08 de outubro de 2018, 15h07

Guru da ultra-direita mundial e ex-assessor de Trump atua na campanha das redes sociais de Bolsonaro

Divulgando fake news e material misógino, xenófobo e racista, Steven Bannon concentrou o movimento de extrema-direita nos Estados Unidos que resultou, entre outros incidentes, nos protestos supremacistas brancos na cidade de Charlottesville, em que fascistas desfilaram carregando rifles, suásticas e bandeiras carregadas de preconceitos contra as minorias.

Reprodução/Instagram

Entre muitos dos sites em todo mundo que repercutiram o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil – que levou a disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) para o embate final -, um deles passou despercebido na repercussão feita pela mídia tradicional. Em post com a palavra “breaking” (algo como “urgente”, no jargão jornalístico) em letras maiúsculas o Breitbart News anunciou o resultado em sua página no Facebook, divulgando a matéria com o título: “Conservador Bolsonaro vence o primeiro round da corrida presidencial”.

Idealizado e produzido pelo comentarista conservador Andrew Breitbart, o site tornou-se conhecido quando Steve Bannon assumiu a presidência executiva e alinhou-se à ultra-direita estadunidense. Divulgando fake news e material misógino, xenófobo e racista, Breitbart e Bannon concentraram o movimento de extrema-direita nos Estados Unidos que resultou, entre outros incidentes, nos protestos supremacistas brancos na cidade de Charlottesville, em que fascistas e neonazistas desfilaram carregando rifles, suásticas e bandeiras carregadas de preconceitos contra as minorias.

E o que tem a ver esta história com as eleições no Brasil? Bannon, que atuou como estrategista-chefe de Donald Trump, e atualmente coordena um movimento para espalhar a onda conservadora de ultra-direita em partidos políticos na Europa, se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, e se tornou um “conselheiro” da campanha.

“Bannon se colocou à disposição para ajudar. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”, disse Eduardo, em entrevista à revista Época. “O mesmo tratamento que tem o Trump lá é o que se dispensa ao Bolsonaro aqui. Todos esses rótulos e tudo mais. É praticamente a mesma coisa. Os dois brigam contra o establishment”, complementou o filho de Bolsonaro.

 

 

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(POR🇵🇹) Tive a prazer de conhecer hoje em Nova York Steve Bannon @steve_bannon , estrategista da campanha presidencial de Donald Trump 2016 @realdonaldtrump . Ocasião em que tivemos uma excelente conversa e compartilhamos da mesma visão de mundo. Sr. Bannon afirmou ser um entusiasta da campanha de Jair Bolsonaro e certamente estamos em contato para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural. . . (ENG🇬🇧) It was a pleasure to meet today in New York Steve Bannon, strategist in Donald Trump’s 2016 presidential campaign. We had a great conversation and we do share the same worldview. Mr. Bannon said he is an enthusiast of Jair Bolsonaro’s campaign and we are certainly in touch to join forces, especially against cultural marxism.

Uma publicação compartilhada por Eduardo Bolsonaro 1720 (@bolsonarosp) em

Cartilha de Trump na campanha de Bolsonaro
Em sua página no Facebook, o filósofo Rafael Azzi, afirma que as técnicas usadas por Bolsonaro seguem a cartilha criada por Bannon para Trump – e que vem sendo usada nos movimentos de extrema-direita em todo o mundo. “O Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado”, relata.

Quando esteve à frente do Breitbart News, Bannon contratou a Cambridge Analytica. “Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos”, conta Azzi.

Esses perfis foram analisados para ver quais pessoas estavam mais predispostas a acreditar em “teorias conspiratórias” contra o governo. “A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais”, diz o filósofo.

#EleNão
Segundo ele, a tática foi usada por bolsonaristas nos protestos convocados pelas Mulheres contra Bolsonaro, que causou um efeito reverso e fez com que o presidenciável subisse nas pesquisas de intenção de voto.

“Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras”, relata.

Eduardo Bolsonaro, que havia encontrado com Bannon para acertar o apoio à candidatura do pai, foi quem acendeu o estopim, divulgando nas redes sociais um post em que dizia que “as mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene”. Segundo Azzi, essa declaração “pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado””.

Como dialogar com eleitores do Bolsonaro?
Em seu artigo, o filósofo diz que não adianta confrontar os argumentos de bolsonaristas, tampouco acusá-los de serem parte de massa de manobra. “Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva”.

Para ele, é melhor usar uma estratégia inversa. “Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa. Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta”, relata.

Segundo ele, algumas perguntas podem ajudar. “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder?”.

Caso a pessoa insista em mudar o discurso, atacando partidos ou posições de ativistas, como movimentos sociais ou feministas, Azzi afirma que é melhor encerrar a discussão.

“Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim”.