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17 de dezembro de 2015, 14h58

Histórias do golpe: Na manifestação da Paulista, a visão daqueles que testemunharam o golpismo em 1964

A manifestação contra o impeachment em São Paulo contou com uma participação expressiva daqueles que testemunharam um golpe e que, mais de 40 anos depois, enxergam os mesmos atores manipulando a sociedade. "Eu sei o que é uma ditadura, eu sei o que é a tortura e sei o que é a ilegalidade transformada em regime político. Estou aqui para lutar contra isso", disse um dos entrevistados. Confira a segunda parte dos depoimentos.

A manifestação contra o impeachment em São Paulo contou com uma participação expressiva daqueles que testemunharam um golpe e que, mais de 40 anos depois, enxergam os mesmos atores manipulando a sociedade. “Eu sei o que é uma ditadura, eu sei o que é a tortura e sei o que é a ilegalidade transformada em regime político. Estou aqui para lutar contra isso”, disse um dos entrevistados. Confira a segunda parte dos depoimentos Por Ivan Longo “Não vai ter golpe”. Essa é a máxima que vem sendo utilizada por movimentos sociais e de juventude, apoiadores do governo Dilma, e também por...

A manifestação contra o impeachment em São Paulo contou com uma participação expressiva daqueles que testemunharam um golpe e que, mais de 40 anos depois, enxergam os mesmos atores manipulando a sociedade. “Eu sei o que é uma ditadura, eu sei o que é a tortura e sei o que é a ilegalidade transformada em regime político. Estou aqui para lutar contra isso”, disse um dos entrevistados. Confira a segunda parte dos depoimentos

Por Ivan Longo

“Não vai ter golpe”. Essa é a máxima que vem sendo utilizada por movimentos sociais e de juventude, apoiadores do governo Dilma, e também por aqueles que são contra o impeachment e foram às manifestações de rua pelo país nesta quarta-feira (16). O termo faz referência direta a uma movimentação, tanto na sociedade civil quanto no Congresso, pelo impedimento da presidenta Dilma Rousseff sem nenhum tipo de base legal. Para alguns, o uso do termo pode parecer exagero, mas para quem sabe o que, de fato, é um golpe, não é demais dizer que há uma tentativa ilegal em curso.

Entre as 55 mil pessoas, de acordo com o Datafolha – para os manifestantes, foram 70 mil -, que protestavam contra o impeachment em São Paulo, diferentemente de outros atos, boa parte delas era formada por senhores e senhoras com mais de 60 anos. Eles eram jovens na época da ditadura que foi instaurada com o golpe de 1964 e saíram às ruas, mais de 40 anos depois, porque enxergam no atual cenário político o mesmo ambiente criado quando o presidente João Goulart foi derrubado por militares e forças de direita.

“A direita é sempre monolítica, é sempre golpista, sempre perversa e sempre assassina. Essa é a mesma burguesia que deu o golpe em 64. Agora querem dar o golpe em 2015”, disse a atriz de 66 anos Dulce Muniz, que foi perseguida durante a época do regime militar.

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“Eu fui preso político. Aliás, pertencia à mesma organização que a Dilma, a VAR-Palmares. E eu sei o que é uma ditadura, eu sei o que é a tortura, o que é a ilegalidade transformada em regime político, o que é a exceção transformada em regra”, lembrou Antonio Espinosa, professor de 69 anos.

Confira, em duas partes, a íntegra dos depoimentos daqueles que resistiram a um golpe e voltam às ruas mais de 40 anos depois.

SONY DSCEduardo Nogushi, bancário, 68 anos

A gente está em uma democracia e essa democracia está sendo manipulada para que outras pessoas que não foram eleitas cheguem ao poder. Isso a gente interpreta como sendo um golpe, já que estamos ainda num regime democrático e não há necessidade de uma troca imediata de governo.

Passei pela ditadura. A semelhança é midiática e política. Da mesma forma que se deu o golpe para derrubar o Jango, a gente vê que a mídia vem se mexendo de uma forma semelhante. A mídia que era interessada em derrubar o governo daquela época, que era um governo popular. Da mesma forma, agora a gente vê uma semelhança com o governo popular que está sendo derrubado com o apoio da mídia. A mídia pressiona o Judiciário, pressiona os políticos, muitas vezes toma a iniciativa de fazer essas coisas. Isso foi igualzinho na época do Jango, me lembro muito bem. Eles estão tentanto a troca de poder, e uma troca de poder sem que seja através do voto, para mim é golpe.

Eu sou aposentado. O aposentado depende de uma coisa chamada aposentadoria para sobreviver. Os governos, como, por exemplo, do FHC, que solaparam muito as aposentadorias, estão querendo voltar ao esquema anterior. E acho que no esquema mais popular a gente fica mais protegido em relação à perda de poder aquisitivo das aposentadorias. Por isso queremos manter esse governo. Eu não aprovo tudo desse governo, mas acho que mesmo parcialmente ele ainda, para mim, pra população, é positivo. A alternativa seria bem pior. Não dá para dizer do futuro, mas pelo que aconteceu no passado, dá pra dizer que vai ser bem pior. Eu vi e vivi um golpe uma vez e não quero viver de novo.

Leda Beck, jornalista, 63 anosSONY DSC

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Não vim para protestar por porra nenhuma. Eu estou aqui pelo Estado de Direito. O que estão fazendo é um golpe parlamentar. Há muita controvérsia sobre o emprego do nome ‘golpe’ porque impeachment está na Constituição, mas é evidentemente um golpe parlamentar, no sentido literal da palavra, um soco. Eu estou aqui pelo Estado de Direito, eu quero votar para presidente e quero que o presidente fique no cargo. Se o Aécio tivesse sido eleito e tivesse essa movimentação de impeachment, nos termos que há contra Dilma, eu certamente estaria aqui também.

O discurso é o mesmo do golpe de 64. O discurso moralista. Como disse Dimenstein: “O discurso da moralidade tem a consistência de uma barra de manteiga na frigideira”. E é verdade, porque as pessoas que estão posando de vestais são notórios corruptos há 40 anos!

Essas manifestações da direita verdeamarelista me faz lembrar da TFP que, no tempo da ditadura, percorria as ruas com grupos de jovens engravatados e com bandeiras vermelhas, imagine, defendendo a tradição, a propriedade e a família e pedindo para pessoas assinarem abaixo-assinado contra o comunismo. Então, o que vejo em curso é a disseminação de uma quantidade absurda de informações erradas, que no tempo da ditadura dava para entender, porque estava tudo no garrote vil. Agora, com uma imprensa teoricamente livre, o que voce vê é a predominância de um discurso homogêneo, único. É o que me fez largar o jornalismo.

Temos um golpe parlamentar já em curso e só isso aqui, a mobilização, pode parar.

SONY DSCAparecida Barbara de Souza, professora, 65 anos

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Estou aqui para lutar pelos direitos sociais, educação, saúde, as conquistas que se alcançaram nos últimos 13 anos. Pensando nos jovens, no futuro… Minha avaliação é que o impeachment é um golpe da direita. Na ditadura militar, eu era estudante. São os mesmos grupos, as oligarquias, os grandes empresários e correntes políticas que tentam derrubar o presidente. O capitalismo cria isso. Os grupos dominantes não aceitam perder o poder. Na época da ditadura eu fazia História, tinha um movimento no interior da faculdade. Lembro quando Médici foi na minha cidade. Foi terrível, a polícia foi para cima de estudantes. É igualzinho o que a polícia do Alckmin faz com os estudantes. Eu vejo a cena se repetindo. A direita é muito organizada, continua do mesmo jeito, com o apoio dos mesmos meios de comunicação.

Confira aqui a primeira parte dos depoimentos.

Fotos: Ivan Longo

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