26 de março de 2018, 11h01

Identitarismo e luta de classes: breves apontamentos

Em seu novo texto, Andrea Caldas analisa: A luta pelo socialismo é a luta pela humanização mais plena. O que significa incorporar os sujeitos que são desprovidos de direitos e os que são vítimas de violências

Nossa batalha precisa acontecer não só no plano do discurso e sim na ação concreta para que a nova sociedade que pretendemos construir seja menos cindida, menos partida, menos particularista e mais universal – Foto: Wikimedia Commons

1 – Há um desconforto crescente com a despolarização ideológica das chamadas lutas identitárias, parte delas capturadas pelo ideário liberal, notadamente o dos EUA, especialmente, por financiadores globais.

2 – Há uma uma importante e necessária crítica dos marxistas de que retirar a relação capital e trabalho da centralidade é preocupante, justamente, em tempos de regressividade de direitos sociais e trabalhistas.

3 – Há uma crítica fundamental de que a ação política mesmo na esquerda reproduz os padrões hetero, macho e branco sem dar espaço para mulheres, LGBT, negros (as), indígenas. Nesta direção várias análises apontam que a abolição do capitalismo não suprime de per se o racismo, o machismo e a homofobia. Ou seja, é preciso buscar a intersetorialidade das pautas.

4 – E há, por fim, o que para mim é elemento mais preocupante: a distorção do conceito do lugar de fala que tem servido para elidir discursos e estabelecer autocracias políticas de grupos.

Minha breve e inicial conclusão: a luta pelo socialismo é a luta pela humanização mais plena.

O que significa incorporar os sujeitos que são desprovidos de direitos e os que são vítimas de violências.

Incorporar não só discursivamente, mas na prática concreta.

Todavia é preciso lembrar que negar o direito de fala é algo que o capitalismo fez.

Assim como negar o espaço material de poder.

Reproduzi-lo com sinal invertido não nos ajudará a chegar em um mundo mais democrático e inclusivo.

Isto vale para a esquerda branca, macho e hetero e vale para os que acham que os grupos identitários absolutos levarão a algum lugar a não ser às bolhas autorreferentes.

Luis Filipe Miguel já escreveu sobre a distorção do conceito de lugar de fala:

“Lugar de fala” virou uma ferramenta de exclusão. “Ter lugar de fala” é um bilhete de acesso, numa leitura literal da metáfora: é ter assento numa assembleia exclusiva. Quem “não tem lugar de fala” não tem assento, logo deve ser expulso, isto é, se calar. Mas a ideia de lugar de fala remetia ao entendimento de que todo discurso é socialmente posicionado. Em oposição a compreensões racionalistas, que julgam que os discursos devem ser avaliados por seus argumentos abstratos, a ideia de lugar de fala indicava que a identidade do falante nunca é irrelevante. As posições socialmente estruturadas geram perspectivas que informam os discursos. Por isso, independentemente de seus valores, ideais ou simpatias, mulheres e homens, negros e brancos, trabalhadores e patrões, gays e heteros, vão manifestar visões diferentes de mundo. Isso é um alerta que visa produzir uma leitura menos ingênua e mais informada de todos os discursos presentes no mundo social. Não é um veto”.

Concluo com Agnes Heller que nos adverte que na sociedade de classes ninguém pode ter a pretensão do discurso universal, porque a existência concreta na sociedade partida não nos permite o acesso à compreensão universal. Não, ninguém pode se arvorar de pitonisa do universal.

É a existência que determina a essência, disse Marx em oposição a Hegel.

Logo, nossa batalha precisa acontecer não só no plano do discurso e sim na ação concreta para que a nova sociedade que pretendemos construir seja menos cindida, menos partida, menos particularista e mais universal.

E só poderemos fazer isto juntos: na unidade como síntese da diversidade.