12 de novembro de 2018, 23h09

Governabilidade, só se combinarem com o povo (I)

Yuri Martins Fontes: “Tópicos para análise da tempestade e da resistência: organização popular, esperança e papel do líder – para além de determinismos ou derrotismos confortáveis”

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Embora não estejamos (ainda) na iminência da instauração do fascismo enquanto regime pleno – como pregam os místicos catastrofistas –, temos sem dúvida um fascista eleito. É, portanto, época para reflexões autocríticas e prognósticos que ajudem a apontar novos rumos para a luta, mas sem recairmos em projeções deterministas, positivas ou negativas, que desmobilizam.

No planejamento tático de uma frente progressista, não cabem posições sectárias, como o ativismo meramente intelectual ou professoral que não logra transformar boas ideias em projetos sociais consistentes. Para além do teor “revolucionário” de discursos de rede social, é fundamental que a esquerda retome sistematicamente – no seu cotidiano – o trabalho de base.

I- O desespero é uma forma de vaidade

Doutos puristas da ética, socialistas engravatados, ou mesmo os amantes de debates sobre a penúria do povo, em mesas fartas e com bons vinhos (afinal, todo homem é filho dos deuses), limitam seu próprio desenvolvimento humano, se não aprendem também a pisar o chão de terra – que é onde se verificam as verdades das teorias.

O derrotismo desesperado (“nada vale a pena”) é tão confortável quanto o otimismo deslumbrado (“basta esperar, tudo caminha bem”).

Como a psicologia talvez explique, tais posições “extremas” (e não “radicais”) só servem para justificar a aceitação da zona de conforto pequeno-burguesa. Em que difere a vida mansa de um “marxista de papel”, encastelado no escritório ou academia, do dia a dia morno que desfruta o restante da classe média suicida bolsonarista?

A unidade prática das forças sociais é maior do que qualquer projeto teórico pessoal. E o desespero é uma forma de vaidade.

II- Crise estrutural e um novo “sentido” para as esquerdas

A eleição foi uma farsa obscena, explicitamente fraudada, manipulada por mentiras em massa, após a série de falcatruas dos Tribunais, Congresso e mídia empresarial, o que merece um terceiro turno de intensos protestos populares.

Mas a ascensão de um poste neoliberal de viés fascista não resulta somente das ilusões de uma população em grandes proporções analfabeta política, sistematicamente enganada por telejornais e recentemente pela novidade dos criminosos disparos de “fake news” em redes sociais.

É preciso ir além na análise: avaliar o descontentamento “objetivo” do povo, que sofre há uma década a quebra econômica de 2008, que se eterniza (como agravamento da crise estrutural – automação/desemprego” – que segundo o pensador e economista belga Ernest Mandel, será de “longa duração”).

Neste cenário de disputa acirrada, a esquerda precisa reencontrar seu “sentido” – olhar para as amplas populações de excluídos que ganham protagonismo nesta época de declínio do sistema capitalista. Como disse Mano Brown, no ato de Haddad: “Se não conseguir falar a língua do povo, vai perder mesmo”.

III- O rei está nu: Moro, cabo-eleitoral do fascista

Com a atitude indecente do pequeno-juiz Moro, o quadro fica explícito: o rei está nu. O golpe chega assim em sua etapa mais sórdida, e já não tem vergonha de desnudar suas vilezas antidemocráticas.

Aliás, a “democracia liberal” (ou melhor, “eleitoral”) só existe quando a esquerda não ganha.

Mas no Louco – no Monstro – que é apenas um frágil fantoche do trator neoliberal em crise – está agora refletida, e nua, a “famiglia” brasileira, esta massa de manobra fútil e barata de que se compõe majoritariamente a classe média: parcela instruída “tecnicamente”, mas politicamente semianalfabeta. Ainda assim, breve verão que o rei está nu – mesmo que não o confessem. Quanto mais resistirem ao óbvio, mais a economia do país afundará, e mais os ideais humanos tendem a se levantar contra a barbárie que está nítida em cada gesto, em cada ministro amador, torpe e criminoso (de gatunos especializados, Guedes e Moro, ao astronauta garoto-propaganda ou a figurante global do “ambiente”, Maitê Proença).

Para mostrar a irracionalidade de um fascista, deixe-o falar, para demonstrar sua estupidez, basta que aja.

IV- Mercado versus Humanidade

A hegemonia do que é humano já supera, ao menos no ideário popular, a hegemonia em decadência do animalesco “mercado”, cujo maior valor é a “competitividade”, a competição suja e desigual (apesar de no campo do poder político, econômico e militar, o capital ainda dominar com vantagem).

O problema que os economistas-do-mercado não podem resolver, com sua estreita objetividade científica (que eles supõem ou vendem como “exata”) é o de que: para além de suas teorias matematizantes, positivistas, está o Ser Humano. No cálculo dos resultados, subestimam o poder do “sujeito”: das subjetividades agredidas. Esquecem de combinar a “verdade” de suas teses com o povo, que é sempre quem arca com o maior sofrimento.

Como mostra a História, cedo ou tarde a população refuta as teorias rasas, e vêm à luz os interesses escusos (veja-se a impotência da pregação neoliberal em vencer eleições há duas décadas).

V- O Poste líbero-fascista é pouco hábil: mas o sistema é potente

Bolsonaro é pouco culto, pouco inteligente e inábil – e não esconde isto (a ponto de zombar de si mesmo admitindo se valer de um “posto-ipiranga”).

Contudo, não devemos deixar de ponderar que o sistema a que este fantoche representa é poderoso, e em momentos de desestabilização econômica mundial torna-se ainda mais violento. O tolo Poste, com dificuldades para terminar uma frase, pode ter (e terá) complicações para governar: para tecer alianças ou estimular confianças no centrão fisiológico (sempre dedicado ao “desenvolvimento” de seu patrimônio pessoal).

Conforme a analista Tereza Cruvinel, a “prensa” defendida pelo futuro ministro Guedes (o Posto do Poste, denunciado por calote milionário em aposentados) foi logo repelida. De fato, até o direitista tucano T. Jereissati, que pode presidir o Senado, o advertiu: se insistir em votar mudanças na Previdência com esse Congresso de “legitimidade vencida”, o novo governo “pode sofrer a primeira derrota antes da posse”.

Já o presidente do Congresso, Eunício O. (MDB) disse que Guedes lhe pressionou para pautar a contrarreforma da Previdência: “Ou o PT volta”! Ao que ele contestou: “Não estou preocupado com a volta ou não do PT… [Seu governo] deve saber o que quer para a frente [pois] assumiu a responsabilidade de governar o Brasil… Ninguém vai interferir nesse Poder [Legislativo]”.

Mas o militar-expulso eleito pode também trilhar o caminho da força bruta – e para isto ergueu seu capataz Moro. O jogo está aberto: o fascista pode cair, ser derrubado pelo descontentamento das ruas (apesar das instituições coniventes); ou pode encontrar formas de resistir, submetendo-se ainda mais ao projeto neoliberal (que em última análise é quem o elegeu).

Qualquer que seja o caminho, uma coisa é certa: o desgaste político da direita se acentuará, pois a população de modo geral já tem alguma consciência de seus direitos. E as grandes ideias, como nota o marxista húngaro Lukács: “conservam-se espontaneamente na memória da humanidade”, pois preparam o homem para a liberdade. E aliás, nem por lei nem por decreto se apaga da História a força de pensamento profundo como o do internacionalmente reconhecido Paulo Freire.

Veja-se o recado do povo pobre a Trump na recente votação parlamentar dos EUA; ou a trajetória ascendente do “socialismo democrático” nesse país com autoritárias leis “anticomunistas”, em que mais da metade dos jovens entre 18 e 29 anos afirmam que “preferem viver numa sociedade socialista ou comunista, do que numa capitalista ou fascista” (pesquisa de 2017)!

Em um processo de economia travada e intensa repressão, as elites também se prejudicam – pois perdem de vez sua já desgastada máscara de classe dirigente “racional”.

[Na próxima coluna, observemos como o comandante deve produzir ânimo em seus comandados, sem contudo ocultar as possibilidades da derrota. Vejamos o significado do aforismo de Gramsci, segundo o qual devemos manter o “pessimismo da razão” articulado com o “otimismo da vontade” (a utopia que anima a ação). E abordemos a diferença crucial entre as análises que buscam ser objetivas (científicas), e aquelas que são típicas da subjetividade carismática de um líder (da capacidade intuitiva). São elementos que se deve ter em conta na construção popular da não governabilidade do fascista, retrocesso imposto à nação pelo projeto neoliberal em crise, após anos de golpismo sujo].

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