07 de março de 2018, 23h29

Homens, cuidem de suas mulheres

O verbo “cuidar” é controverso. Homens que não deixam as mulheres saírem nas ruas com saias curtas dizem que estão protegendo suas mulheres, por exemplo.

Ontem participei de um evento bacana no IFRS. Volta às aulas sem machismo. Sou grata pela oportunidade da troca. De verdade. Discutimos ideias, dei palestra e ouvi muitos pronunciamentos antes e depois da minha fala de… homens.

Eu fui a única mulher que usou o microfone – com exceção da menina que apresentou o evento.

Mas vá lá. Toca o bonde porque a gente está trocando a roda com o carro em movimento. Temos que viver os paradoxos. Não tem jeito.

Já estava incomodada com a falta de mulheres no protagonismo do evento. Mas piorou. Houve uma fala de um homem pelo dia Internacional da Mulher. Ele tinha boas intenções. Não tenho dúvidas disso. Mas ele terminou o seu discurso com:

– Homens, cuidem de suas mulheres!

E foi aplaudido.

Vixi.

Era Simone de Beauvoir se movendo no caixão de um lado e eu na cadeira do outro.

Percebo que há um mundo mesmo a ser desconstruído e como o machismo e o racismo são estruturais. É realmente muito difícil mudar tudo isso pela complexidade inerente a qualquer realidade. É um trabalho de formiguinha e não podemos desistir. Por isso escrevo agora.

O verbo “cuidar” é controverso. Homens que não deixam as mulheres saírem nas ruas com saias curtas dizem que estão protegendo suas mulheres, por exemplo. Homens que matam quem mexe com a sua mulher também. Idem com os que proíbem suas mulheres de viajar sozinhas, de estudar, de andar com quem ela quiser… tudo proteção, dizem. Há pais que espancam seus filhos e entendem isso como uma forma de cuidado, vale observar.

Esse discurso com o vocativo “Homens” é um dos mais arriscados, penso eu, porque os conceitos não têm o mesmo significado para todos eles: “cuidar”, “suas” e “mulheres”. Basta uma conversa na mesa de um bar com quatro maridos para entender o que estou querendo dizer.

Continuando. O pronome possessivo poderia ter sido dispensado. Por que cuidar só da sua mulher? Por que ele não falou: “Homens, cuidem de todas as mulheres”? Será por que ele não gostaria que nenhum outro homem “cuidasse” da “sua” mulher?

Entendem como a nossa linguagem nos entrega e como temos que nos policiar para mudar essa estrutura do discurso porque ele molda a nossa forma de pensar e ver o mundo?

É sutil. Quer dizer, nem sei se é tão sutil assim.

O que poderia significar na cabeça dos homens a ordem “Homens, cuidem de todas as mulheres!”? Seria um cárcere privado generalizado para nós? E por que diabos nós, mulheres, precisamos de cuidados? Será por que eles nos vêem como seres mais frágeis? Cuidar temos que cuidar de qualquer ser vivo. Acho eu. Mas quando escuto “cuide de sua mulher” percebo aí claramente um ser que se acha superior.

Posso estar errada?

Não.

Não neste caso.

Explico-me. Ainda que você homem que esteja me lendo não se veja nesse papel de opressor quando aplaude esse discurso, pode ter certeza de que muitos outros usam essa fala aparentemente bem intencionada para nos amordaçar.

Por isso, do meu referencial, eu não estou errada em ter me sentido não só muito mal mas, também, com muito medo do que temos pela frente ainda para viver.

O melhor mesmo, para aqueles que querem, de verdade, ser menos machistas, é ouvir as mulheres assim como devemos prestar toda a atenção no povo preto, como eles se denominam, quando queremos desconstruir o racismo que há em nós.

Pensem no motivo pelo qual essa frase “Homens, cuidem de suas mulheres” não lhes pareceu agressiva ou opressora e o quanto ela pode ser um desserviço para a luta feminista visto por esse ângulo que apontei aqui.

Se refletir, já ajuda. E muito.

E, para finalizar:

– Homens, cuidem de vocês, policiem seus discursos, observem a postura de seus amigos. Na menor percepção de uma atitude preconceituosa, não deixem de apontá-la e repreendê-la. E, ao menos, em eventos contra o machismo, ainda que reconheçamos as melhores das intenções de vocês, cedam-nos o seu tempo no microfone, deixem-nos que falemos mais e por nós mesmas.