13 de novembro de 2018, 22h48

Houston, we have a solution! (Houston, temos uma solução!)

Fernando Lara, em mais um artigo para o Urbanidades, analisa as eleições no Brasil e Estados Unidos: “Temos de voltar às bases, organizar cada bairro e lutar por cada vereador”

Foto: Divulgação

Na semana passada tivemos eleições para governadores, legislativo e judiciário nos EUA. Sim, existe eleição para juízes aqui, algo que até bem pouco tempos atrás me parecia estranho mas agora penso ser o melhor controle externo possível dado o nível de politização do terceiro poder. Se é pra ter juiz fazendo política, que façam campanhas e ganhem (ou percam) eleições.

Mas antes de falar do que aconteceu em Houston, vejamos como o jornalismo brasileiro reportou as eleições norte-americanas. Uma passada rápida na grande midia nos mostra o total alinhamento com o pensamento conservador norte-americano. Trump vence no senado e se coloca como candidato a reeleição, foi o texto mais publicado. Alguém percebeu que os democratas ganharam maioria na câmara de deputados e com isso vão poder bloquear toda a agenda legislativa nos próximos 2 anos de Trump? Alguém percebeu que os democratas terão o poder de investigar até as atas de reuniões de condomínio da família Trump?

Ah, dirão os céticos, duvido que os democratas queiram ir tão longe, pode ser melhor ficar fazendo “oposição responsável” contra um governo desgastado enquanto preparam candidatxs para 2020. Beto O’Rourke, candidato ao senado derrotado no Texas, já se coloca como um nome desta linha. O comportamento dos democratas no passado sempre foi este: oposição moderada, nada que comprometa a hegemonia capitalista e sua indústria militar. Afinal de contas eram todos homens brancos anglos, como O’Rourke.

Eram.

Os deputados democratas eleitos na semana passada são o grupo com mais diversidade da história. O número total de mulheres chega a 104 (21%, um pouco acima dos 15% do Brasil) assim como o número de mulheres negras, latinas e indígenas. Alexandria Ocasio-Cortez é por enquanto a mais famosa deste grupo. Latina, residente no Bronx em Nova York, Ocasio-Cortez é aos 27 anos a mais jovem mulher eleita para o congresso, derrotando nas primárias do partido democrata um deputado anglo branco que tinha sido reeleito seguidamente desde 1999.

Este grupo de democratas não-homem-brancos são quase exatamente a metade dos 232 que o partido elegeu em 2018. Para efeito de comparação, 97% dos republicanos eleitos são brancos, 76% são homens brancos.  Estes são os congressistas que vão pular na garganta de Donald Trump aproveitando todas as bravatas que o presidente faz questão de dizer na TV ou escrever no Twitter.

Qualquer semelhança com o presidente eleito no Brasil não é mera coincidência. A diferença fica por conta da rápida reação progressista que não apenas conquistou maioria na câmara dois anos depois da eleição presidencial, mas principalmente o fez com candidatos que representam justamente o oposto do patriarcado no poder. Entenderam por que Marielle era tão importante?

A cereja do bolo fica por conta de Houston. A quarta maior cidade dos EUA com quase 5 milhões de habitantes se espalha por três countries, ou condados, uma divisão política norte-americana que organiza a polícia e o poder judiciário local. Em um desses condados, onde vivem 4 milhões, 19 mulheres negras se candidataram juntas a posições de juízas, num condado onde 59 juízes e promotores são eleitos. Os democratas venceram todas as 59 eleições, mas o fato significativo foi a eleição destas 19 mulheres negras.

Repetindo: Dezenove. Mulheres. Negras. Eleitas para o judiciário.

A eleição destas 19 mostra que existe esperança. Temos de voltar às bases, organizar cada bairro e lutar por cada vereador. O sucesso do PT a nível nacional entre 2002 e 2014 foi conquistado a custa do abandono das câmaras de vereadores e das assembleias legislativas. Quando olho para os jovens da periferia se formando nas melhores universidade federais penso que valeu a pena a estratégia. Mas a fatura chegou e vamos pagar o preço da desmobilização na próxima década.

Como astronautas vagando sem combustível no espaço sideral da extrema direita mundial, Houston, we have a problem! (Houston, nós temos um problema!).

Como batalhadores por um mundo mais justo que acreditam na diversidade como resultado e também ferramenta de igualdade social, Houston we have a solution! (Housgton, temos uma solução!).

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