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22 de fevereiro de 2018, 16h09

Imagine os traficantes cantando “Imagine”

A piada que corre pede para substituir a intervenção pela canção de John Lennon

Logo após a intervenção militar de Temer no Rio de Janeiro ser anunciada, surgiu uma piada a respeito da canção “Imagine”, de John Lennon. Nela, os favoráveis à intervenção diziam que, ao invés de subir os morros com o exército, seria melhor subir com vários artistas cantando a canção do ex-beatle. Os traficantes, emocionados, entregariam as armas e viveríamos então em paz. Ironias à parte, nem os a favor e muito menos os contra aventam a possibilidade de resolver problemas sérios e estruturais com músicas, sejam elas quais forem. No entanto, uma boa debruçada sobre a linda e famosa canção...

Logo após a intervenção militar de Temer no Rio de Janeiro ser anunciada, surgiu uma piada a respeito da canção “Imagine”, de John Lennon. Nela, os favoráveis à intervenção diziam que, ao invés de subir os morros com o exército, seria melhor subir com vários artistas cantando a canção do ex-beatle. Os traficantes, emocionados, entregariam as armas e viveríamos então em paz.

Ironias à parte, nem os a favor e muito menos os contra aventam a possibilidade de resolver problemas sérios e estruturais com músicas, sejam elas quais forem. No entanto, uma boa debruçada sobre a linda e famosa canção suscitará, sobretudo nos incautos, uma série de surpresas. Está ali, para quem quiser ver e ouvir, uma bela receita de como se transformar o mundo.

“Imagine” é, apesar da candura da melodia, um tiro certeiro em todos os pilares da sociedade cristã moderna baseada na propriedade privada, religião, pátria e poderio bélico. É impossível não deixar de achar jocoso e irônico ver pessoas com sérios desvios à direita entoando emocionadas e de mãos dadas versos como “Imagine que não há propriedades, países e nem religiões” e por aí afora.

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Lennon sofreu um longo processo de perseguição nos EUA quando resolveu morar lá. O seu “tríplex”, ou seja, o pretexto para a sua expulsão, era um processo por posse de haxixe sofrido ainda no Reino Unido, em 1968. O fato por baixo do fato, no entanto, é que ele era um ativista político considerado absolutamente inoportuno pelo governo do republicano Richard Nixon.

Estava envolvido até a tampa com gente do calibre de Jerry Rubin, Abbie Hoffman e John Sinclair, militou contra a guerra do Vietnã, a libertação da Irlanda, deu seu apoio formal ao Partido dos Panteras Negras e participou ativamente na campanha pela libertação de Angela Davis.

A milhas e milhas de distância do inofensivo Beatle dos tempos do yeah, yeah, yeah, Lennon, ao lado de sua esposa Yoko Ono, enfrentou lutas que se renovam e estão na linha de frente ainda hoje, particularmente a das mulheres. A canção “Woman is The Niger of World (A mulher é o negro do mundo)” é um exemplo tocante: “We make her paint her face and dance/If she won’t be a slave, we say that she don’t love us (Nós as fazemos pintar o rosto e dançar/Se elas não forem escravas, dizemos que elas não nos amam)”.

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O ponto “G” da questão é que as pessoas que ironizam o poder da canção e também aqueles que as cantam de mãos dadas sem ter ideia do que estão dizendo deveriam, de fato, ao menos algumas vezes ao dia “imaginar” com o autor.

Cantar “Imagine” não vai fazer ninguém se desfazer das armas. Mas o receituário para diminuir as mazelas decorrentes da miséria, o tráfico de drogas, a exclusão e a falta de oportunidades dos povos pobres está ali sim, sem tirar nem pôr, nos versos de Lennon.

Portanto, muito cuidado ao cantá-la.

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