24 de maio de 2018, 22h42

Greve dos caminhoneiros: eles têm razão?

Em novo artigo, Mouzar Benedito faz breves considerações sobre a greve dos caminhoneiros e relembra um "causo de caminhoneiro" que chegou a publicar em livro. Confira

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

(Tenham ou não, conto aqui um causo de caminhoneiro dos tempos em que se viajava de carona no Brasil. A famosa “loira da estrada”. Publiquei num livro, mas como quase ninguém leu esse livro, repito aqui.)

Só que antes de contar o causo, faço umas considerações.

Minha opinião é meio controversa. Em outros tempos viajei muito de carona em caminhões, conversava muito com os caminhoneiros em viagens demoradas, dias e dias na estrada. É duro para eles. Ainda mais quando pegam umas estradas horrorosas, em que o caminhão atola e pode ficar muitos dias ali, paradão.

Mas quando vejo o posicionamento político deles, às vezes penso: “Merecem levar uns trancos”. Quase sempre optam pela direita. Nas eleições de FHC contra Lula, tiveram papel importante para eleger FHC, depois chiaram com preços de pedágios e de combustíveis. Sem contar que durante o governo FHC as estradas federais que não foram privatizadas foram abandonadas. Viajei pelo Nordeste e me lembro de crianças enchendo de terra os muitos buracos do asfalto que faziam a gente andar em zigue-zague na estrada. Faziam isso pra ganhar umas moedas. Mas continuaram (pelo menos os que ouvi) com seus discursos de direita.

Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff (repito: os que ouvi) também tinham um posicionamento bem direitista, achavam que com a queda dela chegariam ao paraíso, com um governo bonzinho para eles.

Porém, acho que o que deveria ser colocado em questão nessa história toda é o transporte de mercadorias, de longa distância, feito por caminhões. Coisas do Brasil. Os trens e a navegação de cabotagem foram trucidados há muitos anos, para beneficiar o transporte rodoviário, muito mais caro e problemático.

E me lembro de uma coisa que não tem nada com o Brasil: na derrubada de Allende, no Chile, os caminhoneiros tiveram um papel importantíssimo. Não foi bem “culpa” deles: lá, o transporte de mercadorias era (e é) feito principalmente por caminhões. A CIA pagou uma grana aos caminhoneiros para fazerem greve. O país ficou numa situação trágica, com o desabastecimento de bens essenciais. Os caminhoneiros ganhavam da CIA, por dia de greve, muitas vezes mais do que ganhariam se trabalhassem normalmente. Preferiram parar e ajudaram (embora com essa “justificativa” de que estavam ganhando mais sem trabalhar) instalar no país uma ditadura das mais sangrentas.

E aqui, agora? Em poucos dias de greve, o Brasil já mostra desabastecimento de um monte de coisas, e fica uma discussão: eles estão chantageando? O (des)governo atual deveria endurecer com eles ou ceder? O que pode acontecer: falam tanto no desabastecimento da Venezuela (por outras causas, não é “culpa” dos caminhoneiros)… e se as prateleiras dos supermercados brasileiros ficarem vazias? E os aeroportos parados por falta de combustível? E ônibus urbanos, também sem combustíveis? E donos de postos aproveitando a onda para mandar os preços lá pro alto?

E a produção agrícola e industrial não chegando aos consumidores? Já vi matéria de TV falando que o preço do saco de batata pulou de R$ 75,00 para R$ 500,00?

Como ficará nossa classe média acostumada a comodidades se não puder se locomover por falta de combustível e de comprar alguns alimentos e outros bens básicos?

Bom… Lá vai uma história de caminhoneiro que não tem nada a ver com isso. É de outros tempos. Quando, inclusive, eles davam carona sem medo de serem assaltados. E os caroneiros também confiavam neles. É só uma lembrança minha.

Uma loira do outro mundo

— Crezildo, pel’amor de Deus. Não dá carona pra nenhuma loira bonita que estiver na beira da estrada. Principalmente quando estiver começando a escurecer.

Era Anésia falando com seu marido, preocupada com a história que lhe contavam de uma assombração que estava apavorando muitos caminhoneiros na região.

Segundo contaram a Anésia, e ela repetiu várias vezes para seu marido, Crezildo, a tal loira era uma moça que tinha morrido atropelada pedindo carona para ir a uma cidade próxima, onde se encontraria com seu namorado, caminhoneiro também. Depois de uns tempos começou a aparecer na estrada pedindo carona, dizendo que seu namorado era caminhoneiro e que ia se encontrar com ele.

Bonita, sensual, muitos lhe davam carona pensando até em se aproveitar dela em alguma parada. Mas, assim que entrava na cabine e o motorista dava a partida, olhando para a estrada para ver se não vinha nenhum carro, acontecia uma transformação: quando o sujeito virava para ela de novo, via que ela estava cheia de ferimentos, pálida e com dois pedaços de algodão tapando o nariz.

Por causa dessa loira que continuava procurando o namorado depois de morta, dizia a Anésia, meia dúzia de caminhoneiros já foi parar no hospital por perder a direção com o susto, e outros ficaram meio doidos.

Viajou o dia inteiro com a história na cabeça. Não deu carona para ninguém naquela viagem. Nem loira, nem morena, nem homem, nem criança. Desconfiava que todo mundo era assombração.

Viajou o dia inteiro, só parando num restaurante ao lado de um posto de gasolina na hora do almoço. No final da tarde, parou em um posto para abastecer e tomar um banho, pois queria continuar a viagem à noite. Nem ia jantar, para não ficar com preguiça.

Abasteceu o caminhão e o levou ao estacionamento do posto, pegou a toalha, sabonete e roupa limpa, e foi tomar um banho. Quando voltava do banheiro, olhando o final do pôr-do-sol, teve a impressão de que havia alguém dentro da cabina do caminhão. Apressou o passo, chegou lá e viu que tinha mesmo: uma bela loira de cabelos compridos, debruçada na janela do lado direito. Ele nem lembrava se tinha deixado o caminhão aberto, só ficou pálido, deixou cair a toalha, o sabonete e a roupa suja. Olhava para ela sem saber o que falar. Ela foi quem falou:

— Me dá uma carona?

Crezildo saiu correndo, entrou no bar do posto e pediu uma pinga. Teve medo de falar que tinha uma mulher-assombração no seu caminhão. Virou de uma vez só a dose bem servida, pediu outra e virou de novo, e foi lá cheio de coragem tirar satisfação.

A tal loira já tinha descido do caminhão. Estava indo para o bar do posto e o Crezildo olhou suas belas pernas mal cobertas por uma minissaia.

— Eta assombração bonita!

— O quê? — perguntou a loira.

— Tá procurando seu namorado?

— Eu não, meu. Só queria passar uma noite com você. Não precisava sair correndo, pô! Não sou nenhuma assombração!

— Não mesmo?

— Ora, vai pro inferno!…

Crezildo resolveu dormir ali mesmo naquela noite. Achou que não dava para continuar a viagem. Foi jantar e viu na mesa ao lado a loira bebendo cerveja com outro caminhoneiro, animada, dando risadas e contando histórias.

Terminado o jantar, ele foi para o caminhão, ajeitou-se para dormir na cabina, escutou risos, levantou a cabeça e viu a loira e seu acompanhante entrando no caminhão ao lado. E os risos continuaram a noite toda, entremeados com gemidos e gritinhos dela.

Na primeira cidade em que parou, mandou um telegrama para a mulher, que não entendeu nada: “Anésia: vou lhe dar uns tapas quando voltar. Por causa da tua história, perdi uma maravilha. PT saudações. Do seu revoltado Crezildo”.