12 de outubro de 2018, 08h47

Uma família brasileira perante as eleições de 2018

"Minha mãe, Marlene, foi torturada por uma equipe sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, aquele que o deputado Jair Bolsonaro homenageou", relata o professor da UFABC

O candidato fascista adora a palavra “família”.

Vamos então falar de família. A minha, por exemplo.

Em março de 1973, quando eu tinha 16 anos de idade, minha mãe, a artista plástica Marlene Crespo, foi presa pelo aparato de repressão política da ditadura militar. Ela era militante de base do PCdoB. Na prática, participava de reuniões onde se discutia política. Nada mais do que isso.

Minha mãe morava em São Paulo, mas foi presa em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, para onde viajava com frequência, para receber o aluguel de um imóvel que meu avô deixou de herança.

Soubemos da prisão pelo inquilino, que telefonou para o meu tio-avô, em São Paulo, Ficamos cinco dias sem saber do paradeiro dela, rodando a cidade, junto com o meu pai, de quem ela já estava separada: do quartel-general do II Exército para o Dops, de lá para o DEIC, a polícia civil, no Parque Dom Pedro II.

Não sabíamos se ela estava viva ou morta. Um delegado do DEIC disse ao meu pai, eu estava junto e ouvi: “Se for prisão legal, ela deve estar no Dops, se não…”

Finalmente, depois de muitas negativas, o soldado que estava de plantão no DOI-Codi, o famoso centro de torturas na rua Tomás Carvalhal, admitiu indiretamente que ela estava lá.

Conforme o advogado nos explicou, havia uma espécie de código entre o aparelho de repressão e os familiares dos presos. Nos primeiros dias, nós levamos ao DOI-Codi uma cestinha com cigarro, chocolate e biscoitos para a Marlene. O guarda nos mandava embora com nossas coisas, dizendo que lá não tinha ninguém com o nome dela. No quinto dia da prisão o guarda disse: “Ela não está aqui, mas, se vocês quiserem, podem deixar aqui essa cestinha”. Era uma maneira de dizer que ela estava lá, e viva, sem o compromisso de admitir a prisão e se responsabilizar pela sua vida.

Por aqueles dias, nosso advogado, Idibal Piveta, também foi preso, e o caso foi passado para o seu sócio Airton Soares, que mais tarde foi eleito deputado federal pelo MDB e mais adiante se tornou um dos fundadores do PT. Imaginem: se até o advogado encarregado de defender a minha mãe tinha sido preso, o que se podia imaginar que iria acontecer com ela?

Nós éramos três filhos, eu (o mais velho), o Carlos e o Bruno Fuser. Todas as manhãs, um de nós ia de táxi até o DOI-Codi, levando a famosa cesta de presentes e acompanhado sempre da minha avó, Ivete, já idosa. Minha avó, que sempre tinha sido uma pessoa de direita, anticomunista, leitora de Seleções do Readers’ Digest e frequentadora de uma paróquia católica especialmente reacionária, ficou contra a ditadura ao ver o que estavam fazendo com sua filha.

Éramos três meninos, angustiados sem saber da verdadeira situação da mãe, refém de um organismo estatal que não existia oficialmente, e que nem sequer reconhecia que a tinha sob sua custódia. Essa era a nossa família, de verdade, não essa fantasia a que se referem o Bolsonaro e os falsos cristãos, moralistas hipócritas.

Enquanto nós percorríamos a via-sacra em busca de notícias, minha mãe estava sendo torturada. Queriam que ela delatasse seus companheiros, coisa que ela não fez. Anos depois, quando eu era candidato à diretoria da União Estadual dos Estudantes, um aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), um daqueles estudantes “mais velhos”, de barba branca, me abordou e disse: “Você não me conhece, mas eu sei quem você é. Escapei de ser preso porque a tua mãe não me entregou pra repressão. Mande um abraço pra ela”. Disse isso e falou o nome. Quando relatei o episódio, minha mãe se emocionou e confirmou tudo.

Pois a minha mãe, Marlene, foi torturada por uma equipe sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, aquele que o deputado Jair Bolsonaro homenageou ao votar pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Minha mãe viu esse facínora, o Ustra, quando estava no DOI-Codi, ele sempre na atitude daquele que manda.

Por conta das torturas, minha mãe foi internada no Hospital das Clínicas de São Paulo. Mas não delatou ninguém, nem mesmo confessou sua condição de militante. Por conta disso, escapou de ser processada e acabou sendo libertada, depois de passar, no total, três semanas no DOI-Codi, incomunicável, e outras cinco semanas no DOPS, onde já podíamos visitá-la.

Minha mãe saiu da prisão e seguiu a vida, voltou ao seu emprego de revisora na Editora Nacional e passou a desenhar mais e melhor do que antes. Mas as marcas da prisão e da tortura — na alma, não no corpo — permanecem até hoje.

Aos 86 anos, ela está finalizando o livro “Desenhos da Resistência”, com sua produção gráfica nos tempos da ditadura. O livro está sendo produzido pela Editora Expressão Popular e o lançamento está programado para o início de novembro. Se ainda existir Brasil até lá.

Família…

Bolsonaro,  fascista de m…, defensor das torturas, cínico e mau caráter, eu sei muito bem o que é família, e tenho muito orgulho da minha.

Todos nós, meu pai, minha mãe Marlene, todos os seus filhos e netos e noras, votaremos no Haddad, pra derrotar você, seu fdp!