta para niguém, ok? O problema, no caso, é a minha forma de lidar com isso, não as outras pessoas. Claro que cabe a problematização, lindamente feita pela Clara Averbuck que no texto que eu linkei, sobre o porquê de acharmos elogioso e nos sentirmos elogiades quando pessoas dizem que emagrecemos, mas eu sei que a maior parte das pessoas que emagrece se sente bem em ouvir isso e que quem fala isso costuma, portanto, ter a melhor das intenções.