16 de setembro de 2018, 10h44

“Haddad terá maturidade para dar linha própria à sua administração”, diz analista político

Para Antônio Augusto de Queiroz, diretor do DIAP, “há grande possibilidade de que os votos combinados da Manuela, do Haddad e os transferidos por Lula sejam suficientes para garantir o espaço no segundo turno”

Para Antônio Augusto de Queiroz, estima-se que há uma transferência de votos de Lula para Haddad entre 30% e 40% – Foto: Reprodução/YouTube

Depois de diversas tentativas jurídicas para assegurar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde o dia 7 de abril, em Curitiba, a executiva nacional do PT, na última terça-feira (11), formalizou a chapa da coligação “O Povo Feliz de Novo” com Fernando Haddad como candidato a presidente e Manuela D’Ávila (PCdoB), vice. Apesar dos posicionamentos de juristas internacionais e, inclusive, do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), todos favoráveis à manutenção da candidatura de Lula, a Justiça brasileira não permitiu. Diante disso, como fica o cenário eleitoral a cerca de 20 dias do pleito? Lula terá capacidade suficiente para transferir os votos que receberia para o ex-prefeito de São Paulo? Na avaliação de Antônio Augusto de Queiroz, analista político e diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), tudo indica que Haddad vai para o segundo turno, por sua qualidade e por ser uma candidatura muito competitiva. Queiroz vai mais além: “Acho que numa disputa entre Haddad e Bolsonaro, o Haddad tende a sair vitorioso, inclusive, porque terá recomendação de apoio de voto do próprio PSDB e das forças mais à direita do espectro político, que não confiam no estilo autoritário, como seria o eventual governo do Bolsonaro”.

Fórum – Como você acredita que ficará o cenário eleitoral com a confirmação de Fernando Haddad como cabeça de chapa da coligação “O Povo Feliz de Novo”?

Antônio Augusto de Queiroz – Acho que vai haver uma luta por voto útil nas duas principais correntes de pensamento nessa eleição: a centro-direita, numa luta fratricida entre Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB), para garantir uma vaga no segundo turno, e entre Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT), para também assegurar um espaço no segundo turno, muito provavelmente com mais chances para o Haddad. Por isso, as demais candidaturas tendem a perder votos para esses que são mais competitivos e que têm uma capacidade de liderar os votos dos segmentos que representam.

Fórum – Em termos de transferência de votos, é possível mensurar quanto será herdado por Haddad da popularidade do ex-presidente Lula?

Antônio Augusto de Queiroz – Com precisão, não. Mas estima-se que há uma transferência entre 30% e 40%. Isso, com os votos do próprio Haddad, que já tem serviços prestados, nome conhecido, foi ministro da Educação (de 2005 a 2012, nos governos de Lula e Dilma Rousseff), prefeito de São Paulo (de 2013 a 2016), ele chegaria, facilmente, a algo em torno de 15% a 20%, o que daria condição de, efetivamente, disputar para valer a vaga para o segundo turno.

Fórum – Você acredita que essa capacidade de transferência de votos de Lula pode, efetivamente, assegurar a participação de Haddad no segundo turno?

Antônio Augusto de Queiroz – Sim. Há grande possibilidade de que os votos combinados da Manuela D’Ávila (PCdoB – candidata a vice do petista), do Haddad e os transferidos por Lula sejam suficientes para garantir o espaço no segundo turno, disputando com a candidatura, possivelmente, de centro-direita.

Foto: Ricardo Stuckert

Fórum – Como avalia os argumentos de que Haddad, em caso de vitória, vai governar “por procuração” de Lula?

Antônio Augusto de Queiroz – É natural que as pessoas, para desvalorizar a candidatura do Haddad, digam que ele vai ser “um poste” do Lula e que vai agir “por procuração”. Mas Haddad tem maturidade, experiência e conhecimento suficientes para dar uma linha própria à sua administração. E o fará, naturalmente, ouvindo todos os parceiros envolvidos na coligação, particularmente o ex-presidente Lula, mas sem necessariamente se subordinar. Aliás, ele, internamente no PT, tinha uma visão crítica em relação à postura do grupo liderado por Lula. Ele fazia parte do movimento do PT ligado ao Tarso Genro. De modo que ele vai ter uma atuação bastante independente no exercício do mandato. Durante a campanha, naturalmente, vai agir em harmonia com a orientação do Lula, até porque será o Lula que irá contribuir para sua eventual eleição, transferindo os votos que seriam dele.

Fórum – As articulações para inibir a participação de Lula no processo eleitoral podem interferir, de alguma forma, na transferência de votos do ex-presidente para Haddad?

Antônio Augusto de Queiroz – Na medida em que houver inibição da participação de Lula, mais difícil ficará para transferir votos. De qualquer maneira, de onde ele se encontra, pode enviar mensagens por intermédio de seus advogados e reforçar, cada vez mais, a ideia da transferência de votos, seja em recado direto, seja por intermédio de cartas.

Fórum – O que acha do argumento de que o PT demorou muito para definir Haddad como candidato e que, por isso, terá pouco tempo para construir sua candidatura?

Antônio Augusto de Queiroz – Esse argumento é válido, mas o PT tem estrutura suficiente e meios suficientes para fazer chegar ao eleitorado inteiro, através do horário eleitoral e também de mensagens do partido nos pequenos anúncios e nos veículos de comunicação, o nome do Haddad, sua plataforma e sua mensagem. De modo que, embora tenha, de fato, começado um pouco tarde, isso não será um empecilho para que ele seja suficientemente conhecido e que tenha os votos. Acho que o fato de faltarem, aproximadamente, 20 dias de campanha é tempo suficiente para disputar votos com as outras candidaturas.

Fórum – Em sua avaliação, em caso de um segundo turno entre Haddad e Jair Bolsonaro, como ficará o quadro, uma vez que, de acordo com a pesquisa do Ibope mais recente, o petista perde para o candidato do PSL?

Antônio Augusto de Queiroz – Olha, essas pesquisas precisam ser melhor aferidas. Em princípio, o Haddad não é conhecido e o Bolsonaro é muito mais conhecido do que ele. E quando o Haddad for conhecido o suficiente, quando a população souber, efetivamente, que ele é o candidato do Lula e que tem experiência, certamente esse quadro se altera. Acho que numa disputa entre Haddad e Bolsonaro, o Haddad tende a sair vitorioso, inclusive, porque terá recomendação de apoio de voto do próprio PSDB e das forças mais à direita do espectro político, que não confiam no estilo autoritário, como seria o eventual governo do Bolsonaro.